Numa entrevista conjunta com Luísa Brasil, o escritor D’Araújo Campos explicou ao AUDIÊNCIA em que consiste o seu segundo livro, “Misericordia et Justitia” uma obra que foca a altura da inquisição e que viaja até terras brasileiras, atrevendo-se, modestamente, o autor a considerá-la quase que uma continuação (cronológica/histórica) do livro de José Saramago, “Memorial do Convento”.

Apesar de a literatura fazer parte deste matosinhense que decidiu migrar para os Açores, também a pintura parece ser uma paixão que poderá dar frutos em breve.

D’Araújo Campos foi o nome que adoptou para identificar a sua obra literária, que começou aqui na ilha Terceira, e o seu mais recente livro teve um primeiro lançamento no último semestre de 2017, correcto?
Sim. Este livro caracteriza-se pela mesma metodologia em termos de escrita (bastante investigação e variada) e vem um pouco na sequência do anterior, intitulado “Ilha do Desassossego”. Creio que também traduz um pouco da evolução da própria escrita neste segundo livro, relativamente ao primeiro, embora o tema abordado seja totalmente diferente. De qualquer maneira, constato pessoalmente, e de algumas opiniões que me têm dado, que, realmente, nota-se neste segundo livro uma evolução a nível literário relativamente ao primeiro livro, o que me deixa bastante satisfeito para uma próxima evolução maior no livro que vier a seguir.

 

Qual o tema que aborda neste segundo livro?
Este livro começa exatamente onde acaba o livro de José Saramago, “Memorial do Convento”, isto é, com o auto de fé realizado pela Inquisição, a 17 de outubro de 1739 no Rossio, em que é queimado, por ser considerado herege, António José da Silva, designado por “O Judeu” e que também já foi alvo de tratamento literário por outros autores, nomeadamente Camilo Castelo Branco ou Sebastião da Gama e Bernardo Santareno, precisamente com o título “O Judeu”. Portanto, o meu livro começa exatamente onde acaba esse auto de fé com esse relato e onde vai aparecer uma personagem açoriana que é um rapazito de 14 anos (Sebastião) que vai ser o herói da história, que vai parar à Inquisição por actos de sodomia praticados com um padre num seminário da Ilha Terceira. São presos e levados para Lisboa, onde são ser julgados e objecto de condenações. O padre é condenado por pouca coisa e, por ser padre, é desterrado para terras de Castro Meirim, porque naquela altura o Algarve já era desterro, e o rapaz é condenado a cinco anos para o Brasil, que era para onde iam os degradados. A história, depois, passa-se a desenrolar no Brasil, onde ele vai conhecer uma sujeita que era escrava. Antigamente os escravos vinham da costa africana, da Costa de Marfim ou Guiné, e eram raptados às famílias e essa menina veio com cinco anos para o Brasil e, depois de ser vendida e comprada, vai para casa de uns senhores. Naquela época, no tempo de D. João V, havia a febre da corrida ao ouro, e foram-se constituindo diversos arraiais, onde montavam as tendas para a exploração do ouro junto dos ribeiros. Essa exploração era feita só por homens e era evidente que era necessário ter lá mulheres. Portanto, ela começa como prostituta e depois vai acabar por conhecer o Sebastião e a história desenrola-se a partir daí.
Só com a leitura do livro se compreenderá a totalidade da história.

Quem esteve consigo na apresentação do livro na ilha Terceira?
A apresentação do livro decorreu no Salão Nobre da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo e foi feita pelo Cónego Francisco Dolores, pároco da Igreja da Conceição, em Angra do Heroísmo, uma figura bastante prestigiada na ilha e não só. Teve também uma pequena leitura de uma passagem do livro, feita por outra pessoa conhecida da ilha, ex-Vereadora da Cultura durante longos anos, que se chama Dr.ª Luísa Brasil, e contou com a presença do Exmo. Senhor Presidente da respectiva Câmara e de diversas outras personalidades.

 

Qual o feedback que tem tido do livro e das pessoas que estiveram consigo?
O feedback tem sido bom, como já referi anteriormente tenho tido algumas opiniões que dizem que evoluí na escrita neste segundo livro ou, pelo menos, este livro apresenta uma certa evolução na escrita o que me deixa satisfeito, e dá-me alento para avançar para um próximo livro com mais evolução ainda.

 

Qual a diferença da água salgada de Matosinhos e a água salgada de Angra do Heroísmo, da ilha Terceira?
A água salgada de Matosinhos é mais intensa, o salgado é mais intenso, a água é mais fria, e talvez seja isso que a torna mais intensa. As ondas e a rebentação são mais fortes porque é a nível de costa, aqui já se sabe que as águas são mais tranquilas, são mais calmas, a temperatura da água é mais amena, e a rebentação não é de costa.
De qualquer forma atrevo-me a parafrasear Fernando Pessoa: “Ó mar salgado quanto do teu sal são lágrimas de Portugal”.

 

E o escritor como se sente na ilha Terceira?
Quando se chega pela primeira vez a uma ilha dos Açores, entramos num outro mundo de vivências, onde tudo é quase completamente diferente do meio de onde viemos. Há, pois, necessariamente um período de adaptação, porque são mundos diferentes, é tudo completamente diferente, a própria agitação do dia-a-dia é diferente, há um imenso mar que nos envolve constantemente e isso transporta-nos para uma calma e tranquilidade que nos proporciona realmente esse alento da escrita muito mais descontraída, talvez até mais intimista. Consegue-se criar essa maior intimidade pelo sossego e pela natureza que nos rodeia que, se calhar, nos dá uma inspiração maior do que uma escrita na cidade.

 

 

 

Quais as principais diferenças entre José Campos e D’Araújo Campos?
Eu creio que não há diferenças, eu tento retratar realmente aquilo que sou. Na escrita está muito traduzida aquilo que é parte da minha personalidade e da minha forma de ver e de estar no mundo. Por vezes, nas personagens principais ou numa ou outra personagem, para quem me conhecer bem eu estou lá identificado.

 

Como é que um escritor que escolheu uma ilha pequena em termos populacionais como a Terceira para viver faz chegar a sua obra para além das muralhas de uma ilha?
É difícil e complicado. Hoje em dia qualquer pessoa edita um livro, o que há mais são editoras, basta pagar que elas editam o livro. Agora, fazer sair o livro para o público, é preciso uma grande movimentação a nível editorial, é precisa muita publicidade, muito marketing, e a minha escrita não entra nesse esquema. A minha escrita é para quem a quiser descobrir e há-de descobri-la um dia seja por que método for.

 

Há uns anos decidiu partilhar a sua vida com um expoente da cultura da ilha Terceira. Alguém que deixou a sua marca enquanto vereadora da área nesse município, falo de Luísa Brasil. O que é que esse facto tem contribuído para a sua experiência literária?
Antes do contributo e incentivo para a experiência literária, houve o incentivo para a minha licenciatura em “Estudos Artísticos”. Antes de vir para cá rascunhava umas coisas e depois, a partir de uma certa altura, houve um concurso de uma artista terceirense que vive na Holanda que pretendia um texto sobre a estalagem da Serreta e a degradação a que chegou desde a alta cimeira com o Nixon, o Pompidou e o Marcelo Caetano. E eu, por brincadeira, resolvi concorrer, ela gostou muito do texto, foi publicado no Diário Insular e num livrinho que ela fez, e então a partir daí o expoente máximo da cultura aqui nos Açores começou a incentivar-me para escrever o primeiro livro. Esse incentivo, aliado à experiência adquirida na licenciatura e alguma formação em “Escrita Criativa”, deram-me o alento para me aventurar na minha primeira experiência literária.

 

Um livro que tem a aprovação dessa pessoa, é meio caminho andado para o sucesso e também a garantia de qualidade…
Suponho que sim, tenho apenas dúvidas do sucesso, da qualidade não. Ela acompanhou sempre, quer o primeiro, quer o segundo livro, quase capítulo a capítulo, parágrafo a parágrafo, e foi fundamental. Sem pretensiosismo acho que há qualidade nos dois livros que escrevi. Relativamente ao sucesso (em vendas) não é coisa que me preocupe.

 

Dois livros já estão lançados. O que vem por aí?
Não sei exatamente. Tenho muito material, e o primeiro livro é mais específico, fala sobre uma ilha, que é a ilha do Pico e a tradicional caça à baleia que se realizava naquela zona no princípio do século XIX e eu, na altura, talvez alienadamente, disse que pretendia escrever um livro sobre cada ilha dos Açores. Não sei se esse alienadamente qualquer dia voltará à tona, porque tenho material já para poder escrever. Mas tenho outros temas que também gostaria de abordar.

 

E nunca pensou em lançar um livro em conjunto com Luísa Brasil?
Luísa Brasil: Por acaso só falamos em fazer um blog conjunto, um livro ainda não.
D’Araújo Campos: Eu queria que o livro, que eventualmente surgisse um dia, fosse o primeiro livro dela. Que não sei quando é que vai acontecer.

 

Mas há essa perspetiva?
Luísa Brasil: Está pronto já há muitos anos, mas acho que é um livro que só posso publicar quando tiver 92 anos, porque é uma autobiografia e foi a minha tese de licenciatura e obviamente que é uma exposição total.

 

Mas a mulher que conhecemos, já é uma exposição total.
Luísa Brasil: Exatamente. Mas há coisas, e o desventrar de uma intimidade que nem todos conhecem está lá.

 

Mas não sente curiosidade em saber como as pessoas vão reagir?
Luísa Brasil: Vão dizer que eu sou completamente louca, mas isso já dizem. Mas vão ter a confirmação e se calhar eu ainda não estou preparada para isso (risos).
D’Araújo Campos: Mas também há sempre a hipótese de em vez de ser esse livro puder ser algum de outro género.
Luísa Brasil: Claro que sim.

 

Falei do livro em conjunto porque há o exemplo de outro casal, Ilda Figueiredo que escreveu e Agostinho Santos que o ilustrou.
D’Araújo Campos: Eu acho que essa conjugação de literatura com ilustração faz-se bem.
Mas no campo da literatura unicamente, palavras com palavras, dariam palavras cruzadas.
A não ser que fosse em livros do género de escrita de Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães

 

“Matosinhos está sempre no meu coração”

Matosinhos é o quê hoje na sua vida?
É a minha terra natal e quando alguém fala da sua terra natal é a melhor do mundo. E para mim continua a ser. Evidentemente tenho sempre saudades da minha terra, está sempre no meu coração.

 

E por isso tem lançado lá também os seus livros.
Exatamente.

 

E tem sido reconhecido pelas pessoas?
Sim, tenho muitos amigos lá. Este último livro foi lançado precisamente no Orfeão de Matosinhos, depois um dos meus amigos que tem uma associação também quis reunir o seu grupo de amigos para que eu fizesse outro lançamento do livro. E quer um, quer outro correram muito bem. Por isso, Matosinhos está sempre presente. Até porque a minha família está quase toda em Matosinhos.

Como são os seus dias na ilha Terceira?
Ultimamente tenho-me dedicado mais à pintura do que propriamente à literatura, embora vá fazendo pesquisas e alinhavando determinados capítulos.

 

Já temos exposição na forja ou já aconteceu?
Não, ainda não aconteceu, mas, se calhar, talvez ainda aconteça este ano. Tenho pensado nisso. Estou só a acabar de resolver alguns problemas pessoais para depois ficar mais disponível, porque isso também envolve preparação, contactos e uma certa logística.

 

Mas aí estará mais ou menos à vontade…
Sim e, neste momento, já tenho material suficiente para fazer uma grande exposição. Estou convencido que ainda acontece este ano. E também tenho um convite da Praia da Vitória. Alguma coisa irá acontecer após o verão.

Não gostava de deixar um convite ao presidente da Junta de Freguesia de Matosinhos e Leça da Palmeira, Pedro Sousa, para a sua exposição ser vista em Matosinhos?
Também tenho alguns contactos com a Câmara de Matosinhos. Mas isso é uma questão de logística. Tenho realmente uma vontade grande de expor em Matosinhos, mas talvez não através dos meios oficiais. O primeiro livro que lancei foi na Biblioteca Municipal de Matosinhos, onde tudo correu bem e devidamente programado, mas no segundo livro pedi novamente o espaço e houve muitas complicações. Portanto, acabei por não fazer lá e fui para o Orfeão de Matosinhos onde fui bem recebido mas, por vezes talvez seja preferível fugir dos espaços oficiais, não sei…

 

Então sente tristeza por não ser reconhecido pela sua autarquia?
Não sinto tristeza. Nem sei se chegou ao conhecimento deles, provavelmente não porque naquela altura estavam mesmo ocupados era com as eleições. Quanto ao presidente de Junta, acontece que quando fiz este segundo lançamento como o meu amigo da associação “Passado ao Futuro” o lançamento foi na Junta de Freguesia de Matosinhos e, talvez, se venham a proporcionar futuras colaborações.

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