A nossa convidada de hoje para mais uma reflexão sobre o teatro profissional em Gaia é a atriz, dramaturga e produtora Márcia Gomes. Ela concluiu a licenciatura em teatro (variante interpretação) pela ESMAE-Escola Superior de Música, Artes e Espetáculo em 2014, onde adquiriu conhecimentos sobre história de teatro, voz, canto, movimento, formação e produção, desenvolvendo a partir daí uma intensa atividade em diversas estruturas, até se juntar a duas colegas de curso para concretizar o sonho da criação da “Orla – Companhia de Teatro”, onde interpretou produziu e dirigiu inúmeros espetáculos para o público escolar e geral.

Paralelamente, foi participando como animadora e intérprete em feiras Medievais e Romanas, na Art’Encena de Santa Maria de Feira, e em projetos de rua vários no Festival Bons Sons de Tomar e no evento Noites Brancas de Braga. Como formadora, prestou colaboração na Oficina de Teatro TOU-in da Associação Astro Fingido, do Porto, com planificação e ministração de aulas para alunos do 3º. Ciclo do Ensino Básico nos concelhos de Baião e Cinfães.

No presente ano escolar, é professora de Atividades de Enriquecimento Curricular na Academia de Artes Performativas-Teatro (1º. Ciclo do Ensino Básico) em Vila Nova de Gaia. E atualmente integra o elenco de dois espetáculos em preparação no palco da Tuna Musical de Santa Marinha, com estreia prevista para os próximos meses de abril e maio, ao lado de criadores e artistas amadores. Oiçamo-la então:

 

Quais são neste momento os principais problemas que se colocam aos jovens artistas na inserção no mercado de trabalho em cidades com o perfil de Gaia?

Bem, falar sobre os principais problemas neste momento será impossível de fazer sem referir a pandemia do Covid-19, que afeta não só os jovens artistas, mas sim todos os artistas na globalidade e que traz grande instabilidade financeira, social e psicológica ou emocional. Eu creio que estamos a atravessar um momento em que os artistas estão, de facto, de mãos e pés atados. Muitas estruturas tiveram de encerrar, a atividade ficou reduzida, muitos cancelamentos e muitas dificuldades para os que conseguiram continuar a ter alguma atividade. A verdade é que antes desta situação peculiar era possível reparar em alguns problemas em Gaia. Por exemplo, sempre me intrigou que as infraestruturas como o Auditório Municipal ou o cineteatro Eduardo Brazão tivessem uma programação tão escassa e uma divulgação tão tímida. Questiono-me se um dos problemas será a falta da equipa técnica necessária para o bom e pleno funcionamento das mesmas, ou um orçamento limitado para a contratação de pessoal e de espetáculos. Outra questão, que afeta todo o país, é haver tão poucos apoios e os que há costumam ser para projetos esporádicos quando deveriam ser para propostas mais prolongadas no tempo, o que permitiria uma maior captação e fixação de públicos. Seria ainda interessante destacar e publicitar os locais de trabalho e convívio artístico que existem em todas as freguesias de Gaia, importantes para a troca de ideias e fomento cultural. Há inúmeras associações e coletividades em Gaia, onde se vivem as tradições, mas que estão de braços abertos para abarcar um número maior de atividades e, claro, mais apoios, pois também se veem em dificuldades. E talvez o principal problema seja a cidade de Gaia situar-se ao lado do rio, com vista para o Porto, e acabar por ficar um pouco à margem. Sem necessidade, pois pelo que conheço de Gaia (que não é assim tanto, pois Gaia é muito extensa) existem formas plausíveis de suavizar estas questões. Mas claro que estão intrinsecamente ligadas a políticas culturais.

 

E quais são essas formas a que te referes, que segundo a tua opinião parecem estar dependentes da implementação de mudanças na política cultural municipal?

Torna-se de certa maneira difícil opinar sobre este assunto uma vez que desconheço toda a realidade do que se vive. Estarão certamente a ser tomadas medidas que desconheço, dentro dos possíveis que o momento atual permite. Inclusivamente, no Verão de 2020, após o levantamento do 1º confinamento, a companhia da qual fazia parte, a Orla-Companhia de Teatro, ainda pôde usufruir do que considero ser uma dessas medidas, ao fazer a circulação de peças infantis pelas Escolas do 1º ciclo. No entanto, se por um lado considero ser de extrema importância levar a cultura às crianças, acho que deveria ser criado um projeto em parceria com os espaços culturais de cada freguesia que permitisse uma oferta cultural mais ampla às comunidades locais. No fundo, é preciso desenvolver meios que incentivem as pessoas a uma maior procura de atividades culturais. Acredito que as formas mais simples que existem são as de encontrar um diálogo mais próximo entre os artistas, as estruturas culturais, as infraestruturas e o público de Gaia. Seria de grande utilidade a realização de um inquérito à população para se perceber que locais artísticos frequentam os públicos gaienses e do que sentem falta como oferta. Esse inquérito permitiria de forma assertiva identificar medidas para satisfazer as necessidades dos profissionais ligados à cultura, indo ao encontro da população e das suas necessidades. Faz falta também a criação, ou disponibilização, de um local que funcione como fórum cultural onde os profissionais possam agrupar-se, travar contatos, conhecimentos, ideias. Que eu tenha conhecimento não existe nenhum. Tal espaço não só permitiria que novos profissionais tivessem acesso a informações úteis ao início da sua carreira como permitiria que a comunidade cultural discutisse formas de melhor comunicar com a sociedade, melhorando a perceção desta última para o que, culturalmente, acontece. Por fim, urge resolver uma situação que não está diretamente ligada à política cultural, mas com a qual me deparo há alguns anos e influencia a minha decisão de onde ir. É a mobilidade dentro do concelho, para quem não utilize viatura própria, seja por opção ou por limitações financeiras, de idade ou outras. Talvez estivesse na altura de atualizar, e modernizar, a mobilidade dentro do concelho, tornando mais acessível e inteligível os horários das diversas carreiras de transportes públicos em Gaia, aumentando a sua periodicidade e assinalando corretamente as paragens. A circulação para o Porto é fácil, mas em Gaia torna-se mais complexa a circulação por dentro das várias freguesias. Esta pode, à partida, não ser uma medida cultural, mas seria muito importante, pois permitiria gerar um maior fluxo de circulação dentro do concelho.

 

Na tua opinião, até que ponto a concertação de estratégias entre o teatro amador e o profissional pode propiciar o enriquecimento do tecido cultural de Gaia?

Acredito plenamente que isso traria um gigantesco enriquecimento cultural. Há algo inato e imprescindível no teatro, quer seja ele amador ou profissional, esse algo é o público. Sem o espectador seria impossível existir espetáculos, as pessoas que observam e apreciam a cultura existem e em cada uma delas existe um artista, com a sua arte única por descobrir. O teatro amador e o profissional estão intimamente ligados. Pessoalmente, o meu amor pelo teatro principiou no teatro amador, na escola e depois num grupo de faculdade, e não conheço ninguém que não tenha começado aí. Escolhi profissionalizar-me porque queria aprender mais e viver da arte que tanto admiro. Na altura já sabia que seria um percurso árduo, mas gratificante. E na altura desconhecia o quão gratificante seria lecionar teatro, o maravilhoso que é observar alguém descobrir algo novo sobre si próprio. Partilho o meu testemunho porque estou interligada tanto ao teatro amador como ao profissional e continuo a aprender imenso em ambos. Atualmente, como já referido, para além de lecionar, estou envolvida em dois projetos com a Tuna Musical de Santa Marinha. Esta envolvência surgiu precisamente de uma estratégia de reunião do teatro amador e profissional no Festival de Teatro José Guimarães. Esta foi uma excelente estratégia, feita com escassos recursos, quando deveria ser apoiada pela movimentação e fomentação que gera. Mais estratégias como esta ou semelhantes deveriam ser criadas e devidamente apoiadas pela autarquia local para que o enriquecimento cultural seja crescente e cumulativo. Para o efeito, nada melhor que a união destes dois amantes eternos, o amador e o profissional. Para que se possam continuar a descobrir talentos, muitas vezes natos, que existem no teatro amador e podem passar despercebidos por não enveredar pelo percurso académico, e principalmente, para que o teatro continue a ser das pessoas para as pessoas.

 

Para além de estabelecer parcerias com o movimento associativo popular, que papel deve ter o teatro profissional na sua relação com a comunidade escolar?

Já é sabido que o teatro tem importância no desenvolvimento do indivíduo. Permite desenvolver aspetos importantes, como criatividade, imaginação, vocabulário, memorização, coordenação, foco, escuta, empatia. Pelo teatro formam-se indivíduos críticos e atuantes do seu meio, capazes de opinar, criticar e sugerir sobre aspetos do mundo que os envolve. Há cada vez mais profissionais interessados em trabalhar com a comunidade escolar, seja através da realização de espetáculos ou de ações de formação. Não só pelo que foi referido, mas também pela criação de um futuro público de teatro estimulado pelo gosto pela representação. Apesar de vários grupos e artistas estarem direcionados e trabalharem com (ou para) a comunidade escolar, ainda há muito a conquistar. O que verifico é uma tendência de se atuar no ensino básico, deixando uma lacuna por preencher no que toca ao ensino secundário. Tive oportunidade de dar formação a partir de uma iniciativa para preencher esta lacuna e de me aperceber de alguns dos problemas que podem estar na sua origem: muitos estímulos, grande carga horária, desconhecimento do teatro. Apesar disso, foi gratificante ver a evolução e maturação de como os alunos, quase sem se aperceberem, estavam a identificar, focar e até solucionar alguns dos problemas locais. É por isso que as escolas, juntas de freguesia e comunidades locais devem estimular a formação de grupos de teatro constituídos por crianças e jovens.

 

A terminar, e sem desvendar muito, importas-te de definir os espetáculos que ensaias na Tuna Musical de Santa Marinha e que se prevê estreiem em abril e maio?

Em abril, como é hábito acontecer todos os anos, a Tuna Musical de Santa Marinha, assinala as comemorações do 25 de Abril com a estreia de um espetáculo alusivo àquele momento histórico e aos tempos dramáticos que o antecederam, intitulado “Aquele Inverno”. Já em maio prevê-se a estreia de um espetáculo de teatro de revista, há muito aguardado. Chama-se “Vamos à Revista” e marca a estreia do arquiteto, poeta, músico e artista plástico José Luís Guimarães na escrita deste género teatral. Só espero que as portas dos espaços culturais reabram em breve e que nos possamos todos reunir novamente!

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