Em duas temporadas seguidas o director do Teatro Nacional São João, o artista plástico, Nuno Carinhas, ofereceu-nos versões singulares de duas obras-mestras de William Shakespeare, o Macbeth, essa peça escocesa amaldiçoada e a tragedia de Otelo, o Mouro de Veneza.

Curiosamente duas versões sobre a escuridão do ser humano e os seus sentimentos mais tenebrosos em luta constante pela conquistada luz. Relativamente a Macbeth citamos do programa; “ O vosso nome?”, pergunta aquele que vai morrer. “Ouvi-lo só assusta”, responde aquele que vai matar.

Pela primeira vez no seu trajeto de encenador, Nuno Carinhas enfrenta uma obra de William Shakespeare, e começa por esse nome que atrai todos os superlativos: Macbeth, a mais veloz, a mais enigmática, a mais maligna ou até a mais moral das tragédias daquele que ousou inventar o humano. “Tão feio e belo dia nunca vi”, dirá o herói (e vilão) assim que entrar em cena, oferecendo-nos uma descrição da chamada “peça escocesa”, território habitado por ritos maléficos, prenúncios, noites sangrentas, insónias, fantasmas – e pela pergunta: o que significa ser homem, agir como um homem?

Com um elenco de atores que conhecemos das mais marcantes produções do TNSJ, ressoa na penumbra a pergunta; “Quanta vez a voz da escuridão nos diz verdades, bagatelas honestas para atrair-nos ao mais fundo dos fins?” Otelo que esgotou todas as representações voltará em Janeiro para os espectadores que não conseguiram apreciar este belo trabalho. “Ele conquista a nossa simpatia de um modo mais imediato do que qualquer outro herói de William Shakespeare, mas alguém notou que existe um inferno (“hell”) em Othello. Mas só existe Otelo – o nobre e destemido guerreiro, o “estranho forasteiro / de aqui e toda a parte” – porque existe Iago, o profeta do ressentimento e da desordem, e porque existe a bela Desdémona, palavra shakespeariana que significa “amor”.

A peça começa e termina numa escuridão que é perfurada pela luz e avança, imparável, por entre as sombras de Veneza e Chipre, geografias da ordem e do caos, mergulhadas ou rodeadas de água, elemento que conduz, transporta, reflete, espelha, distorce. Otelo perdura na nossa memória e imaginação porque é a tragédia por excelência da diferença e da alteridade, da dúvida e da vulnerabilidade, do ciúme e da traição. Mas é também a tragédia da linguagem, essa encantatória “música de Otelo” que é aqui reinterpretada pelo poeta Daniel Jonas. Otelo surge depois de Macbeth (2017), formando um díptico shakespeariano onde o encenador coloca em perspetiva duas radicais e exuberantes visões do mal. “Só se vê a maldade em pleno uso.”

Em janeiro de 2019, um novo director artístico para o TNSJ, trata-se de Nuno Cardoso, que nas palavras de Pedro Sobrado (Presidente da Administração do TNSJ), é, como ele próprio, “um dos elementos da prole gerada por este Teatro Nacional nos últimos 20 anos”, e que agora “regressa à casa que é a sua, a casa a que pertence. A sua nomeação tem o impacto de uma novidade imensa numa estrutura que se distingue por uma estabilidade muito rara. Trata-se, na verdade, de uma escolha que respeita e visa essa mesma estabilidade, não só porque o percurso do Nuno Cardoso enquanto encenador de repertório se adequa ao que a lei orgânica do São João exige, mas também porque ele conhece bem esta casa: trabalhou aqui, nos anos de Ricardo Pais, como coordenador de programação do TeCA; encenou várias produções próprias entre 2003 e 2007; e o seu trabalho como encenador tem sido recorrentemente programado pelo Nuno Carinhas”.

Nascido em 1970 em Canas de Senhorim, Nuno Cardoso iniciou o seu percurso no Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra (CITAC) e foi um dos fundadores, em 1994, no Porto, da companhia Visões Úteis, onde encenou As Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira, Casa de Mulheres, de Dacia Mariani, ou Porto Monocromático, uma co-produção com o TNSJ que marca, em 1997, o início de uma longa colaboração com o teatro que agora vai dirigir. Finalmente destacar o “papel capital” que o encenador Nuno Carinhas teve nestes dez anos, abrindo as portas às diferentes companhias profissionais de teatro e às escolas de formação teatral do Porto.

Nas palavras de Pedro Sobrado; “Vamos precisar de algum tempo até sermos capazes de medir o alcance do trabalho do Nuno Carinhas à frente do São João”. “O Nuno é tão discreto no seu discurso programático como o é no seu discurso cénico, mas – sem espavento, sem bravatas e soundbytes – foi capaz de desenvolver um trabalho marcante a vários níveis: com orçamentos reduzidíssimos, criou espectáculos que perfazem hoje a personalidade artística deste teatro, ao mesmo tempo que investiu na sobrevivência de um tecido teatral severamente castigado”.