Alguns dos leitores que só agora tomaram contacto com esta secção questionaram-nos sobre a existência do vocábulo “policiário” no nosso idioma, uma vez que não o encontraram em nenhum dos dicionários de língua portuguesa consultados.

Assim, e antes de passar à publicação da solução do autor do enigma que constitui a segunda prova do torneio de decifração “Solução à Vista!”, e respetiva pontuação das performances dos “detetives” em competição, transcrevemos um texto do nosso confrade Luís Pessoa, com a promessa de desenvolvermos este assunto em próximas edições, o que nos levará à prosa de um dos nossos maiores poetas: Fernando Pessoa.

O POLICIÁRIO SEGUNDO FERNANDO PESSOA

Texto de Luís Pessoa

A língua portuguesa não é, felizmente, um amontoado de palavras que compõe um dicionário. E não abona em favor daqueles que, num assomo de virilidade linguística, correm de fio-a-pavio sucessivos dicionários, à procura daquilo que os seus cultores já adotaram.

Vem isto a propósito de uma polémica antiga em torno do vocábulo “policiário”, que muitos teimam em considerar inexistente por não figurar em dicionários.

Mas há um fator decisivo. Um dia alguém afirmou que a sua pátria era a língua portuguesa e esse alguém foi Fernando Pessoa… E ninguém contesta tal afirmação, de tal forma entra pelos olhos dentro!… Mas disse mais esse senhor, nomeadamente numa carta (segundo Fernando Luso Soares, escrita em 13 de fevereiro de 1935 ou, segundo a edição das obras em prosa de Fernando Pessoa, do Círculo dos Leitores, e dos textos de “Crítica e Intervenção”, da editora Ática, escrita em 13 de janeiro do mesmo ano de 1935):

“Quando às vezes pensava na ordem de uma futura publicação de obras minhas, nunca um livro do género de ‘Mensagem’ figurava em número um. Hesitava entre se deveria começar por um livro de versos grande – um livro de umas 350 páginas –, englobando as diversas sub personalidades de Fernando Pessoa ele mesmo, ou se deveria abrir com uma novela policiária, que ainda não consegui completar.”
E em 20 de janeiro do mesmo ano de 1935, retomando essa carta, em resposta a outra de Casais Monteiro, reafirma:
“Até à data que indico como provável para o aparecimento do livro maior, devem estar publicados ‘O Banqueiro Anarquista’ (em nova forma e redação), uma novela policiária (que estou escrevendo e não é aquela a que me referi na carta anterior)…”

Fernando Pessoa e as novelas policiárias, que não acabou nunca, traduzem uma faceta quase desconhecida do poeta, mas a sua Série Quaresma, que engloba “O Caso Vargas”, “O Roubo do Quarto Fechado”, “A Morte de D. João”, “A Carta Mágica”, “O Roubo da Quinta das Vinhas”, “O Triplo Fecho” e “A Janela Estreita”, em que o seu herói e investigador é o Dr. Abílio Fernandes Quaresma, bem como outras novelas inacabadas, como “O Desaparecimento do Dr. Reis Dores”, “O Crime Arnot” e “O Caso do Banco Viseu”, traduzem, no seu conjunto, um marco importante na definição do policiário em Portugal.

E se a língua não é viva, redescoberta em cada momento por todos os que acham que ela é a sua pátria, então, para que serve?

Policiário existe, assim determinou o “mestre”.

 

TORNEIO “SOLUÇÃO À VISTA!”

Solução da Prova nº. 2
“Camarada Tempicos”, de A. Raposo

Tempicos inicialmente pensou que as russas que tinham chegado a Portugal de manhãzinha, vindas do Rio de Janeiro, onde aprenderam uns rudimentos de português, durante a sua estadia no Brasil, deviam logicamente desconhecer o linguajar lisboeta.

Mas acontece que elas utilizaram duas palavras que não são usadas no Brasil: “bica” e “elétrico”, que no Rio se transformam em “cafezinho” e “bonde”.

Tempicos que de burro tem pouco pensou que estaria a ser enganado pelas manas russas e que até os nomes delas fossem falsos.

Espreitou a respetiva lingerie quando de noite se levantou para ir à casa de banho.
No regresso, viu que a calcinha da Nádia tinha bordado um “H” e a da Galina um “L”.

E depois de ter verificado na net, Tempicos concluiu que os nomes delas não eram falsos porque no alfabeto cirílico, utilizado na Rússia, a letra N escreve-se com H e a letra G escreve-se com um L invertido.

No que respeita à dúvida dos nomes ficou esclarecido, mas alguma coisa o levava a pensar que elas conheciam muito mais de Lisboa do que demonstravam.

Se fosse anticomunista primário diria que elas eram aquelas espias que davam a injeção atrás da orelhinha dos portugueses…

 

Pontuação e Classificação (após a 2ª. Prova)

Surpreendentemente, apenas cinco “detetives” conseguiram obter a classificação máxima na segunda prova do Torneio “Solução à Vista!”. A esmagadora maioria dos concorrentes ficou “presa” nas letras inscritas nas calcinhas das duas gémeas russas, descurando as razões que levaram o detetive Tempicos a desconfiar das manas. E curiosamente houve também quem chamasse a atenção para o facto de as duas irmãs usarem as palavras “bica” e “elétrico”, em vez de “cafezinho” (ou “expresso”) e “bonde” – expressões utilizadas no Brasil –, não se referindo, porém, às letras insertas nas calcinhas das manas, iniciais dos seus nomes no alfabeto cirílico…

1º. Detetive Jeremias (13+11): 24 pontos;
2º. Inspetor Mucaba (10+13): 23 pontos;
3º. Madame Eclética (10+12): 22 pontos;
4º. Daniel Falcão (12+9): 21 pontos;
5ºs. Ma(r)ta Hari (10+10) e Zé de Mafamude (10+10): 20 pontos;
7ºs. Arc. Anjo (10+9), Bernie Leceiro (11+8), Carlota Joaquina (10+9), Gomes (10+9) e Martelo (10+9): 19 pontos;
12ºs. Abrótea (10+8), Ariam Semog (10+8), Bigode (10+8), Broa de Avintes (9+9), Charadista (10+8), Chico de Laborim (10+8), Haka Crimes (10+8), Holmes (10+8), Inspetor Guimarães (10+8), Inspetor Madeira (10+8), Necas (10+8), Pena Cova (10+8), Rigor Mortis (10+8) e Talismã (10+8): 18 pontos;
26ºs. Beira Rio (10+7), Chico da Afurada (9+8), Detetive Bruno (10+7), Santinho da Ladeira (10+7) e Solidário (10+7): 17 pontos;
31ºs. Mascarilha (8+8) e Vitinho (9+7): 16 pontos;
33º. Bota Abaixo: (7+8): 15 pontos.

 

TORNEIO “MÃOS À ESCRITA!”

As avaliações feitas pelos 33 solucionistas e pelo orientador da nossa secção ao enigma “Camarada Tempicos”, de A. Raposo, concorrente aos prémios em disputa no torneio de produção policiária “Mãos à Escrita!”, resultaram na seguinte pontuação média final: 6,90 pontos. Com esta pontuação, A. Raposo assume a liderança do torneio, com mais uma décima que Daniel Gomes.