“O auto sacramental é uma peça teatral religiosa em forma de alegoria de tema preferencialmente eucarístico que se representava no dia de Corpus Christi entre os séculos XVI e XVIII, até ser proibido o gênero em 1765 .Representações de episódios bíblicos, mistérios da religião ou conflitos de caráter moral ou teológico são os temas mais usados.

Inicialmente representados nos templos e nos pórticos das igrejas, o mais antigo é denominado de “Auto dos Reis Magos”. Após o Concílio de Trento (1545/1563), numerosos autores especialmente do Século de Ouro Espanhol , escreveram autos, dentre eles se destacaram Calderón de la Barca, Tirso de Molina entre outros”.

Mais de três mil pessoas assistem, no anfiteatro do Forte de S. Neutel, em Chaves, ao Auto da Paixão – Vida e Morte de Jesus – produzido pelo Grupo Etnográfico de Bustelo/GEB, que reúne para esta encenação de teatro popular 62 figurantes, que revivem as principais cenas da liturgia da Semana Santa, desde a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, no Domingo de Ramos, até à crucificação e morte de Cristo.

O Auto apresenta-se como a simbologia máxima do teatro de expressão popular na região transmontana, obrigando os participantes a ensaiar durante um ano completo, para esta encenação que dura três horas. Por norma, cada aldeia apenas o apresenta de cinco em cinco anos, “para não cansar os atores, e deixar algum desejo junto do povo para que nos anos em que ele se realiza compareçam em massa. Entre os atores – todos pertencentes ao GEB – há pessoas que interpretam os seus papéis há mais de vinte anos.

Os ensaios na aldeia são de tal forma vividos por todos que, se por necessidade de força maior, alguém adoecesse, não faltaria quem fizesse o seu papel. José Carlos Anjos interpreta o papel de Cristo, há mais de duas décadas, durante dois meses não desfaz as barbas, para ficar mais parecido com a personagem. Figuras Históricas que entram no Auto da Paixão; Maria mãe de Jesus-Maria da Conceição pela primeira vez no papel, diz estar completamente à vontade: “Sei de cor o meu papel e estou compenetrada dos passos que tenho de dar. Achei muita graça quando na aldeia me começaram a tratar por ‘Mãe de Jesus’; Judas- Joaquim Cavaleiro representa também pela primeira vez; Barrabás- José Rodrigues Pires, aguilhoado pelas legiões de Pôncio Pilatos. Longe desta encenação trasmontana se encontra a realizada desde 1634, pelos habitantes de Oberammergau (Alemanha). Sua origem remonta à Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), quando a cidade foi dizimada pela peste bubônica. A população que sobreviveu prometeu a Deus que, se Ele a salvasse, celebraria o fato com a representação dramática, a cada década, do sofrimento, morte e ressurreição de Cristo. O único período em que a peça não foi encenada foi durante a Segunda Guerra Mundial. Todo o elenco é composto por moradores que vivem em Oberammergau, que tem uma população de 5 mil habitantes. Outro pré-requisito é que sejam amadores e pessoas de “elevados princípios morais e éticos”.

A condição de que somente cristãos pudessem atuar na peça foi abolida em 2000, quando foi permitido a jovens muçulmanos, moradores da cidade predominantemente católica, participar da encenação. A gigantesca produção ocorre uma vez por década e envolve praticamente toda a aldeia. Cerca de metade dos habitantes participam de alguma forma na peça em si, que tem lugar num auditório para cinco mil pessoas, o dobro dos habitantes, mas que parece pouco para os cerca de 500 mil turistas que acorrem à aldeia, situada nos Alpes, para ver o espetáculo.

A última sessão realizada a 3 de Outubro de 2010 (a próxima será em 2020) contou com cerca de 1500 figurantes, quase mil adultos, 550 crianças, e 50 membros do coro. Acto da Primavera (1962) filme português de Manoel de Oliveira, co-realizado por António Reis, António Soares e Domingos Carneiro, no qual se registra a encenado de uma celebração popular da Paixão de Cristo, festa tradicional da aldeia transmontana da Curalha . A obra é marcada pelo gesto teatral e pela palavra, modos pelos quais os atores se exprimem e que são próprios do género quando representada por atores não profissionais.

Considerado um das primeiras experiencias de ficção documental portuguesas, uma das obras contemporâneas do cinema etnográfico francês praticado por Jean Rouch e, nesse contexto, obra marcante no domínio da antropologia visual em Portugal.

O filme de Oliveira é anterior a outro tão relevante como O Evangelho segundo São Mateus (1964) de Pier Paolo Pasolini que reinventa a figura mítica do Cristo partindo dos diálogos retirados do Evangelho, considerado o mais realista dos quatro. O Cristo de Pasolini é um homem severo e inflexível, ” que não veio trazer a paz, mas a espada” (Mateus 10:34-39)

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