A atriz Rita Grangeia, a nossa convidada de hoje, iniciou-se nos estudos de representação teatral na Jobra – Associação de Jovens da Branca (Albergaria-a-Velha), tendo prosseguido a sua formação na ESMAE – Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo. Concluída a licenciatura em Teatro (variante Interpretação), aceitou o convite para estagiar em Espanha, na companhia de teatro Voadora.

Entretanto, voltou para Portugal, tentando integrar-se em várias companhias, mas acabou por passar muito tempo ligada à animação, sobretudo de festas infantis, por razões de sobrevivência financeira. A falta de apoios à integração de artistas emergentes no mercado de trabalho levaram-na depois a procurar outros meios de subsistência, sem nunca perder a esperança de voltar aos palcos e prosseguir o seu sonho.

Fez então parte de um projeto, promovido pela NAPALM – plataforma de experimentação artística contemporânea sediada no Porto –, onde se concentrou fundamentalmente na aquisição de conhecimentos na área da formação em expressão dramática e teatro, que veio a ministrar mais tarde a crianças e jovens. Por essa ocasião, o público de Gaia teve oportunidade de assistir a um espetáculo, no âmbito da I edição do Festival de Teatro José Guimarães, em que a nossa convidada dividia o palco com o ator Ricardo Ribeiro: “Ela, Bela ou a Imaculada Concepção”. Decorridos três anos, fomos saber das suas expectativas sobre o futuro próximo do teatro profissional em Gaia. Oiçamo-la:

 

 

De que forma Gaia se pode constituir como mercado de trabalho alternativo à escassa oferta do Porto aos artistas emergentes, nos domínios do teatro profissional?

Enquanto artista independente na cidade do Porto tive alguma dificuldade em aceder aos grupos de teatro existentes. O facto de as companhias terem os seus elencos constituídos, a par da falta de apoios na inserção de artistas emergentes, torna extremamente difícil uma oportunidade de trabalho nos palcos do Porto. Penso, por isso, que Gaia podia constituir-se como uma plataforma de emprego para artistas emergentes sem mercado de trabalho, com a criação de um espaço de ensaios e de apresentação de projetos em registo de show-case. E não sendo possível a criação dessa placa giratória de espetáculos a breve prazo, penso que a existência de um simples espaço de café-concerto, um local onde os jovens artistas possam conviver, discutir e apresentar novas propostas de trabalho, com base em improvisações sem grandes recursos técnicos e a partir de leituras dramatúrgicas dinâmicas, ajudaria a minimizar o problema. Um espaço desta natureza permite algum relaxe, longe do pânico e pressão social de sobrevivência na área artística.

 

Para além desses espaços de experimentação, os palcos convencionais de Gaia podiam ser também lugares de mostra de criações de artistas emergentes?

Sim, claro. Os artistas emergentes estão sempre muito empenhados na criação de novos projetos. Mesmo quando o tempo que dura o processo criativo tem que ser dividido com outros trabalhos já finalizados, há sempre vontade de criar. Mesmo quando os espaços de ensaio são escassos e não temos possibilidade de alugar nenhum, há vontade de ensaiar nem que seja em cafés, salas de estar, escritórios de amigos, seja onde for. Mesmo quando se ganha à bilheteira (que não concordo, mas já o fiz e voltaria a fazê-lo para poder levar projetos meus a cena), há vontade de apresentar espetáculos. Se essa vontade existe, Gaia poderia aliar-se a ela e proporcionar lugares de mostra de criações de artistas emergentes.

 

Tens neste momento algum projeto teu, já concluído ou em fase adiantada de criação, que gostasses de mostrar ao público de Gaia? Importas-te de descrevê-lo?

Neste momento tenho um espetáculo de teatro de marionetas concluído, promovido em parceria com a Associação Salvador, que é direcionado para a infância, que visa a sensibilização da inclusão de pessoas com mobilidade reduzida. As representações que tínhamos agendadas para diversas Escolas foram adiadas e algumas canceladas, estando agora à espera que haja disponibilidade para as marcar novamente. Tenho também uma criação minha apoiada por um fundo de criação de projetos artísticos da Câmara Municipal de Aveiro, com ensaios a partir de fevereiro e estreia marcada para março. Este espetáculo é acerca do impacto da Covid-19 nas populações, a partir de relatos de situações reais vividas por pessoas em confinamento. Trata-se de um projeto constituído por uma performance com a duração de cerca de vinte minutos e por uma oficina de expressão dramática que tinha como objetivo o envolvimento da comunidade, mas uma vez que a Direção Geral das Artes decidiu cancelar os apoios a trabalhos com as comunidades estamos a tentar fazê-lo com uma turma do Ensino Secundário. Penso que esta proposta terá grande potencial para uma mostra nos espaços de Vila Nova de Gaia, mas só estará disponível em Março-Abril 2021.

 

Na tua opinião, que importância pode ter a relação do teatro profissional com a comunidade no desenvolvimento e democratização da atividade cultural e artística?

Tomando como exemplo dois espetáculos comunitários que tive possibilidade de integrar, um com a Companhia do Jogo (2018) e outro com o Teatro e Marionetas de Mandrágora (2020), sinto uma grande vontade da população de ser incluída num grupo de convívio onde são estimuladas “soft skills” [competências/aptidões] que podem não ter tido oportunidade de desenvolver antes. Gostava também de referir a necessidade que o ser humano tem de sentir satisfação ao concluir uma etapa, da importância da existência de um sentimento de apreciação pelos membros de equipa como o tal “reforço positivo” que muitas pessoas procuram numa “cultura de trabalho”. Do meu ponto de vista, este reforço positivo pode ser mais imediato na conclusão de uma apresentação teatral que numa empresa, por exemplo, a não ser que hajam metas muito claras e uma palavra de apreciação quando concluídas; por vezes existe um “loop” de trabalho acumulativo que pode levar à desmotivação dos trabalhadores. Ao trabalharmos com a comunidade, temos a possibilidade de conhecer diversos “backgrounds” e torna-se mágico conseguir a inclusão de todas elas, a sua respetiva partilha de competências e proporcionar-lhes essa necessidade de satisfação pessoal que todos buscam.  (esta reflexão está enquadrada na pesquisa que estou a realizar para a minha proposta de dissertação do Mestrado de Línguas e Relações Empresariais, com o tema “O Contributo do Teatro em Atividades Teambuilding”). Acredito na acessibilidade da atividade cultural e artística para todos; é importante ser dada essa possibilidade de escolha. Do meu ponto de vista. o marketing que funciona de forma mais efetiva para projetos comunitários é o chamado “boca-a-boca” e, ao trabalhar com a comunidade, isso é muito visível (“Vem participar neste projeto”, “Trouxe a minha amiga”, etc.). Ao envolvermos a comunidade em projetos teatrais, oficinas ou workshops, propostas culturais em geral, estamos a aproximá-las da programação das atividades culturais existentes, levando-as, muitas vezes, a serem um público ativo.

 

A importância do teatro na aquisição e desenvolvimento de competências dos cidadãos de que forma se pode refletir também em projetos para a infância?

Acredito que existe atualmente uma maior consciência por parte do cidadão comum dos benefícios que a prática teatral desperta no indivíduo e da sua importância no desenvolvimento das crianças. A expressão dramática, assim como a dança, a música e as artes plásticas, é “matéria escolar” de vital importância no desenvolvimento ao nível da imaginação, da afetividade e do sentido crítico, funcionando como terapia ao nível psicológico capaz de vencer as barreiras de socialização que por vezes a integração no universo escolar provoca em muitas crianças, contribuindo para uma eficaz concretização da sua inclusão social. A atividade teatral estimula o trabalho em equipa, o desenvolvimento do sentido de entreajuda, a noção de respeito, a aquisição de “soft skills” importantes, não só para o seu desenvolvimento cognitivo, como para o estímulo de relações interpessoais. Por outro lado, da experiência que tenho tido, concluo que os projetos direcionados para a infância seduzem mais público do que os espetáculos para adultos, o que leva os responsáveis autárquicos a apostar neste género de produções.

 

Na tua opinião, o teatro comunitário e infantil serão a melhor aposta se Gaia quiser constituir-se numa janela de oportunidade para os artistas emergentes?

Penso que são boas apostas, mas não as únicas. Mas acredito na verdade que a envolvência da comunidade pode suscitar um maior interesse na ida ao teatro, após a participação ativa na construção de um género cultural tão estimulante e acessível a todos. Com projetos que integrem pessoas da comunidade, acredito que poderá ser criado um espaço dinâmico e empático onde os artistas se sintam muito bem-vindos na apresentação dos projetos, sabendo à partida que podem contar com um público interessado em vê-los.

 

A terminar, fala-me dos teus sonhos. Que personagens, peças ou autores gostarias que te desafiassem a representar neste momento da tua carreira?

Já dizia Fernando Pessoa: “tenho em mim todos os sonhos do mundo”. Adaptando a frase à minha pessoa: Não tenho os sonhos de toda a gente no mundo, mas tenho muitos sonhos que quero realizar em todo o mundo. Tenho muita vontade de viajar, conhecer mais culturas e trabalhar com pessoas diferentes em países diferentes. Sem dúvida que gostaria de ser desafiada para um projeto multicultural, com criação de um texto contemporâneo que participe em festivais. O projeto pode ser desenvolvido em Portugal, pois acredito no “ir buscar água fora e dar de beber à nossa terra”, mas que ofereça pontos de vista distintos. Para a carreira futura ambiciono desafios que me levem a experimentar coisas diferentes, poder trabalhar em companhias com quem ainda não tive oportunidade de o fazer e pisar palcos novos, alternativos ou tradicionais, sentir o público a respirar comigo, o que, enquanto atriz, foi das melhores sensações que já vivi. E, claro, lutar por um lugar ativo na cultura!

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