O Audiência quis conhecer a mãe de Francisco Raposo, galardoado com o “Troféu Geração de Hoje” na 13.ª Gala Audiência.

Maria de Lourdes Soares é uma mulher ativa, dinâmica, sempre disposta a apoiar a comunidade em que está inserida. Agora reformada, faz voluntariado na Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres, nas Casas de Saúde em Ponta Delgada e na Clínica do Bom Jesus. É associada da ANDAR (Associação Nacional dos Doentes com Artrite Reumatóide), com quem colabora na organização de eventos.

Já plantou uma árvore, já escreveu um livro (intitulado “Aqueles Escritos de Baú”) e também já teve um filho. Para além disso, já fez quatro exposições individuais de pintura em Ponta Delgada, Terceira e Lisboa. O seu lema de vida é “ajudar o outro”.

Caracteriza-se como uma cidadã culta quanto baste, atualizada, matura, comunicadora, autêntica, com uma personalidade forte, verdadeira e diz não gostar de injustiças. Num futuro muito próxima, quer candidatar-se à universidade, no curso de Serviço Social.

 

 

Quem é a Maria de Lourdes, a mãe de um dos nossos galardoados na última Gala?
Ora, sou uma pessoa normal, como qualquer pessoa, sou um ser humano versátil e autodidático. Tive o privilégio de nascer no seio de uma família humilde, na Ribeirinha da Ribeira Grande, com muito orgulho. Estudei no Externato Ribeiragrandense, no Liceu Antero de Quental e entrei no mundo do trabalho aos 18 anos. Passei pela função pública e depois fiz carreira na Banca por cerca de trinta anos. Entrei numa fase de pré-reforma e reforma por incapacidade e pronto, agora estou a lidar com esse processo. Sou uma guerreira, sempre em duelo constante com a vida, ora por si, ora pela família, ora pelos amigos, ora pela comunidade, ora pelos que precisam de apoio, conforto, carinho, uma palavra, um ombro e em todos os outros aspetos possíveis de contribuir para quem necessita… Diz a sabedoria popular que o ser humano só tem vida completa quando “plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro” a célebre frase ou provérbio não deixa de ser interessante. Ademais que plantar árvores já o fiz, escrever um livro já escrevi “Aqueles Escritos de Baú” (não foi bem um facto inesperado para mim, não foi uma grande obra, mas foi um legado para ficar como herança e memória futura, mas para uma caloira na escrita teve um bom alcance, surpreendi algumas pessoas e consegui despertar valores que se perderam), agora, ter um filho foi a mais feliz conquista. É uma experiência que não tem peso, nem medida, nem cor, nem sabor, é um todo. E o Francisco é a minha razão de viver, não há palavras que se consiga explicar porque serei sempre suspeita a falar dele por ser a mãe.

 

A Maria de Lourdes é mão do Francisco Raposo, que foi galardoado este ano na Gala do Audiência na Ribeira Grande. O Francisco também é especial porque dá aos outros aquilo que pode, além de enfermeiro faz ações de ajuda humanitária. Acha que ele retirou isso do exemplo que tem em casa?
Não vou dizer que não. O Francisco tem genes da mãe e genes do pai… No fundo, e ele próprio reconhece, que muito disto foi recebendo ao longo da vida. Foi-me acompanhando… por ser filho único também me acompanhou e eu também fui sempre para onde ele estava e ele percebia o que fazíamos à volta. Íamos para o Clube Naval porque ele fazia vela… fazia as coisas de miúdo, o basquete, o judo… tudo isto foi acabando, mas por onde passámos, deixámos sempre rasto. Ele de bem pequenino foi apreciando, se calhar, o que a mãe ia fazendo com os outros. Mas também está no perfil dele, e no fundo é aquele coração de ouro e coração mole. O que ele pode fazer, faz pelo outro.

 

Como é ser mãe, e como é ser mãe do Francisco?
Ser mãe implica sê-lo por inteiro e não a “part-time”, é para o resto da vida. Fui, sou, serei, até o Divino me permitir, uma mãe, uma amiga e uma companhia presente na vida do meu filho. A vida não é um mar de rosas nem um filme colorido que se assiste em plateia. O acompanhamento, a educação, o berço que lhe dei foi o melhor possível e aquele que uma mulher lutadora pode fazer para colher frutos no futuro. Toda a literatura é insuficiente para educar um filho e o que se dá é, e por vinte e quatro horas, muito amor, entrega, carinho, atenção, presença, conselhos, companhia, ajuda na construção da personalidade, mas também dei-lhe asas para voar. Seria egoísmo da minha parte se dissesse que o não queria perto de mim. Eu sinto-me uma mãe realizada porque o meu filho Francisco é um enfermeiro feliz na caminhada que elegeu. Lá diz o velho ditado “santos da casa não fazem milagres” seguramente que, se o meu filho ficasse a trabalhar, por exemplo no Hospital de Ponta Delgada, nunca teria as oportunidades profissionais, extras curriculares, alguns sonhos realizados, como as missões humanitárias em África… Foi sempre uma decisão acertada, com todo o meu apoio e incentivo, ele ter envergado pela aposta “arriscada” de que não queria ficar em Portugal. O receio era porque ele tinha acabado a licenciatura em Enfermagem em julho e logo em novembro já estava a trabalhar num hospital no distrito de Cambridge, Inglaterra.

 

Como viu a ida do Francisco para fora?
Para mim, a ida do Francisco para o estrangeiro não era nada que eu já não me tivesse apercebido. Ele dizia que quando fosse para a universidade não ficaria em Portugal. E eu sempre apoiei a iniciativa, já tinha receio da situação económica de Portugal. O meu receio era pura e simplesmente “o que é que o meu filho vai fazer aqui?”. Esteve em Erasmus na Finlândia, que foi o primeiro caminho que se lhe abriu no estrangeiro. Inicialmente, antes de ir para Inglaterra queria ir para a Finlândia. Agora, num futuro próximo, vai para o Canadá. O Canadá está a recrutar jovens enfermeiros, médicos, arquitetos, engenheiros… e portanto os portugueses são os preferidos do Canadá. Ele está a apanhar este comboio para ver se é mais uma janela que se abre. E a mãe fica cá sempre a apoiar tudo o que ele faz.

 

As portas da casa dos pais nunca fecham.
Nunca. São sempre as últimas a fechar. Podem-se fechar as dos amigos, das futuras relações, mas nunca as dos pais.

 

Do que sente mais falta com a ausência dele?
Evidentemente saudades de tudo, e particularmente das caminhadas a dois em prol da saúde, bem-estar físico e psíquico.

 

Tendo em conta que já é uma mulher vivida, casou, trabalhou, já teve um filho, e também tendo em conta que há pouco falávamos do futuro, o que é que havia antigamente que hoje não há?
Se calhar havia mais poder de escolha e de mercado. Hoje em dia nota-se que os grupos financeiros tiveram um grande retrocesso. Portanto, quem não entrava na sua profissão de eleição, entrava na banca. Digo o exemplo da Banca porque foi também o que me surgiu na altura. Quem tinha um curso superior safava-se, quem não tinha, era bancário. Os bancários foram sempre uma eleição de profissão que qualquer um queria. Hoje em dia, não. Não há recruta… por causa da evolução da informática. Houve um decréscimo dos recursos humanos. A aposta foi na informática. A informática resolve tudo, e se resolve tudo, porque é que precisamos do “front office”, ou seja, das pessoas? E daí que os jovens, com as oportunidades que possam ter, ficarão sempre limitados. Para já, hoje em dia, o que noto nos jovens é que não conseguem ser felizes se não fazem aquilo que quero. Antigamente tínhamos um outro prisma de vida. O meu sonho era ser enfermeira, mas não deixei de vingar e de ser uma boa profissional por ter querido ser enfermeira.

 

Não deixou de se sentir realizada.
Não deixei de me sentir realizada. Hoje a mulher que sou devo à caminhada que fiz. Não vou dizer que é a influência da atualidade, económica ou social… é um todo! Infelizmente a palavra é muito forte, mas custa-lhes [aos jovens] delimitar uma meta para atingir. Eu digo muitas vezes a quem me procura: façam uma linha ao mais alto de onde chega o braço. Se não chegar lá todos os dias, dificilmente chegará no futuro. Portanto, façam um esforço todos os dias na linha que traçaram como objetivo. É bem mais fácil interiormente sabermos que “eu vou alcançar aquilo”.
Não vou dizer que os jovens são incapazes de lá chegar. Eles são as pessoas mais encantadoras, são as pessoas do futuro, mas falta-lhes aquela garra e aquela pica. Já vi pessoas a tirar cursos em medicina veterinária, em assistência social e só querem aquilo e procuram aquilo. Entregar currículos só na área. Não, entrega também nas outras que vais chegar à tua. É esse o conselho que dou aos filhos dos meus colegas e amigos… é precisamente por isso. O nosso objetivo de vida tem de ser um alcance maior… se assim for, nós não vamos lá chegar ou chegaremos mais tarde.
O que penso que ainda falta aos jovens é um “atira-te”. Não te atires ao precipício, mas atira-te ao futuro. Há que haver mais atitude, mais afinco. A maturidade dos jovens hoje em dia, vem muito mais tarde que a minha. Tenho 57 anos, mas a minha maturidade começou aos 12 anos, quando fui obrigada a ser uma adulta e era uma adolescente. Isto porque vivia no Nordeste e lá não havia o ensino secundário. Fiz o ciclo preparatório, até ao sexto ano, e tive de ir para a Ribeira Grande. O meu pai não queria que fosse enfermeira e tinha de agarrar outra coisa. Os meus avós viviam na Ribeirinha e fui para lá estudar. Hoje em dia um jovem, para sair da asa da mãe e do pai não sai aos 12 anos, sai aos 18 ou 19 para ir para a universidade. Fui adulta à pressa e era uma adolescente… e fiz-me! Não vou dizer que o mérito foi só meu. Tive avós que me apoiaram, mas não queria prejudicá-los em função de me terem consigo. Fui sempre independente e até os ajudava. Por isso digo que falta maturidade no devido tempo. Quando o Francisco saiu de casa ia fazer 25 anos. A maturidade dele também foi tardia. Mas eu preparei-o involuntária e inconscientemente para voar: presença, sensação de ser mão útil em todos os momentos, acompanhando-o, mas de uma forma saudável para que ele conseguisse assimilar tudo o que lhe está a dar agora energia. Não é por acaso que o Francisco todos os dias fala comigo no Skype quando já está na cama para dormir. Ele nunca disse isso, mas aquilo é uma falta de carinho… a mãe está distante. Aquilo se calhar é o rebuçado ou o beijinho da mãe para ir dormir. Ainda hoje em dia sinto a falta da minha mãe presente, ela vive do Nordeste. Tenho 57 anos mas também sinto.

 

Qual foi a sua reação ao “Troféu Geração de Hoje” atribuído ao seu filho?
Manifestamente eu era a mulher mais feliz deste mundo que estava naquele salão [Teatro Ribeiragrandense]. Um desassossego miudinho inundava-me, os olhos queriam sair das órbitas, uma adrenalina constante no acolhimento aos convidados, borboletas no estômago e um sorriso de orelha a orelha. Independentemente deste sentimento de orgulho infinito, porque o meu filho é um jovem com um coração de oiro, é um profissional a cem por cento, um enfermeiro por vocação, teve sempre uma segunda casa que foi a Escola Superior de Enfermagem de Ponta Delgada com excelentes docentes que permanecem na vida dele com uma amizade saudável e duradoira. Este troféu é um estímulo para todos os jovens enfermeiros acreditarem num futuro mais risonho. Honras sejam feitas para todo o sempre, ao Audiência pelo trabalho desenvolvido na comunicação, por meritórias causas humanas e pela tónica defendida nas suas galas: conferir títulos a pessoas “desconhecidas” ainda com idade para saborearem para o resto da vida e não a “título póstumo” como fazem alguns organismos.

 

 

Vamos falar sobre a sua atividade atual. A Maria de Lourdes é voluntária em vários sítios. Onde e o que é que faz?
Neste momento, e porque estou limitada no tempo, digamos, de bem-estar para poder dar aos outros, faço o menos. Mas todos os dias estou nesta zona (Campo de São Francisco), estou no Santuário, na Irmandade, dou apoio aos peregrinos, estou na portaria, auxilio as irmãs religiosas que estão no Santuário… auxilio os irmãos da Irmandade, que fazem um belíssimo trabalho (entrega de alimentos a famílias carenciada) e temporariamente é precioso fazer recolha de alimentos, distribuição, selecionar as famílias pelas paróquias… portanto, isso é um trabalho de retaguarda e é preciso ter sempre alguém disponível. E, sempre que alguém precise de um conforto, de um carinho, de um ombro amigo… aqui estou eu. Já percebeu que gosto de falar e acolher é o meu “ponto alto”. Prefiro estar a acolher as pessoas e esquecer que eu existo.

 

Há aqui uma componente de solidariedade, mas também de religião.
Sim, sou sem dúvida uma mulher que acredita no Divino, e nesta fase da vida estou a precisar muito mais da minha espiritualidade para poder dar mais aos outros. Hoje em dia com a vida tão ativa que nós temos, há que ter um ponto de encontro com o Divino para que possamos também relaxar interiormente.

 

A Maria de Lourdes transmite boa energia. De onde é que ela vem?
Olhe, não sei. A sério. Como qualquer pessoa tenho ‘n’ coisas da minha vida… quem é que não as tem? Mas eu tento encará-las… sou uma mulher de fé e por isso, se a fé para mim fosse um obstáculo, eu nunca, de forma alguma, se calhar tinha a coragem para enfrentar o mundo e todas as adversidades que às vezes me passam pelas mãos.

 

Qual é que é o sentimento de quem chega a casa depois de um dia de trabalho, e vê que ajudou ‘x’ pessoas?
Acredite que nunca penso nisso. Fico é satisfeita, suspiro bem fundo e digo ‘uau, mais uma feliz’. Não é regozijo para mim, não é uma satisfação ou. Nunca faço nada por obrigação. É instintivo. Vem como se eu estivesse na área o resto da vida ou desde miúda. Para além de ser uma pessoa carente, também sou de muita entrega. Quando me entrego, entrego.