Nascido e criado na Ribeira Grande, Nelson Correia é um dos empresários que cria e estimula a economia do concelho. Sócio-gerente da empresa Jacinto Ferreira Correia & Filhos Lda., desde cedo se dedicou ao negócio de família.

Durante a entrevista ao Audiência conta que o que começou com uma taberna-mercearia evoluiu para outros ramos de atividade tais como mobiliário, decoração, eletrodomésticos, informática, materiais de construção, bricolage e jardim.

Com quase 69 anos de existência, a serem celebrados em junho deste ano, a empresa conta atualmente com 33 funcionários e cerca de 7.000 metros quadrados de área de disposição ao público.

O Audiência entrevistou o empresário para saber quais as suas origens e o que perspetiva nos negócios da família.

Começando pela sua infância. Nascido e criado na Ribeira Grande, também estudou cá?
Não, o meu pai quis que eu fosse para o seminário do Colégio de Santo Cristo, onde é hoje o São Miguel Park Hotel. Na altura havia só o ensino particular na Ribeira Grande a partir do 5.º ano, que na altura era o primeiro ano do preparatório. Então o meu pai achou que eu tinha melhores condições lá em baixo [em Ponta Delgada]. Assim estive no seminário durante três anos e depois passei para a escola industrial e comercial de ponta delgada, hoje a Secundária Domingos Rebelo, onde acabei por tirar o 12.º. A universidade abriu logo depois, mas na altura ingressei no mercado de trabalho.

E ainda trabalha.
Trabalho. Comecei a trabalhar com 18 anos. Fui professor naquela altura com 18 anos. Não havia professores, estamos a falar de 1976-77. O 25 de abril deu-se em 74, então podia se ser-se professor com o antigo sétimo ano. Fui professor de contabilidade, matemática e economia durante dois anos. Depois fui para o Instituto Nacional de Estatística. Estive lá alguns anos, até fazer os sensos de 1980. Fui coordenador dos sensos de 1980 de toda a ilha de São Miguel. Depois apareceu uma oportunidade de ingressar na banca e aí tive 11 anos de atividade bancária. A partir daí, o meu pai teve um problema de saúde, e desafiou-me a continuar a sua empresa. Ou eu continuava, ou ele tinha de dar a volta na empresa porque os meus irmãos eram muito mais novos e não reuniam condições naquela altura para o desempenho das funções. Assim enveredei pela área comercial, que é um calvário. Há altos e baixos, baixos e altos, mas estamos cá firmes, de pedra e cal. Estive na banca entre 1981 e 1992. Portanto… de 1992 até agora, há 27 anos dedicado de alma e coração à empresa Jacinto Ferreira Correia e Filhos, Lojas Papagaio, Stand Correia, por aí fora… sempre trabalhei desde muito novo. Antes de ir para a escola primária trabalhava. Ajudava o meu pai na mercearia e na taberna que já vem desde os meus avós. Eles fundaram a Jacinto Ferreira Correia e Filhos em 1950, com uma mercearia e taberna, portanto a empresa vai com 69 feitos agora em junho.
Desde pequenino sempre tive o bichinho pelo comércio. Para quem gosta, é uma área muito interessante.

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Começou com os seus avós com uma mercearia e taberna. Como é que a empresa foi evoluindo?
Portanto, o meu pai esteve 11 anos no Brasil e veio com ideias mais alargadas. Acabou por puxar por meu avô, porque ele também lhe deu liberdade. Enveredou por outros ramos, para além da taberna e da mercearia. Na altura ele tirou um curso de radiotécnico, que era reparações de rádio, e começou a vender eletrodomésticos. Também tinha uma ourivesaria, das poucas do país em que se vendia ouro. Nessa altura, meu pai começou a evoluir para outras áreas de negócio. Com o aumento da clientela, foi adquirindo outras casas ao lado, aumentando a área de negócio, e hoje somos o que somos: já temos cerca de 7.000 metros quadrados de área de disposição ao público.

Quantos funcionários tem?
Neste momento somos 33, já fomos cerca de 50 com as mesmas áreas de negócio, mas tivemos de reestruturar muita coisa.

Ou seja, durante a crise não teve necessidade de fechar nenhuma loja.
Não fechámos estabelecimentos, tivemos foi de reformular os estabelecimentos, compactando mais os horários e trespassámos o minimercado. Na altura da crise, em 2009, a empresa tinha cerca de 50 funcionários e faturávamos uns milhões de euros. Acontece que estávamos expostos à área da construção, o que nos afetou a empresa. Praticamente 50% da empresa estava exposta à construção. Apanhámos mais de dois milhões de euros em calotes: dívidas incobráveis, empresas que já desapareceram…

Foi também essa valência de estabelecimentos que têm que ajudou.
Diversificando um bocadinho as nossas áreas de negócio, umas acabaram por aguentar as outras, nomeadamente as áreas do mobiliário, eletrodomésticos, informática e mercearia na altura. Tudo isso potencializou e fez com que fôssemos criando alguma musculação no comércio. Não foi fácil. Foi uma altura muito complicada, entre 2009 até 2014. Foram cinco anos de pesadelo e de incerteza. Só a partir de 2014 começámos a crescer. Felizmente não houve um ordenado em atraso com os funcionários. A empresa nunca teve ordenados em atraso com os seus funcionários, cumpriu sempre religiosamente essa parte. Pediu foi a colaboração dos bancos para o que era necessário, a colaboração dos fornecedores, que também foram impecáveis, e este ano acabámos por fazer a última renegociação com a banca e correu-nos bem. Hoje não vamos cometer os erros do passado e temos um caminho mais sorridente que tínhamos. As crises são complicadas, e a de 2009 não estava no horizonte de muita gente. Esta é uma região pequena, não há muitas alternativas… aguentou-se quem pôde. Atualmente temos o ‘boom’ do turismo, mas o que aguenta mais um país é a construção e a indústria, são os alicerces. A construção nos Açores está fraca. Há uns anos havia muitas e boas empresas de construção, mas neste momento não temos. O que quero dizer com isto é que a construção está fragilizada, não está cimentada.

Planos para o futuro?
A nível da empresa, é solidifica-la. Readaptá-la e consolidá-la. Possivelmente, com calma, vamos enveredar para outras áreas de negócio.
Durante os anos transatos, na área do setor da construção que é mesmo dentro da empresa, o meu irmão Pedro acabou por enveredar pela renovação de relvado de campos de futebol, parques infantis, lagoas artificiais, reservatórios de água… neste momento há outro negócio em mira e são esses negócios que vão ajudar a perda de algum negócio que temos na área da construção. Em termos de mobiliário, que é uma forte área nossa, levou uma “pancada”, como disse há pouco. As famílias tinham dinheiro para comprar casa e mobiliário. Neste momento não existe dinheiro para fazer casas… e quando se chega às mobílias, já não se compram as caras. Está a vender-se mobília barata. Na área dos eletrodomésticos, que é importante dentro da empresa, cada vez mais temos vendido mais porque estamos mais presentes junto do consumidor. Somos mais eficientes que a concorrência porque por sermos mais pequenos temos mais atenção às reclamações do consumidor, que tem um contacto mais direto connosco. Não há aquela frieza que existe com as grandes superfícies. Por isso é que temos vindo a crescer. É uma área na qual o consumidor consegue comparar os preços facilmente.

Onde é que os clientes investem mais a nível de qualidade? No eletrodoméstico ou na mobília?
No eletrodoméstico o cliente investe mais em qualidade. À partida tem de ser mais duradouro. Principalmente na máquina de lavar e no frigorífico… No mobiliário, ainda que não estejam com a ideia de trocar, não estão dispostos a dar muito dinheiro. Isto também porque a oferta não é a mesma do que há dez anos. Hoje em dia existe uma panóplia de soluções em termos de cores. Hoje julgamos que temos uma peça moderna em casa e ao fim de dois anos está desatualizada. Por isso mesmo o cliente prefere não dar muita importância ao mobiliário.

Com o turismo em ‘boom’, como disse há pouco, enquanto empresário, o que é que falta na Ribeira Grande?
Na área do turismo nós também tivemos sorte. Acabámos por vender devido às casas de alojamento local. Embora as pessoas não estejam dispostas a apostar em coisas muito caras, acabámos por ser beneficiados por isso. Aqui na Ribeira Grande em termos de turismo, julgo que estamos de vento em popa. Há uma grande preocupação em fazer hotéis, apart-hotéis, mas no centro da Ribeira Grande (a Rua Direita e a Praça do Município), tem de haver uma atenção redobrada para esta situação: não temos cafés em condições e é altura de receber os turistas. Não estou a falar mal dos que estão, os que estão, estão bem. Mas precisamos aumentar a qualidade e a diversidade dos nossos cafés, precisamos ser mais atrativos no centro da Ribeira Grande. Mesmo a nível de lojas de roupa, algumas têm desaparecido a favor do ‘chinês’. Enquanto empresa, nós nunca nos preocupamos com o centro da Ribeira Grande. Mas as nossas atividades estão muito bem no limítrofe da cidade porque todos os clientes, à partida, têm transporte e deslocam-se até lá. Não há problemas de estacionamento nem congestionamento de trânsito. No entanto fico triste porque efetivamente temos de nos empenhar em trazer a tal restauração de qualidade. Não é que não tenhamos, está repartida no concelho. Mas precisamos de trazê-la para o centro. O turista está dentro do hotel, quer vir ao centro da cidade, não tem nada para fazer. A Câmara Municipal fez noites de verão em 2018. Mas tem de haver mais animação no centro da cidade.

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