Para a nossa entrevista de hoje são nossos convidados os artistas multidisciplinares Julieta Rodrigues e António Oliveira. Ela é fundamentalmente atriz, figurinista e palhaça; ele é principalmente encenador, manipulador de objetos e pedagogo, ambos com um interesse particular em Artes de Rua e Novo Circo.

Julieta Rodrigues concluiu o curso de Teatro (interpretação) na ESMAE – Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo, após a sua integração no Teatro Universitário do Porto através do curso superior de Psicologia, e António Oliveira iniciou o seu percurso académico na ACE-Academia Contemporânea do Espetáculo.

Mais tarde, frequentaram juntos o curso de formação avançada itinerante de Artes de Rua na FAI.AR, instituição com sede em Marselha, e o curso de Pesquisa e Criação Coreográfica promovido pelo Fórum Dança. Em 2005 fundaram a companhia RADAR 360º, estrutura que codirigem e que se dedica sobretudo a trabalhos nos domínios do teatro físico, artes de rua e novo circo. Sediada atualmente em Matosinhos, com o apoio institucional da autarquia local, a RADAR 360º tem no seu historial um longo percurso nacional e internacional, exibindo os seus projetos na Alemanha, Brasil, China/Macau, Espanha, França, Roménia e em diversas cidades de todo o território português. Em 2020 deixaram uma marca indelével da sua força criativa no espetáculo “O Banquete”, a que podemos assistir do dia 16 de outubro na Tuna de Santa Marinha, no âmbito do Festival de Teatro José Guimarães. Mas há mais, muito mais, a saber sobre esta companhia singular:

 

 

O que motivou a RADAR 360º a envolver-se na criação do mais recente espetáculo do Teatro Amador de Pombal, assumindo a sua direção artística e encenação, para além da coautoria do texto?

A RADAR 360º iniciou a sua relação com [a cidade de] Pombal, através da ArtemRede, que é uma estrutura que faz programação em rede, com 18 municípios associados. Era o ano de 2017, e tivemos o convite de integrar a primeira edição do festival Manobras (organizado pela ArtemRede), que iria passar em Pombal com o nosso espetáculo “Transportadores”. Esta peça foi vencedora da primeira edição da Bolsa de Criação Isabel Alves Costa e resultou de uma pesquisa intensa sobre o teatro físico, as marionetas, a exploração de objetos e o teatro visual. Fazia parte dos planos de implementação do projeto realizar uma formação com grupos locais interessados, para podermos trabalhar uma aproximação á estética, conceitos e suas linguagens. Este tipo de iniciativas visa formar e aproximar os públicos das companhias, havendo uma troca e partilha de saberes e de conhecimentos. E assim foi…o Projeto rodou em Abrantes, Alcobaça e Pombal. E foi precisamente aqui, que conhecemos pela primeira vez, o coletivo do TAP. A sigla soou-nos logo bem, pois remeteu-nos para as onomatopeias da banda desenhada, e assim se referia ao Teatro Amador de Pombal. Sempre que nos referimos á palavra amador, ela aparece com duplo significado: algo que não é profissional e especializado, mas simultaneamente algo que ama e que faz com gosto! Quando chegamos á sala de trabalho, tivemos acesso a um grupo de pessoas muito atento, curioso e trabalhador. Fomos estreitando laços, conhecendo o seu espaço, o seu “modus operandi”, as diferentes pessoas que integram a equipa, as interações humanas, os seus gostos e interesses… Foi-se construindo uma relação sólida!

 

E de que forma se foi reforçando essa relação da RADAR 360º com o Teatro Amador de Pombal, seus criadores, técnicos e artistas?

Em 2018, novamente no contexto do Festival Manobras, voltamos a Pombal. A RADAR 360º foi agora convidada, para organizar uma festa de encerramento do Festival, com momentos de performance que fossem beber ao Cabaret e aos Vaudeville Road Shows. Esta festa seria no dia 31 de outubro, na cidade de Pombal, e tinha a premissa de incluir comunidades locais. Rapidamente ocorreu-nos que este seria o pretexto ideal para reencontrar o coletivo do TAP. Foi neste momento que surgiram as primeiras sementes desta criação. Focamos a pesquisa no trabalho da construção física de um personagem, a partir do corpo e das tendências absurdas de cada um. Foi uma verdadeira descoberta individual e de grupo. Tinham nascido uma série de personagens que no seu todo, formavam um grupo, uma família! Depois de esboçarmos os traços físicos destas personagens, partimos para a investigação das Histórias, que poderiam estar associadas a estas criaturas. A partir daqui, apareceram esboços de figurinos e objetos que pertenciam a este imaginário e que começava a ficar denso e muito intrigante! Criamos material de trabalho e até repertório de movimentos. A experiência que propusemos ao coletivo no dia da performance de 31 de outubro de 2018, baseava-se na presença das personagens ao longo da festa, numa improvisação contínua onde interagiam com o espaço e o público, sempre sob a perspetiva da personagem Este tipo de situação é sempre um risco, pois estar em cena com o material que está a ser gerado em tempo real e a ser improvisado implica uma grande responsabilidade e um estado de concentração muito profissional…e assim foi! Sentimos uma vez mais, que este coletivo estava focado e trabalhou muito bem! Nesta altura, também conhecemos um dos colegas mais antigos no grupo, que era o responsável pela criação da luz, e que, em conjunto connosco, concretizou uma série de dispositivos de luz, nesta performance de dia 31 de outubro, dando uma riqueza ao imaginário e tornando a investigação ainda mais forte. Após esta experiência, ficou muito claro para todos – RADAR 360º e TAP – que devíamos aprofundar esta pesquisa e construir uma peça em conjunto.

 

E foi assim que começou a nascer o “Banquete”. De que forma é que o processo de criação do espetáculo foi evoluindo até ao seu formato final?

Criamos um processo de trabalho que consistiu em algumas residências artísticas para levantar material. Demos o mesmo foco ao corpo, aos objetos, á cenografia, aos figurinos, á luz, á voz, á parte musical, ao ritmo…enfim…foi um processo bem intenso, mas muito saboreado. Tudo o que está em cena foi uma descoberta em conjunto, montada e composta em sala de ensaio, com todo o critério. Quando construímos uma peça, consideramos que ela deve pertencer a quem a cria e nela participa. Só assim, consegues chegar a produtos únicos e originais. O cunho e a personalidade de cada um dos intérpretes, colocado na dose certa na peça, construiu carisma e forneceu o conteúdo e texto que fomos escavando durante o processo criativo. Este encontro artístico deu origem a uma peça algo insólita, inspirada pelo absurdo da própria vida! Entre a dimensão onírica e o humor negro que caracteriza o imaginário da Companhia RADAR 360º, o nosso trabalho com o TAP encontra a sua expressão estética e artística no universo do absurdo! Segundo Albert Camus, “O absurdo é a razão lúcida que constata os seus limites.” Sejamos então absurdos! Sem um texto ou um autor de referência, mergulhamos juntos neste laboratório criativo, atentos ao que nos rodeia e à nossa própria condição como seres humanos. Objetivo: Construir uma peça de teatro com uma narrativa não linear, cheia de quimeras e outras fantasias dignas de encantar e desafiar o mais absurdo dos espectadores! O teatro do absurdo esforça-se por expressar o sentido do sem sentido da condição humana, e a inadequação da abordagem racional, através do abandono dos instrumentos racionais e do pensamento discursivo e fá-lo através de “uma poesia que emerge das imagens concretas e objetificadas do próprio palco”. Em pleno ano de início da pandemia, que nos apanhou a todos desprevenidos, o espaço do TAP, foi uma espécie de oásis para todos os envolvidos. Foi dos únicos trabalhos que a RADAR 360º viu acontecer durante o primeiro ano pandémico, realizado com toda a segurança interna e regras previstas, e estreado com público em sala! Foram momentos de sinergia e relações humanas que se fortaleceram, pois um processo criativo vive sobretudo disto… chegamos mesmo a questionar se as companhias não estarão já em extinção, pois hoje em dia, os coletivos profissionais, juntam-se em momentos específicos, quando há um projeto financiado, e depois cada um segue a sua carreira individual… mas, em Pombal, conhecemos um Grupo que está verdadeiramente junto, uma companhia, portanto…e, em palco, isso sente-se!

 

Como justificam a facilidade com que o Teatro Amador de Pombal se a ajustou à vossa estética e filosofia, conceitos e linguagens, métodos e processos criativos?

Os elementos do TAP sempre acompanharam de perto a RADAR 360º, desde que nos conheceram, e sempre sentimos que a nossa linguagem estética e artística, mais próxima do teatro físico e de objetos, sempre os desafiou e os provocou a experimentarem novas possibilidades de escrita dramática! Era um mundo a descobrir! O TAP revelou ser um coletivo com talento, curiosidade, gosto no trabalho, vontade de improvisar, capacidade de se adaptar, sem qualquer medo de desafios, sempre pronto a arriscar. Ficamos honrados por escrevermos esta peça em conjunto… “O Banquete”. Segundo se consta, foi a única peça sem texto [pré-concebido] apresentada pelo TAP em 45 anos de história!

 

Na vossa opinião, até que ponto este tipo de sinergias do teatro profissional com os grupos amadores locais pode ajudar à democratização e desenvolvimento da atividade teatral numa cidade com o perfil de Gaia?

O teatro amador é por excelência um espaço integrador e congregador. São inúmeras as histórias de vários profissionais da área do teatro em que o seu primeiro contacto com esta área foi através de movimentos amadores. Estes coletivos criam um espaço especial, onde as pessoas se juntam para usufruir a experiência de estarem juntas. No fundo, fazer teatro é estar junto, comunicar, contracenar e ter opinião. É uma oportunidade de nos conhecemos melhor, a nós e aos outros. O local da reivindicação, da luta, do manifesto e da libertação. A prática da arte não tem que ter o cunho do profissional, ela é feita a partir de cada um de nós, que a sente e a quer fazer! Estes grupos, são um grande motor de cidadania, onde se desenvolvem partilhas e valores humanos que no mundo profissional, informatizado e industrializado, estão profundamente em extinção. Sempre privilegiaremos as sinergias entre estes movimentos, para podermos cruzar perspetivas. Não procuramos resultados, mas sim saborear os processos. O impacto acaba sempre por acontecer…primeiro internamente, e depois na Forma de Arte.

 

A terminar, porque a conversa já vai longa, quais são os projetos que têm neste momento em mãos e por onde andará a RADAR 360º nos próximos meses?

A RADAR continua na estrada, assim a pandemia nos permita, com os projetos que estão em itinerância. Até ao fim do ano, vamos fazer a “Pequena CircOOnferencia”, a “CircOOnferencia” e “O Baile dos Candeeiros”. Simultaneamente já estamos em trabalhos para nova estreia da companhia que será em março de 2022. Será uma viagem bem forte que vai percorrer 12 localidades, e que gostaríamos imenso que festejasse o fim da pandemia… O projeto chama-se “A Feira” e será uma produção de rua multidisciplinar que procura interação com grupos locais, as suas histórias, mitos e tradições. Estamos a fundir a tradição com o contemporâneo, num projeto de pesquisa plástica e ocupação do espaço público. Estamos também a revisitar as formas de arte na rua, para que possamos resistir á pandemia, e assim consigamos partilhar este projeto com o público.

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