No final de 1993 António Pedro Costa (então presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande) e o seu executivo tomaram posse para dirigir os próximos quatro anos do concelho. Em menos de um mês surgiu a ideia de retomar a tradição do “Cantar às Estrelas”. O receio sobre a falta de adesão e o orgulho na continuação da festa que já vai para a sua 27.ª edição estão patentes nesta entrevista ao antigo presidente do município ribeiragrandense.

 Em primeiro lugar pergunto qual a origem desta festividade.

Não há certezas quanto à origem desta festividade, há várias hipóteses. Desde logo é possível que tenha origem pagã porque o cristianismo foi montado com a liturgia, com os ritos e costumes que os povos pagãos tinham, e também com o culto da deusa da Estrela. Os cristãos aproveitaram-se dos costumes que havia para fazerem as suas manifestações públicas à sua religião que emergia.

Há relatos, por exemplo, da monja Egéria, no século III, que foi de peregrinação até à terra prometida e aí viu, curiosamente, os cristãos que prestavam culto: louvavam nossa senhora no dia 1 de fevereiro, exatamente na data que hoje se comemora. Isto porque no dia 2 de fevereiro a Igreja comemora a apresentação de Jesus no templo. Como tal, querendo antecipar esse louvor que queriam prestar à mãe de Jesus, os cristãos iam pelas ruas em procissões de velas louvando e cantando a Maria.

Isto foi ficando diferente porque o povo é muito criativo e vai adotando e adaptando as suas manifestações religiosas até ao ponto que chegou hoje, que é completamente diferente daquilo que era no início. Mas há uma raiz comum: o louvor a Nossa Senhora da Estrela. Apesar de os grupos virem a cantar com violas e acordeões, apesar de virem na folia, há uma base: prestar culto a Nossa Senhora.

Esta tradição não se passa só aqui na Ribeira Grande. Pela Europa fora há diversas manifestações que prestam louvor a Nossa Senhora. O cunho particular que aqui existe é por ser Nossa Senhora da Estrela. É a festa da luz. Também é chamada por Nossa Senhora da Luz, ou Nossa Senhora da Candelária. Tudo isto significa o mesmo.

Há aqui, na Ribeira Grande, esta imagem de Nossa Senhora da Estrela. Até a Lagoa também tem e, curiosamente, a banda filarmónica de Santa Cruz é, inclusivamente, Estrela D’Alva. Tudo isto está interligado.

E a história desta festa na Ribeira Grande?

Na Ribeira Grande faz-se esta festa com grande esplendor, mas nem sempre foi assim. Há manifestações religiosas que se vão perdendo e esta é uma daquelas que se estava a perder e já estava praticamente no esquecimento. No entanto, há aqui uma preciosidade: este costume nunca esmoreceu em Rabo de Peixe. Rabo de Peixe tem muitas particularidades e esta é uma delas. Há coisas a que o povo se agarra e esta foi uma das tradições que nunca morreu em Rabo de Peixe. Sou de lá e sempre fui embalado com esta tradição.

Quando cheguei à Câmara Municipal da Ribeira Grande [no final de 1993], achei que, sendo Nossa Senhora da Estrela padroeira do concelho, por que não retomar aqui também a tradição das Estrelas, tal como se fazia em Rabo de Peixe?

Resolvemos que esta tradição de comemorar e louvar Nossa senhora de 1 para 2 de fevereiro se viesse a inspirar naquilo que se faz em Rabo de Peixe: os grupos vão pelas portas a cantar.

Antigamente as bandas filarmónicas iam de casa em casa para cantar e tocar e também lançar algumas “picardias” para que o dono da casa retribuísse com alguns géneros alimentícios ou com dinheiro para o financiamento da filarmónica (nomeadamente aquisição de instrumentos e fardas). Isto porque o Governo não dava apoios como atualmente, portanto tinham que arranjar forma de ter um financiamento e aproveitavam esta oportunidade para ir pelas casas.

Era também a ocasião em que tinham acabado as matanças, que tinham acontecido em dezembro e janeiro. As pessoas obsequiavam os cantadores à porta com esses produtos, tais como morcela e chouriço, e estes vendiam os produtos para angariar fundos.

Então, a minha equipa recentemente empossada, agarrou esta ideia com muita força, até porque havia poucas festas aqui na Ribeira Grande. Na altura encarreguei o vereador da Cultura de fazer uma proposta concreta para a reunião de Câmara, para lançar as bases desta atividade cultural (sem nunca descurar o penhor religioso que estava na génese de toda a festa).

Acontece que pedimos aos grupos corais das paróquias para se organizarem com músicas associadas às Estrelas. Para isso fizemos uma recolha das músicas (e aí o vereador da Cultura [Francisco Xavier] teve um papel fundamental). Todos os grupos que não tivessem música, nós fornecíamos. Até hoje, muitas delas ainda são cantadas. Mais tarde até houve a edição de um CD com essas músicas tradicionais do Cantar às Estrelas.

Como foi a noite da primeira edição?

Foi uma noite que não estávamos à espera… tivemos a sorte da televisão fazer a promoção do evento. Na altura só havia a RTP/Açores. Uma semana antes houve a promoção do evento e veio um mar de gente para a cidade. A noite estava magnífica…

O primeiro desfile foi muito sui generis. Não sabíamos o que ia acontecer… se ia ou não haver adesão. Por isso mesmo convidámos os grupos folclóricos da ilha que viessem cantando as suas músicas no desfile.

O desfile abriu com os Bombeiros Voluntários [da Ribeira Grande] e também com a Associação Hípica da Ilha de São Miguel, que fica em Santana. Vieram com os seus cavalos “escoltar” a rainha, devidamente trajados.

Tudo isto teve um grande impacto, quer positiva quer negativamente. Havia gente que não queria a festa. Achavam que antigamente não havia o desfile pela rua, havia sim de porta em porta. Mas tivemos o cuidado de que cada grupo cantasse à porta de todas as casas da Rua Direita da Ribeira Grande para cumprir essa tradição antiga que era parar às portas. Hoje em dia já não existe quase ninguém a morar na Rua Direita, é quase tudo comércio e serviços, mas de qualquer forma, na altura ainda muitas famílias viviam ali.

Os grupos paravam, entravam, comiam um caldo-verde, bebiam uns licores… fez-se assim. Mas as pessoas achavam que os grupos de folclore e cavalos estavam a mais. Nos anos seguintes fomos “ajeitando” o desfile, para “purificá-lo”. Não sabíamos o que ia acontecer, e a vinda dos grupos folclóricos e da Associação deram preenchimento.

Felizmente estava uma noite friorenta mas bonita. As pessoas vieram de toda a ilha e a partir daí também. A televisão fez uma reportagem, as pessoas viram e no ano seguinte foi mais gente e é o que se vê até hoje.

Esta festa começou também a ir para outros sítios da ilha de São Miguel onde também se fazem desfiles. Na altura, com a promoção que fizemos na televisão, a Tuna Académica da Universidade dos Açores resolveu também fazer o Cantar às Estrelas naquele ano e foram ao Palácio de Santana e à Câmara Municipal da Ribeira Grande. Apercebendo-se daquilo que se ia fazer na Ribeira Grande, arranjaram uma forma de festejar. Isto na primeira edição, em 1994.

A Ribeira Grande é, de facto, a capital das Estrelas. A sua padroeira é Nossa Senhora da Estrela. Felizmente nunca se perdeu essa festa religiosa no dia 2 de fevereiro. Sempre se fez a procissão e missa das 5h da manhã com grande esplendor. O que se fez depois foi conjugar os dois eventos: o Cantar às Estrelas e a festa mais religiosa.

Nos anos seguintes, havia uma procissão desde a igreja Matriz até ao largo junto à Câmara. A imagem da nossa Senhora da Estrela vinha em procissão e os grupos cantavam para ela. Era um pouco diferente.

Ainda há outra tradição sobre Nossa Senhora da Estrela que tem que ver com os pescadores de Rabo de Peixe. Pode explicar?

Antigamente havia grupos de pescadores que andavam pelas ruas a cantar – isto há muito tempo, nos anos 40 ou 50. Outros vinham, também pescadores, ver qual o tempo que iam ter durante o ano. É engraçado que há teorias que dizem que esses cantares têm que ver com a previsão da meteorologia. Antigamente não havia estes radares… ao longo do ano, as pessoas tinham várias maneiras de tentar prever que tempo seria mais adequado para as atividades agrícolas ou piscatórias.

Há uma tradição muito forte para se prever a meteorologia durante o ano: desde as festas de Santa Luzia [13 de dezembro] até ao final do ano, vê-se como estão os dias. Se de manhã está a chover e à tarde faz sol, significa que metade do mês de janeiro vai ser mau tempo e a outra metade vai ser chuvosa; se o dia a seguir for ensolarado, quer dizer que o mês de fevereiro vai ser muito bom, e por aí fora.

Muitas vezes a sabedoria popular dá certo. Os pescadores iam à igreja ver como estava o tempo. Se [o vento] estivesse do Nordeste para cá, era bom tempo. Iam ter boas fainas. Havia esta tradição de vir aqui exatamente para se tentar prever o ano. São reminiscências daquilo que os pagãos faziam. Aproveitavam a saída daquele dia, de 1 para 2 de fevereiro, para louvar Nossa Senhora. Aproveitaram os rituais antigos para os cristianizar e adotar como seus.

Como é que vê esta tradição que retomou com o seu executivo, mas um pouco mais de fora?

É com muito gosto e alegria que vejo esta preocupação em retomar uma tradição antiga que estava no esquecimento dos micaelenses. Estava com algum receio porque havia muitas vozes contra esta festa, mas é sempre assim. Quando o poder político faz alguma coisa, há sempre gente a favor e gente contra.

Felizmente esta festa resistiu e foi adotada por todos. Fiquei muito contente porque os que a contestavam também a adotaram e continuaram. Isso para mim foi um sinal de que há coisas que estão no sangue do povo que não é fácil tirar.

Esta é uma festa que ainda estava no subconsciente das pessoas. Quando fizemos a primeira edição, muita gente chorou e lembrou-se de como se fazia antigamente. Há tradições que estão entranhadas nas pessoas e é difícil retirar.

Manter esta festa é uma forma de preservar as nossas tradições. A nossa cultura não pode ser vista só com aquilo que se faz em termos de literatura… a cultura é mais. Tem que ver com aquilo que o povo faz e o todo é que faz a identidade deste povo. A cultura de um povo não está completa se não tiver as vertentes populares e esta é uma vertente popular que contribui para enriquecer a identidade do nosso povo, que tem características próprias tão diferentes daquilo que se faz no Continente ou em outros países.

Foi bom que se desse continuidade a isto porque se o povo não gostasse e não se identificasse com esta festa, certamente não teria chegado até aos dias de hoje. Felizmente há sempre uma grande adesão. Há muitas crianças que aparecem e de ano para ano há sempre gente nova a participar. A música é indispensável na vida da pessoa e estes convívios também são fundamentais para o povo que trabalha no dia-a-dia e precisa de momentos para se alegrar e conviver.

Nos primeiros anos o que fizemos foi pedir ao coro da Academia de Música aqui da Ribeira Grande, dirigido pela professora Imaculada Gaudêncio, para cantarem em frente à Câmara Municipal, para se entreter as pessoas enquanto os grupos não chegassem.

Houve a preocupação para que fosse uma festa completa em que todos se sentissem envolvidos. Isso alegra-me porque o esforço que fizemos inicialmente, preparando toda a festa em menos de um mês (desde que fomos empossados) recompensou. No primeiro ano vieram 12 grupos. Agora há vezes em que chega a 40.

Esta festa expandiu-se de tal forma que hoje em dia faz-se na Lagoa, Ginetes, Vila Franca do Campo, Ponta Delgada… é interessente que na Candelária também havia esses cantares. Até no Pico também há o Cantar às Estrelas, em que os grupos vão cantar à imagem dentro da igreja.

Toda a gente já canta às Estrelas, e este ano vamos voltar a assistir a uma grande adesão nesta festa.

A Ribeira Grande vai continuar a ser “A Cidade das Estrelas” [livro lançado por António Pedro Costa na comemoração dos 25 anos do Cantar às Estrelas, em janeiro de 2019]?

Eu lancei um livro com esse título… aqui [o Cantar às Estrelas] tem um esplendor diferente. A adesão popular é deveras envolvente e abrangente e aqui é que é a capital da festa das Estrelas.

Faz-se noutros sítios, vai muita gente ver, mas não tem o esplendor e brilhantismo do que se faz aqui na Ribeira Grande. Até porque desde o início que grupos de outros conselhos quiseram marcar presença aqui. É sinónimo de que o foco das Estrelas é aqui. Vai continuar a ser o foco durante muitos anos e espero que para sempre porque faz parte de uma marca da Ribeira Grande. Embora se realize noutros sítios, as Estrelas estão associadas à Ribeira Grande. Quando se fala em Cantar às Estrelas, fala-se em Ribeira Grande.

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