Pedro Estorninho, encenador, dramaturgo e ator, é o nosso convidado para mais uma reflexão sobre o teatro profissional em Gaia. Nascido em Lisboa, mas com fortes raízes no Alentejo, a sua carreira tem passado por diversas companhias e espaços de criação nacionais e estrangeiros, como A Barraca e Teatro da Trindade (Lisboa), Panmixia (Porto), Companhia de Teatro de Sintra, Companhia de Teatro de Portel, Satyros (Brasil), CriArTeatro (Cabo Verde), Teatro Comunale Benevento (Itália) ou Theatre Repetition (França). Em maio de 2006, foi ator convidado para a Opera Oratorium “Une Femme de Parole”, do compositor Thierry Machuel, com encenação de Pierre Voltz e apresentações em Nancy, Paris e festival Ille de France. Em 2008 fundou, e dirige artisticamente desde então, o TEatroensaio, estrutura com sede no Porto, cidade-palco da maioria das suas produções, mas que nos últimos anos tem percorrido o sul do país, nomeadamente a cidade de Évora e a vila de Arraiolos. A partir do próximo ano, a cidade da margem esquerda da foz rio Douro será também porto de abrigo da sua companhia, onde ancorará pelo menos uma vez por ano para mostrar as mais recentes criações no auditório da Tuna Musical de Santa Marinha, popular coletividade do centro histórico de Gaia. Passemos-lhe a palavra:

 

Que razões presidiram à fundação do TEatroensaio, que balanço fazes destes primeiros 13 anos de atividade da companhia e quais os objetivos para o futuro?

O TEatroensaio surge/nasce da vontade de três pessoas, que ainda fazem parte do coletivo, a Inês Leite (atriz encenadora), o Pedro Ferreira (fotojornalista escritor) e eu. O objetivo era criar uma estrutura que, tivesse como linha de trabalho a criação, a formação, a pesquisa e a edição. Não nos focarmos somente no palco, mas também pensarmos teatro com quem está noutras áreas, e assim foi. Quanto ao balanço é bastante positivo, atingimos as metas a que nos propusemos, ou seja chegar ao apoio sustentado, trabalhar e colocar jovens profissionais em palco com atores já experientes, avançarmos para três polos de trabalho Norte, Beira (Guarda) e Alentejo (Arraiolos), lançar a nossa publicação (Ensaios de Teatro) anualmente, termos tido várias coproduções com companhias independentes, como o Teatro Art`Imagem ou o Cendrev, entre outros, e também com o TNSJ, apresentarmos os nossos espetáculos pelo país e termos tido tempo para “pensar teatro” com profissionais de outros saberes.  Até agora temos cumprindo o sonho. Em relação ao futuro queremos continuar o trabalho que até agora tem sido feito, e temos como grande objetivo fortalecer a estrutura, agregar/fixar mais trabalhadores, adivinham-se três anos, para já, de bastante trabalho com novidades tanto a nível de cocriações, trabalho internacional e muitos amigos que disseram “presente” ao nosso projeto. Vamos também iniciar uma parceria a longo prazo em Gaia, com a Tuna Musical de Santa Marinha, o que nos irá dar bastante prazer.

 

Será a primeira vez, segundo creio, que o TEatroensaio se apresenta em Gaia. Que projeto marcará a estreia da companhia na margem esquerda do rio Douro?

Na verdade, sim, é a primeira vez que apresentamos espetáculos em Gaia, mas na vertente da formação já temos uma parceria desde 2013 com a APELGA (Associação de Pais e Encarregados de Educação da Escola Secundária Almeida Garrett ESAG), onde desenvolvemos oficinas de teatro, debates e os lançamentos da nossa “Ensaios de Teatro”, parceria que se mantém e continua a ter a ESAG como palco de trabalho. O primeiro projeto que iremos apresentar em abril de 2022 na Tuna Musical de Santa Marinha tem como título “No Tempo em Que se Falava Teatro”! Não sei se lhe podemos chamar criação, pois consiste numa conversa/revisitação pelo teatro e não só, no período pré-Covid. Esta será uma conversa a oito mãos: a Clara Nogueira, o Mário Moutinho, o José Topa e eu. Poderá ter alguns convidados surpresa, mas no essencial será uma conversa entre amigos, atores e amigos que têm trabalhado connosco, têm sonhado connosco e acima de tudo, pensado connosco. Será uma boa surpresa.

 

E que outras boas surpresas acontecerão no primeiro ano dessa da vossa parceria com a Tuna Musical de Santa Marinha, que possam desde já anunciar-se?

Para 2022 e que podemos já anunciar, teremos em novembro “Dordio Uma Vida de Cor” espetáculo sobre a vida e obra do Pintor Dordio Gomes, decerto um dos maiores nomes do Modernismo! Nascido em Arraiolos estudou na Escola de Belas Artes em Lisboa e foi professor na Faculdade de Belas Artes do Porto, cidade onde ficaria a residir até à sua morte. Teve na sua sala de aulas o Resende, o Lanhas, entre tantos outros. Foi para Paris com uma bolsa estudar e teve por companheiros Santa Rita Pintor e o escultor Francisco Franco, em Portugal privou com Milly Possoz, Almada, Viana, entre outros. Um trabalho em coprodução com a Câmara Municipal de Arraiolos. Neste processo de pesquisa tivemos a sorte e o prazer da companhia do Mestre José Bizarro que também estudou no Porto e conheceu Dordio. Confesso que foi um texto que me deu bastante prazer em escrever.

 

Na tua opinião, o que falta para que Gaia se constitua como alternativa à oferta cultural da cidade do Porto, designadamente no domínio das artes performativas?

Terei com certeza mais questões que soluções. essa pergunta leva-me de imediato para um nome, um exemplo, Joaquim Benite! Almada cidade existe hoje assim culturalmente, devido ao trabalho do Benite! Vila Nova de Gaia sofre a mesma condição geográfica, é a cidade do outro lado! Quanto à minha opinião, ou modesto contributo, enfim…colocaria uma série de questões/dúvidas: O que leva à não fixação, ou criação de estruturas profissionais em Gaia? (tirando dois ou três exemplos conhecidos) Que política municipal existe (em linha com a estatal claro) para motivar/promover o teatro profissional a sua criação? Sabemos que a palavra Teatro não é estranha ao concelho, é longo o curriculum do teatro associativo e amador. Penso que Vila Nova de Gaia tem um potencial enorme para o enraizamento do teatro profissional, não tem de ser apenas um palco de acolhimento para quando faltam salas no Porto, mas tem de ter efetivamente vontade política (e não só) para que existam condições que permitam a criação, a formação, o pensamento artístico e a estabilidade para quem quer trabalhar no concelho. Falei há pouco do Joaquim Benite em Almada, outros exemplos existem: os Aloés do Peixoto na Amadora, a Companhia de Teatro de Sintra, também em Almada o Teatro Extremo, o Teatrosfera em Queluz, o Teatro Art`Imagem na Maia. Exemplos da descentralização na malha suburbana. É possível, mas as vontades têm de existir.

 

Além de ser um poderoso instrumento de inclusão e cidadania, o teatro pode constituir-se num importante meio de criação de valor económico. Concordas?

Concordo claro! Tanto num plano direto como indireto, e surgem-me logo dois nomes dois festivais: Avignon e Almada, numa escala diferente, mas no mesmo grau de importância. O impacto e crescimento económico nas duas regiões é brutal, ultrapassando a ordem dos milhares. Tal como podemos também observar esse mesmo impacto em pequenas e médias cidades como Covilhã, Évora, Guimarães, Braga e porque não Montemuro, etc. Daí, e não só, advém a importância do investimento no interior do país, levando à fixação de pessoas (famílias), a novas oportunidades de revitalização tanto de mercado, como sociais. Para já não falar de capital produzido que, entra diretamente como receita para os cofres do estado. Relatórios não faltam como por exemplo o Relatório Mateus.

 

Como explicas, então, que ainda haja, entre os nossos autarcas, quem olhe de lado para o investimento público nas artes performativas e no teatro em particular?

Daria pano para mangas … eu começaria por dizer que a maior parte não entende a diferença entre cultura e entretenimento. De seguida existe um processo, que pode ser uma pescadinha de rabo na boca, para exigires cultura, para quereres cultura não podes ter medo de outras formas de análise, de pensamento. Quem tem esse poder de investir ou não, na arte, na cultura para o seu território não tem por vezes a mínima capacidade, sensibilidade intelectual, ou conhecimento para o fazer, nem tão pouco interesse ou vontade económica para aplicar verbas em tal, venha de lá a rotunda que dá jeito a uns tantos, umas migalhas que dá jeito a outros tantos e viva a festa com uns foguetes no fim! Também podemos ir pelo velho chavão “A cultura não dá votos!”, mas de seguida damos uma série de exemplos contrários. É um ciclo viciado complicado de romper. O meu pai, se aqui o posso dizer, dizia-me “Quem tem livros nas estantes em casa lê. Quem não tem, só pensa em verniz para abrilhantá-las!”.

 

No caso concreto de Gaia, por haver muitos grupos de teatro amador, há quem defenda que não há necessidade de pensar em teatro profissional. O que te parece?

É um erro tremendo pensar assim! Primeiro porque falamos sim de um todo chamado Teatro, mas da função do mesmo em diferentes planos, começando pela formação, pela proposta, pela continuidade de uma filosofia de trabalho, etc. Afirmar algo semelhante é mais uma vez a negação de um serviço público como o da saúde, da educação e por aí fora.

 

Eu diria, aliás, que a concertação de estratégias entre o teatro amador e o profissional propiciaria a criação de um círculo virtuoso da oferta teatral em Gaia? O que achas?

Evidente! Não querendo repetir-me, novamente digo, exemplos não faltam de bons casamentos entre os dois: Comédias do Minho, Guimarães, Paredes, Almada, Amadora, entre outros. Uma coisa nunca anulará a outra, criam sim sinergias muito interessantes, acima de tudo enriquecem-se tanto artisticamente, como tecnicamente, e fazendo escola claro! Levando a que se mantenha vivo o sonho e a paixão em momentos mais complicados. Penso que é de uma certa forma um compromisso com o futuro!

 

Além do estabelecimento de parcerias com os grupos amadores, que tipo de papel devia ter o teatro profissional na sua relação com a comunidade escolar local?

Em primeiro lugar a de criar gosto pelo teatro, criar público! E claro proporcionar a experienciação, mostrar a diversidade que existe nesta grande máquina do mundo que é o teatro! E obviamente explicar/demonstrar que é uma das maiores ferramentas para desenvolver pensamento, linguagem e conhecimento!!!

 

E os espetáculos iniciáticos, ou seja, os primeiros a que as crianças assistem, devem cruzar o teatro com outras artes, ou essa multidisciplinaridade é irrelevante?

É de importância maior claro! Começando pela música. Penso que é mesmo muito importante, é o começo da grande descoberta.

 

A terminar, porque a conversa já vai longa, quais são os projetos que tens neste momento em mãos e por onde andará o TEatroensaio antes da sua primeira paragem em Gaia?

A nível pessoal sairá brevemente o meu novo livro “Memórias do Realismo Mágico”, terceiro título que publico na editora “página a página”. No final do ano teremos o espetáculo com a comunidade de Arraiolos “Tapete Uma História sem Tempo”, em coprodução com a Câmara Municipal. Andaremos também em circulação com os espetáculos “Dordio Uma Vida de Cor” e o “Doido e a Morte” no Teatro Art´Imagem [Maia] e em Famalicão da Serra [Guarda]. E ainda em dezembro iremos também lançar a nossa publicação [anual] “Ensaios de Teatro”.