Desenha-se neste momento em Gaia, na Tuna Musical de Santa Marinha, um Festival de Teatro profissional com uma forte componente formativa, que tem como principais destinatários os membros da comunidade teatral gaiense (amadores e profissionais) e todos os amantes das artes de palco que se disponham a adquirir novas competências e conhecimentos, como fazedores de teatro ou como espectadores mais dedicados.

Esta importante vertente do certame resulta de uma parceria institucional com a Escola Superior Artística do Porto, que assegura a participação de alguns dos seus docentes na realização de um conjunto de workshops sobre diversas disciplinas do “fazer teatral”, como dramaturgia, interpretação, cenografia, voz e elocução, encenação, estética e movimento de técnica meyerhold (aprofundamento da relação entre o movimento dos atores e a forma ou a dimensão do espaço cénico que lhes é reservado).

A programação do certame, que recebe o nome do poeta, autor teatral e encenador José Guimarães, será formalmente apresentada na noite de 15 de setembro, dia em que se comemora o 94º. aniversário daquela popular coletividade de Santa Marinha, com sede no Centro Histórico de Gaia, durante a inauguração de uma exposição biográfica que nos conduz numa viagem física e sensorial pelo universo criativo do seu patrono, através de inúmeros manuscritos de poemas e canções, textos de teatro, esboços de figurinos, croquis de cenários, medalhas e troféus, recortes de jornais e revistas, fotografias e discos, etc…, que recordam a diversidade da sua produção artística, da poesia ao teatro, da música ao desenho, da prosa às canções ¬– um percurso temporal retirado do enorme espólio deixado pelo autor, numa síntese experiencial que aborda a sua muito peculiar forma de construção intelectual e artística.

A realização de uma mostra de teatro produzido por companhias profissionais num concelho extraordinariamente rico nos domínios da criação teatral de caráter amador, a que se junta um espetáculo de alunos finalistas de licenciatura em teatro de uma escola superior artística, da qual alguns docentes se disponibilizam para contribuir em regime de voluntariado para o aumento e consolidação de um discurso informado sobre as mais diversas metodologias da prática teatral junto de artistas e públicos locais durante o evento, representa à partida uma ideia desde logo meritória. Mas ao dar a este evento o nome de um homem nascido para as artes performativas nas coletividades de cultura e recreio, que ajudou a descobrir nesses palcos amadores grandes talentos para as mais diversas formas de expressão artística, onde também ele próprio escreveu, encenou e produziu inúmeras peças de teatro de reconhecido valor, que o levariam depois aos palcos profissionais, a iniciativa ganha contornos de homenagem justíssima.

A primeira vez que o autor destas linhas tomou contacto com o nome desta importante figura do nosso teatro musicado e da música ligeira portuguesa, nascido no Porto mas gaiense por adoção, foi num importante fórum sobre o declínio da revista à portuguesa, ocorrido em 1983 na cidade de Lisboa. Em determinado momento da discussão, quando se estabeleceu o consenso de que o definhamento daquele género teatral, tão popular até ali, se devia à não renovação das parcerias autorais e ao facto dos seus textos se apresentarem velhos e demasiado engajados do ponto de vista político, alguém perguntou: «mas onde estão os novos autores, quem sabe onde os encontrar?». Foi então que um popular ator, com experiência na produção de textos para revista, afirmou: «Olha, vai ao Porto. Tens lá um grande potencial. Chama-se José Guimarães».

Nessa altura ele já não era muito novo, embora tivesse uma cabeça bem jovem, tão ou mais jovem do que todos os jovens com quem emparceirou, mais uma vez, no ano de 2005, nos corpos sociais da “sua” Tuna Musical de Santa Marinha, quando o autor desta crónica finalmente o conheceu pessoalmente. Até aqui soubera muitíssimo pouco deste homem-poeta-artista que, para além de ter assinado uma impressionante quantidade de excelentes números de revista, deixou o seu nome ligado a cerca de três mil (!!!) canções, como autor da letra e também como compositor musical. Ele, imaginem!, que não sabia sequer uma nota de música e que chegou a ser diretor musical do Conjunto Maria Albertina, muito popular nos anos 1960/70, que conquistou diversos discos de ouro, um dos quais graças ao tema “O Emigrante” de… José Guimarães.

Para além dos inúmeros fados, canções e marchas populares, que ainda hoje fazem sucesso, José Guimarães reuniu um espólio considerável de textos para teatro de revista, alguns dos quais escritos para peças de grupos amadores, como, por exemplo, “Alma das Romarias”, “O Porto em Festa”, “Enfia o Barrete”, “Aqui vai São Gonçalo” ou “Balões da Minha Rua”, espetáculos que os atores que os interpretaram e o público que os viu ainda guardam na memória.

Memoráveis são também alguns dos números que escreveu para as muitas revistas em que colaborou no teatro profissional, nomeadamente para “Com Eles no Sítio” (que na capital subiu a cena com o título “Alô Lisboa, Daqui Porto”) ou “Catraias e Vinho Verde” (que se apresentou no Parque Mayer, em Lisboa, como “Aguenta-te à Bronca”). É de aplaudir, pois, que o primeiro Festival de Teatro profissional em gestação em Gaia ostente o nome de José Guimarães.

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