O Tempo: (como Coro)

Eu, que a todos castigo, alegro e espanto bons e maus, erro muito e, no entretanto, descubro os erros, ora determino usar as asas com bastante tino, sob a forma do Tempo. Por tudo isso, à conta não leveis de mau serviço dezasseis anos haver eu pulado…*

As estações das quais mais gosto são as intermédias! Em realidade todas elas são intermedias, pois medeiam, o aparecimento, ou o início de uma e o final de outra. Mas quando falo de intermédias, refiro-me àquelas que pelas suas características são mais suaves, menos violentas, mais ténues no seu comportamento. Assim qualifico, o Outono e a Primavera! O equinócio de outono este ano de 2020 verificou-se na terça feira  22 de setembro, às 15h. Quando criança pensava que as estações se sucediam de um dia para outro, isto é, que apareciam enquanto nós dormíamos de noite … e de repente ao acordar já estávamos numa nova estação. A ciência nos ensina que não é bem assim. Pode ser, como neste caso, à tarde, depois do almoço, ou durante a sesta dos espanhóis, ou do descanso à sombra no Alentejo.  E a ciência nos disse com exatidão que; “O equinócio de outono é a designação que a Astronomia atribui ao fenómeno natural que assinala o final do verão e a chegada da nova estação. É o instante preciso em que o Sol cruza o plano do equador celeste, o que decorre em setembro no hemisfério norte e em março no hemisfério sul. O termo latim “equinócio”, composto pelas palavras aequus e nox, significa “igual” e “noite”. Aplica-se a este momento, pois durante os equinócios os dias e as noites, com aproximadamente 12 horas, têm a mesma duração.” Aqui como veem fala-se da noite, depois de tudo não estava tao equivocado quando criança. As estações foram sempre matéria de inspiração artística, na escultura (como alegorias), na dança, na música, na literatura e claro mais tarde no cinema, basta lembrar apenas aquele belo filme Sonata de Outono (Höstsonaten- 1978) do realizador sueco Ingmar Bergman.

A obra mais célebre do compositor italiano Antonio Vivaldi  (1678 – 1741), a série de concertos “As Quatro Estações” ( “Le Quattro Stagioni“) toma os ciclos da natureza, inspirando-se em particular no cenário do noroeste da Itália, onde o autor vivia na época. Os quatro movimentos foram escritos em 1723 e transformaram-se rapidamente numa conhecida obra popular. Cada movimento contêm elementos narrativos que ajudam na compreensão da obra, e vinham acompanhados por um soneto ilustrativo impresso na parte do primeiro violino, cada um sobre o tema da respectiva estação. Não se sabe a origem ou autoria desses poemas, mas especula-se que o próprio Vivaldi os tenha escrito. William Shakespeare (1564-1616) que morreu com 52 anos, e que por isso mesmo não alcançou o inverno da vida mas sim o outono pleno, abandonou Londres e se retirou nos últimos anos de vida para a sua cidade natal Stratford-upon-Avon.

Em muitas ocasiões Shakespeare coloca as suas personagens em diálogo com a natureza… “Agora é o inverno do nosso descontentamento / tornado em glorioso verão por este sol [ou filho] de York“. The Winter of Our Discontent  (O inverno da nossa Desesperança ou O Inverno do Nosso Descontentamento) prólogo as vezes muito difícil de explicar na boca da personagem central Ricardo III. São precisamente as suas últimas peças nas quais aborda com genialidade o inverno ou o outono das suas personagens das que quero falar; O Rei Lear (1605) é a história invernosa da personagem central em confronto com a tempestade/fúria (tema tão recorrente nele) do núcleo familiar e a natureza. O Conto de Inverno (1610) uma das suas peças mais belas e comoventes está dividida em duas partes, inverno-tragédia e primavera-comédia. Nela assistimos ao ciúme invernoso do rei Leontes que implica como na hybris grega a perda/morte do seu filho mais novo, Mamilus, da sua esposa e da sua filha, curiosamente chamada Perdita na peça. Passados 16 anos, explicados num belo monólogo pela personagem do Tempo (*), e em plena Primavera, o agastado e outonal rei Leontes reencontra a sua esposa supostamente morta recuperando ao mesmo tempo a sua filha Perdita, agora adolescente num belo acto epifânico de Primavera.

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