Benjamim Leandro de Medeiros é por muitos conhecido como “o fotógrafo vermelho”. Nascido em Ponta Delgada mas adotado pela Ribeira Grande, há cerca de 14 anos que se interessou pela fotografia. Em conversa com o AUDIÊNCIA, diz que atualmente prefere fotografar a preto e branco, sendo que a vertente de fotografia de rua é a que mais lhe desperta

      

Benjamim Leandro de Medeiros nasceu em Ponta Delgada, em 1960, mas foi na casa dos 40 que começou a ter interesse pela fotografia. No início diz que não “entendia rigorosamente nada de fotografia”, mas bastaram algumas semanas na cidade do Porto para o gosto por esta arte começar a crescer.

“As cores do Porto despertaram-me interesse: as névoas e os noturnos”, começa por contar. Se no início não sabia como fazer um noturno, pensando que bastava colocar a máquina na função noturno, mais tarde veio a descobrir que estava errado. A sua “sorte”, conforme descreve, foi ter levado o manual da máquina. Ao folheá-lo, veio a descobrir que a fotografia era “muito mais que um modo automático”.

Após a primeira fase de experimentação e descoberta, iniciou-se um percurso: olhar para as fotografias dos grandes fotógrafos, aprender com eles e “fazer quilómetros com a máquina” são formas de fazer fotografia. Aliás, como diz Benjamim, “as fotografias não se fazem, criam-se. Temos de criá-la. Comecei a perceber que tinha que fazer todo este percurso” para criar a sua própria arte.

Foi na FineArt Portugal, uma galeria de arte ‘online’, que o Fotógrafo Vermelho deu largos passos ao ver as suas fotografias serem aprovadas para publicar no ‘site’. Se no início “mandava 30 ou 40 fotografias para ser aprovada uma, seis meses depois vi que mandando mais, eram aprovadas mais”.

“De cerca de 2300 fotógrafos e mais de 70 países, estou à frente [na FineArt]. Fui a pessoa com maior número de fotografias aprovadas em 2014, 2015, 2016, 2017, 2018 e ainda estou em 2019. Neste momento meti 1000 imagens e parei. Não quero pôr mais.”

 O fotógrafo micaelense admite ser um artista diferente dos demais: “nunca fiz grandes exposições, embora já tenha entrado em coletivos [exposições com vários artistas]. Nunca tive pressa de fazer exposições. Não estou na fotografia para ser “concurseiro” e ganhar concursos”, diz. O maior prémio que lhe pode ser atribuído é o seu próprio trabalho e o reconhecimento que teve, por exemplo, ao ser o fotógrafo com mais fotografias aprovadas pelo FineArt desde 2014.

 Uma das vantagens que diz ter tido, foi conseguir marcar a sua imagem por “Red” ou “Fotógrafo Vermelho”. É assim que muita gente o conhece em Portugal Continental e é por essa imagem de marca que quer ser reconhecido. Com esse objetivo alcançado, resta-lhe “fotografar todos os dias”, já que “a fotografia não para, é todos os dias”.

 Benjamim compara a sua “maior exposição” à vontade de fazer a sua melhor fotografia. “Acho que ainda não consegui fazer a minha melhor fotografia”, assume. Talvez pela exigência que exerce consigo próprio, afirma que é essa a sua grande inspiração para continuar a trabalhar: “fazer a minha melhor fotografia”, ainda que faça aquelas que mais gosta e com as quais se identifica.

 “Sou muito crítico com as minhas fotografias e mesmo com as dos outros. Nunca numa crítica destrutiva, a minha crítica é sempre para ajudar. Muitas vezes falo com colegas meus fotógrafos, e quando entro em vários campos eles não gostam. Acham que a fotografia bonita e gulosa é a bonita. Mas eu não entro nisto, sou mais profundo.”

Se no início “toda a gente gostava das minhas fotografias porque eram bonitas, coloridas e gulosas”, hoje em dia trabalha de forma diferente, admite ser um fotógrafo de preto e branco, talvez por já ter desenhado a carvão no passado. Por isso mesmo é mais “exigente com a luz e com a sombra”.

 É neste campo que diz identificar-se com o fotógrafo Rui Palha, pois trabalha “com muita luz”. À semelhança deste, também admira Henri Cartier-Bresson e Ansel Adams. O primeiro por ser fotógrafo de rua, o segundo pelas fotografias na paisagem.

 Atualmente é a dita fotografia de rua que lhe desperta mais interesse. Gosta de conversar com as pessoas e fotografá-las, bem como sentir as emoções que estes modelos inesperados trazem. É deste sentimento que surgem algumas histórias que vêm à memória de Benjamim.

“Lembro-me perfeitamente de fotografar um pai e um filho durante as festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, em Ponta Delgada. O pai estava em promessa, a subir as escadas da igreja e a entrar dentro do templo. O que mais me chocou foi a parte tão solidária do miúdo de dois anos com o pai. Vi aquilo atrás, fotografei e depois enfrentei. São imagens que fazemos de lágrimas nos olhos. O fotógrafo também sente. Lembro-me, por exemplo, de ter ido a Lisboa e ter fotografado um homem negro que estava a discutir com um senhor e pensei que tinha de o fotografar, não sabia como, mas tinha de o fotografar. Quando acabou a discussão, ele sentou-se, sentei-me ao lado dele e comecei a falar com ele. Tentei saber o que se estava a passar, conversei com ele… no final pedi para lhe tirar uma fotografia para recordar aquele momento. Ele tira um cigarro e põe-se a fumar, a fazer pose para a fotografia. Consegui fazê-la.”

São estas histórias que estão por trás das fotografias que atraem o artista. “Quando um fotógrafo tira uma fotografia, pensou em tudo e conseguiu pôr dentro da fotografia tudo. Por um exemplo, ‘nesta’ fotografia um escritor escreve 20 páginas. O fotógrafo não escreve em prosa nem em verso, mas em pixéis.”

Recentemente Benjamim teve a sua exposição “Emotions” na Biblioteca Pública de Ponta Delgada. Também já esteve na Ribeira Grande e no Porto e o seu futuro ainda não está definido. Esta é uma exposição que fala das emoções humanas estabelecidas entre o ser humano e a Mãe Natureza e também entre o ser humano e os animais.

São imagens que “falam dos Açores” e que “foram feitas nos Açores”. No entanto o fotógrafo deixa o alerta: “não são postais”, têm que ver com a emoção. Emoção transmitida também pelo mar, sendo este recorrente na exposição, de várias formas.

 “Há uma imagem chamada «As cores da vida de um povo», foi feita em Rabo de Peixe e tem mesmo que ver com as cores da vila, portanto, as pessoas de Rabo de Peixe são alegres. Pobres mas alegres, e isso vê-se nas cores das suas casas… também tenho «Os verdes e dourados campos», esta imagem está na Ribeira Grande, na sala do Presidente [da Câmara Municipal], tal como a anterior”.

 Grande parte das fotografias de Benjamim dão-se na Ribeira Grande, definida por ele como “a cidade da luz”, pois “tem um potencial muito forte para a fotografia”.

No entanto, o concelho apenas peca por não ter uma associação de fotógrafos. Ainda que o atual presidente da Câmara Municipal seja recetivo a este tipo de iniciativa, os ribeiragrandenses precisam “despertar para a fotografia”. O artista recorda que aquando da organização da exposição coletiva ‘In Ribeira Grande – Olhares iNstantes’, a grande parte dos visitantes vieram de Ponta Delgada. No entanto mostra-se pronto a ajudar se essa for a vontade dos munícipes, pois tem muito gosto em ter uma associação “aqui”, na Ribeira Grande.

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