Prometi a mim mesmo nunca visitar um campo de concentração.Não conseguiria passear num solo sacralizado pelo sofrimento, a dor e o horror.

Não me imagino ao lado de um turista tirando fotografias, ou a alguém a tirar selfies junto a um forno crematório, como quem está num parque temático às portas do inferno.

Mas sim, logo que possível, irei visitar o recentemente inaugurado Museu do Holocausto da Cidade do Porto, aberto sob o lema de; para Contar o que não pode ser esquecido Lembro ser muito novo e ver filmes num ciclo de cinema soviético de imagens dos campos de concentração…nessa altura disseram que eram filmes de propaganda …pouco a pouco iriamos a descobrir  os horrores do regime nazi, os campos de extermínio, as experiências médicas realizadas em jovens internados, a segregação racial e homofóbica, a orquestra de mulheres músicas para “aliviar” as consciências…tudo aquilo que o cinema e a literatura nos puderam narrar mais tarde ,sem ser ficção, mas que ficava muito além da ficção; o inimaginável!

Nos anos 50 na minha cidade, ainda eu não era nascido ou ainda não tinha despertado para estas lides do teatro, os meus pais assistiram a uma representação teatral de O Diário de Ana Frank, deve ter sido uma versão da adaptação dos jornalistas Frances Goodrich e Albert Hackett , que mais tarde foi levada ao cinema e representada mundialmente nos palcos.O encenador era Gabriel Martinez e a protagonista a sua jovem e minuda esposa Veronica Cereceda dos quais mais tarde me tornaria amigo. Já num caminho ao profissionalismo estes actores interpretaram a peça seguindo métodos stanislavkianos, que mais tarde se tornaram uma referência nos teatros universitários e experimentais no meu país e de América latina.

Os actores num exercício de emotividade; emoção e memória percorriam as ruas da cidade como sendo perseguidos, fugindo, escapulindo-se até chegar finalmente à sala de ensaios que se tornava para eles em uma espécie de “refugio” onde se sentiam a salvo! Não tive a oportunidade de ver essa montagem, mas convivi com os actores e actrizes, grande parte deles eram amigos de família…de actores amadores acabaram por integrar o campo profissional.

Uma lição me ficou de algo que não vi, mas que, pela proximidade emotiva dos seus actores, me fez reflectir; que os perseguidos pelo Holocausto eramos todos nós, que podíamos ser nós próprios nesse papel de fuga e sobrevivência. Mas tarde tive a oportunidade de ver outras encenações e o filme realizado por George Stevens de 1959, que celebrizou na época a adaptação teatral.

Lembro momentos desse filme, que ainda me estremecem; os refugiados escondidos detrás de paredes falsas em áticos improvisados, a fome, o roubo nocturno dos alimentos, a descoberta do amor, o casaco de peles da Sra, Petronella Van Daan ,celebremente interpretado por Shelley Winters ( Premio Óscar de interpretação esse ano!) , o pequeno gato ,também ele refugiado, a caminhar imprudente e barulhento enquanto os soldados nazis, nos pisos inferiores faziam rusgas, a celebração ritual da comida e um bolo partilhado em finas fatias para mitigar a fome dos escondidos.

Anos mais tarde …tanto em Bruges, perante a cápsula que guarda o Sangue de Cristo, como na casa de Anne Frank, eu, intruso visitante dos sítios recônditos nos quais os seus moradores secretos se escondiam, senti uma emoção imensa, difícil de explicar. Talvez ainda esteja na rua a árvore que havia de ser a primeira testemunha desse drama… Fomos e somos uma nação de refugiados.

Nas cidades chilenas ao meio-dia tocavam as sirenes dos bombeiros (não sei se era por tradição ou por falta de relógios), mas as comunidades de refugiados pediram às autoridades para que isso cessasse. As sirenes eram sinais de recordação da guerra em Europa e as crianças vinham traumatizadas. Somos uma nação de refugiados; turcos, italianos, alemães, judeus, espanhóis republicanos, sérvios, croatas, lembro a lista dos companheiros da minha turma, nomes nada castelhanizados.

Os turcos não eram turcos eram herdeiros do império otomano, entraram no país com documentos turcos mas as suas verdadeiras origens eram líbios , sírios ,  arménios…O meu cunhado é de origem  genovesa , italianos navegantes que tradicionalmente se espalharam pelo mudo…

Esse vai ser também parte do mundo que encontrarei no museu do Porto, um museu de sofrimento de diáspora, de intolerância para que retumbe muito alta aquela consigna de ISTO NUNCA MAIS!1.-Dan Pagis; poeta, nasceu na Roménia e foi preso quando criança em um campo de concentração na Ucrânia. Ele escapou em 1944 e imigrou para Israel em 1946. Pagis morreu de câncer em Israel em 29 de julho de 1986.

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