Em entrevista ao AUDIÊNCIA, o presidente da Junta de Freguesia da Lomba da Maia e deputado à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, Alberto Ponte, falou sobre o seu desejo de continuar a ajudar a Lomba da Maia a crescer e das rivalidades existentes, que, segundo o mesmo, felizmente, ficaram no passado. Apesar de estar perto do centro das decisões, Alberto Ponte garante que ainda há muito para fazer mas não nega o esquecimento que a freguesia foi dotada, durante anos, por parte do anterior Governo Regional.

 

 

A Lomba da Maia, afastada do centro da Ribeira Grande, está também longe do coração das grandes decisões?

Está sim, está longe do coração das grandes decisões, mas como eu tenho muito tempo livre consigo estar mais perto das grandes decisões. Quanto mais longe fica a freguesia claro que mais longe fica das grandes decisões, mas aí temos de fazer pela vida.

 

Qual tem sido o relacionamento entre a autarquia e a Câmara Municipal?

O relacionamento tem sido excelente, claro que tenho a consciência que estou sempre a exigir mais e mais para a Lomba da Maia, mas este é o meu papel. Claro que nunca posso ter tudo o que quero, porque quero sempre mais para a minha freguesia, mas sou assim por natureza, toda a minha vida fui assim e não vou deixar de o ser, mas tenho de reconhecer que tenho tido muita abertura da Câmara para ajudar naquilo que podem também porque no concelho não existe só a Lomba da Maia, existem outras 13 freguesias.

 

Quando se abraça um mandato autárquico, há uma vontade de dotar a freguesia com as valências que a tornam mais apelativa. Este é um mandato correspondido ou de amargos de boca?

Este é um mandato correspondido, não existem grandes amargos de boca a não ser um ou outro por parte do anterior Governo Regional que durante esses sete anos nunca olhou para a nossa freguesia. Aliás, digo mesmo que foi desprezada pelo Governo Regional. No entanto, com a entrada do novo Governo, as coisas estão-se a retificar e o que mais noto neste governo é que é justo e leal para todos, não faz distinções de freguesias de uma cor ou de outra, que era o que não acontecia anteriormente, e não sou eu a dizer, são os números, em que 4 ou 5 freguesias levaram 34 por cento do orçamento regional para as freguesias em 2019/2020.

 

Mas, recentemente, o ex-presidente do Governo Regional, Vasco Cordeiro, veio exatamente dizer o contrário e acusou o atual governo de ter essa política para com as Juntas socialistas. Na dupla qualidade de deputado e presidente de Junta, como vê estas afirmações?

Falar, qualquer um diz o que quiser, agora, a verdade está nos números e pelos números podemos ver o que se passava anteriormente e o que se passa atualmente. Todos falam a seu favor, mas o senhor Vasco Cordeiro tem a coragem de dizer uma coisa quando praticava exatamente isso que ele acusa e sabe que não é verdade, é preciso ter coragem.

 

Um presidente de Junta de Freguesia e deputado, que vantagens e desvantagens acarreta para a freguesia?

Como deputado, só vejo vantagens, não vejo nenhuma desvantagem porque se a minha freguesia estava longe do coração das grandes decisões na Ribeira Grande agora eu estou no centro das grandes decisões no Governo Regional, ou seja, passou a ser mais uma vantagem. Eu costumo dizer, em tom de brincadeira, que a Lomba da Maia deve aproveitar o deputado Alberto Ponte para levar para a freguesia tudo o que não se conseguiu até agora e eu estou lá para pedir, para lutar. E eu sou um lutador todos os dias, por isso, se calhar, as pessoas lá vão ficar fartas de mim, mas eu sou muito insistente. Por isso, não vejo desvantagem nenhuma, cada freguesia que tiver um deputado penso que é sempre uma vantagem, pelo menos é garantido que ele vai estar lá a lutar não só pela sua terra, mas pelos Açores todo, como é óbvio.

 

Ao longo destes quatro anos, quais os obstáculos mais difíceis de transpor e aqueles que o enchem de orgulho por os ter conseguido ultrapassar?

Eu tenho um lema na vida que é, quanto mais difícil é o obstáculo mais gozo e prazer me dá em ultrapassar. Quanto a obstáculos que conseguimos, tudo o que fiz foi com enorme orgulho que o consegui, os moinhos, subir e descer a parte do parque polidesportivo, vários caminhos, ajuda na fase da Covid em que ajudamos a população em tudo o que podíamos e mais alguma coisa, depois a juventude, a Igreja, a terceira idade, tudo o que fizemos, não só as obras porque eu sou uma pessoa que sou mais de emoções do que de obras. Prefiro ter as pessoas da minha freguesia felizes e satisfeitas do que um grande número de betão que não dá felicidade nem alegrias a ninguém.

 

Também ressuscitou, culturalmente, o linho na freguesia.

Sim, o linho estava um bocadinho abandonado e ressuscitei o linho e a ideia é cada vez mais implementar o linho na freguesia e a tradição e no meu manifesto eleitoral haverá algo direcionado para esse tema. Também conseguimos por o surf nas ondas gigantes da praia da Viola, em que já teve os dois campeões do mundo, tanto do sexo masculino como do feminino, que já foram lá e cada vez mais e queremos manter isto porque se queremos o turismo temos que casar o linho com o mar, com a Viola, com o leite, com tudo o que abrange a nossa freguesia. Claro que o linho é uma tradição muito antiga, julgo que será a única ou é das poucas freguesias que é conectada precisamente ao linho, quando se fala da Lomba da Maia fala-se no linho. Temos várias parcerias e vamos ter mais, porque o linho, embora hoje em dia já não sirva para o que servia, mas para explorar outras vertentes e até o turismo é importante.

 

O investimento direto e indireto da Junta de Freguesia na praia da Viola tem sido, correspondente ao orçamento da Junta, bastante interessante. Como estamos de acessos à praia da Viola, é fácil e acessível a qualquer um?

É fácil e acessível, está um sítio lindo, aquilo já era lindo embora muitas pessoas não vissem o potencial que lá estava, e em 2013 quando entrei sempre disse que a Viola tinha um potencial enorme e tem, e tem muito mais para mostrar e há muito mais para se fazer na Viola. Os acessos têm que ser um bocadinho melhorados, mas também não se pode expor demasiado turismo para não estragar a beleza que lá está.

 

 A Lomba da Maia é um local apelativo, capaz de cativar a curiosidade de forasteiros, já falou da Viola e na aposta do turismo, quer dizer que estão a ser criadas condições para que o turista se sinta na obrigação de visitar a Lomba da Maia?

Exato. Cada vez mais temos mais pontos de interesse, temos a loja 1936 que é tudo artesãos que fazem o seu artesanato e expõem lá à venda, e a Junta não ganha nada com isso, é mesmo para divulgar os produtos. Infelizmente a festa do linho há dois anos que não se realiza, que era outro grande motivo de turismo, mas não queremos só segurar o turismo, queremos segurar os jovens na freguesia e queremos captar cada vez mais pessoas para morarem na nossa freguesia, porque é uma freguesia apetecível. Há um ditado na Lomba da Maia que diz que quem vem de manhã para a Lomba da Maia, à noite já não quer sair.

 

Isso significa que insistiria com um amigo para viver na Lomba da Maia…

Não só insistiria como lhe dava o conselho que é o melhor sítio para se viver. Porque a Lomba da Maia é um sítio que tem acesso direto à via rápida, que era a única coisa que estava um bocadinho fora dos grandes centros, mas hoje da Lomba da Maia à Ribeira Grande faz-se em 10 minutos, um quarto de hora, e Ponta Delgada 25 minutos. Estamos no centro e é uma zona de natureza, e está muito perto dos grandes centros. A Lomba da Maia fica perto do nordeste, perto da Ribeira Grande, perto das furnas, que é um dos sítios turísticos mais emblemáticos. Eu não mudava para mais freguesia nenhuma.

 

Mas em termos de carências, o que é que ainda existe?

No campo social, ainda há algum desemprego na freguesia, não muito, mas ainda existe algum e eu não descanso enquanto não houver desemprego zero na Lomba da Maia.

 

Mas há falta de emprego?

Não, emprego até há com fartura. Agora, há pessoas que, se calhar, não têm formação suficiente para as ofertas de emprego que existem. Essa é uma das minhas lutas para os próximos quatro anos, dar formação a essas pessoas que não estão adaptadas a certos tipos de empregos onde há mais oferta. Já estou a planear alguns projetos com o Governo Regional, enquanto deputado regional, para darmos formação às pessoas em cada localidade a formação que é precisa porque a formação que é precisa na Lomba da Maia pode não ser precisa em Rabo de Peixe. Temos de adaptar as nossas necessidades, a necessidade de cada sítio, se calhar Lomba da Maia, os Fenais e essa zona, a oferta é toda a mesma, vamos dando formação naquele sentido para formar as pessoas necessárias e são mais pessoas que entram no mercado de trabalho.

 

Isto obrigará, provavelmente, à envolvência das escolas profissionais próximas da Lomba da Maia, nomeadamente, a Escola Profissional da Ribeira Grande e a do Nordeste. Tem previsto contacto com estas instituições para que se aproximem das necessidades da população da Lomba da Maia?

Sim, não só tenho tido contactos como já estão as coisas mais ou menos encaminhadas nesse sentido. Até avanço aqui em primeira mão, a ideia é dar, se calhar, alguma formação na Lomba da Maia visto que temos espaço, ou seja, criar um polo na Lomba da Maia.

 

E a Junta de Freguesia tem instalações para isso?

A Junta tem espaço para isso, mas para isso terei que ganhar as eleições porque o projeto do meu adversário pode não ser o mesmo porque cada um pensa pela sua cabeça.

 

A Câmara Municipal e o Governo Regional têm sido os parceiros que a Lomba da Maia precisa? Há pouco já aflorou um pouco sobre o Governo Regional anterior, mas de uma forma global, a Lomba da Maia foi prejudicada por ser do PSD?

Eu não gosto de ver a questão desse sentido, recuso-me a aceitar isso. Mas infelizmente não dá para pensar de outra maneira. Na Ribeira Grande, o Alexandre Gaudêncio é uma pessoa que não olha a cores, e isso está à vista. Trata todas as freguesias por igual, e o anterior Governo Regional não fazia isto, e eu sofro com isto porque uma das freguesias visadas, uma das quatro freguesias que mais tiveram foi a minha freguesia vizinha, a Maia. E fica complicado justificar como a freguesia vizinha tem tudo e aqui nada. Tenho uma grande estima e apreço por essa freguesia porque tenho muitos amigos na Maia e o presidente da Junta claro que faz tudo o que pode, como eu faço na minha, mas teve um Governo que ajudou sempre. A verdade é essa, são os números que o dizem. Agora o Governo mudou e ainda bem, não só para a Lomba da Maia, mas para os Açores todo, que assim vamos poder competir de igual para igual em todas as freguesias.

 

Falou na freguesia da Maia onde existem duas instituições que penso terem algumas parcerias com a freguesia da Lomba da Maia, refiro-me à Casa do Povo da Maia e à Santa Casa da Misericórdia da Maia.

Sim, temos várias parcerias e com a Junta de Freguesia da Maia também temos um excelente relacionamento, também com o presidente sobre o qual tenho grande apreço, porque ele faz tudo pela sua freguesia como eu faço pela minha. Somos colegas na ANAFRE e até estou na direção da ANAFRE com ele, dou-me muito bem com ele e tudo o que ele fez, fez pela freguesia. Eu apenas incuto culpas ao anterior Governo Regional.

 

O associativismo tem sido importante para o desenvolvimento social da freguesia da Lomba da Maia?

Muito importante. Temos tido várias associações ao longo dos anos, embora saibamos que nessas coisas as associações ao fim de uns anos começam a degradar, mas por exemplo, na agricultura temos a Cooperativa Norte que tem sede na Lomba da Maia e que é simplesmente a maior cooperativa no que se refere a suplementos de leite e que o ano passado recebeu à volta de 34 milhões de litros de leite. Tem, neste momento, três qualidades de leite, o leite das vacas felizes, leite biológico e leite normal, e tem o posto mais bem equipado e mais moderno da Península Ibérica. Isto para dizer que o associativismo é importante sim, cada vez mais, embora eu note que as pessoas estão cada vez menos viradas para isso.

 

Falou na produção de leite, tem sido uma dor de cabeça não é verdade?

Tem, e na minha parte, como deputado, e nessa área, porque as margens são muito pequenas, as exigências muito grandes e estou muito preocupado mesmo com a produção do leite. Porque o que mais mexe com a economia ainda continua a ser o leite e passar para outra economia qualquer de uma hora para a outra pode não ser fácil. O turismo estava a correr muito bem, de uma hora para a outra veio o Covid e infelizmente o turismo foi-se, mas o leite continua, aquela fileira continua a gerar economia, e na Lomba da Maia, que é a segunda maior bacia leiteira dos Açores preocupa-me ainda mais como é evidente.

 

Foi apresentado com pompa e circunstância o projeto Calços das terras da Maia. A Lomba da Maia sente-se sensibilizada para participar neste projeto?

Logo que seja convidada, claro que sim. Sei do que se passa, mas não pelas fontes certas. Mas claro que estamos sempre prontos para ajudar e participar. Está na hora das freguesias se unirem e não terem ciúmes umas das outras. Mas se calhar até é só esquecimento…

 

A Lomba da Maia pode continuar a contar com uma disponibilidade para servir por parte dos atuais órgãos autárquicos?

Claro que estão disponíveis, eu estou disponível para a minha freguesia a 200 por cento, muitas vezes deixando a minha própria família para trás, a minha vida profissional, mas quando me meto num projeto é até ao fim e dou tudo. Pela minha freguesia dou tudo e empenho-me a 100 por cento. Posso ficar um dia sem comer mas o que tenho para fazer tem de se fazer. Portanto, comigo, pode continuar não a 100 por cento, mas a 200 por cento, e as pessoas da Lomba da Maia de certeza que sabem isso.

 

Falou nessa parte de sacrificar a vida pessoal, e isso foi notório quando recebeu a notícia da eleição para a Assembleia Legislativa Regional, teve de deixar algumas das suas atividades diárias…

Exatamente. Tive de deixar a minha vida profissional, troquei de ramo, mas não vou dizer que é um sacrifício trabalhar para a minha freguesia porque não é, é uma opção. Quando me candidatei sabia que tinha de fazer o meu melhor porque em todas as instituições por onde passei deixei uma boa imagem e, se calhar, se quisesse voltar, voltaria, ou já fui convidado para voltar até. Por isso, não é um sacrifício, é um gosto trabalhar para a minha terra.

 

Que sonho gostaria de agarrar?

Eu corro atrás de uma Lomba da Maia muito melhor. Uma Lomba da Maia sem desemprego, sem jovens a não conseguirem arranjar casa, que é outra coisa que me vou debater nestes quatro anos a ferro e fogo, e por uma freguesia que toda a gente tenha orgulho, que tenha prazer de viver nesta freguesia e que diga “eu sou da Lomba da Maia”.

 

Falou na habitação e, de facto, uma das coisas que se nota é que cada vez vai ser mais difícil viver na ilha de São Miguel, e no concelho da Ribeira Grande, porque há falta de habitação a preços acessíveis. Ou seja, o turismo veio recuperar muitos edifícios, mas veio tirar a hipótese dos jovens, por exemplo, poderem considerar a Lomba da Maia uma opção de vida. Como pensa que este problema pode ser ultrapassado?

Na minha ideia temos que, e estamos em negociações com a Câmara e com o Governo Regional nesse sentido, porque não foi só o turismo, é preciso lembrar que a banca também começou a exigir muitas outras coisas, por exemplo, há bancos que pedem logo entre 10 a 30 por cento de entrada e um casal jovem se compra uma casa por 100 mil euros nunca vai ter 30 mil euros, porque para terem um emprego têm de comprar um carro, tem de ter um seguro, essas coisas todas e um jovem que começou no mercado de trabalho há um ano ou dois não consegue esse valor. A banca asfixiou muito mais que o turismo na minha opinião.

 

Mas os preços também estão exagerados…

Claro que os preços estão exagerados. Mas aí o Governo Regional tem de ver projetos para recuperar as casas, porque há casas abandonadas ainda e é preciso as recuperar ou dar os terrenos aos jovens para eles construírem, ou construir casas de custos controlados, bairros nunca. Não podemos continuar a construir tudo ao monte, temos de por as pessoas mais espalhadas, não podem ficar 10 casais jovens na mesma rua, senão fica tudo centralizado. Temos de por os jovens com os menos jovens, para integrar as pessoas na sociedade.

 

Vê sensibilidade dos seus colegas no Parlamento, ou das pessoas do Governo com quem contacta, para a habitação social ou comparticipada ser um objetivo?

Não só vejo como tenho a certeza que isso vai acontecer. Estão muito sensibilizados, estamos a estudar isso, claro que são processos que demorarão e temos de pesar todos os prós e contras, mas tenho a certeza e sei que o Governo Regional vai trabalhar muito nisto até para não despovoar as freguesias porque cada vez mais as freguesias que ficam mais longe dos grandes centros começam a ficar despovoadas. Há que haver aqui uma política de investimento nas pequenas freguesias, as grandes cidades, por si mesmas, resolvem-se, mas nas freguesias mais distantes em que tem de se criar não só as casas, mas as infraestruturas, os empregos. Temos de começar a arranjar nichos de trabalho em todas as freguesias e em todos os locais, e aí o turismo também pode ser muito útil.

 

Para finalizar, o que diria sobre a sua terra para quem não conhece?

Tenho um orgulho imenso na minha terra. Só consigo falar bem da minha terra, tenho imenso gosto de ter feito parte desta equipa que está a terminar agora o mandato. A Lomba da Maia cresceu muito, evoluiu muito, quem via a Lomba da Maia e quem a vê não tem nada a ver. É uma Lomba da Maia muito mais alegre, muito mais feliz, as pessoas vê-se que se dão bem umas com as outras, e quero continuar a fazer parte desse projeto, porque há muito mais ainda por fazer pela Lomba da Maia, há muitas ideias. Tenho uma equipa muito forte e muito aguerrida para o futuro, e vou juntar todas as forças da nossa freguesia, porque só juntos venceremos.

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