A baía de Narragansett é uma reentrância marinha com uma área rondando 380 km², e engloba dentro de si outras baías e um pequeno arquipélago com várias ilhas e ilhéus. A ilha maior, que serve de principal quebra-mar, está situada a sul, precisamente na boca da baía. Chama-se Aquidneck. Tem três localidades e honra-se de ser o assento da primeira colónia de férias dos Estados Unidos, a famosa e histórica cidade de Newport, no estado de Rhode Island.

A fama da cidade é tanta que se esquece as outras duas localidades da ilha que muito contribuem para a economia do estado. Por exemplo, Newport tem as suas bonitas e únicas praias privadas e semi-privadas. São de Newport. Duas e meia das três maiores praias oceânicas (viradas para o mar aberto) da ilha pertecem a Middletown, mas são conhecidas por “Newport Beaches”. Popularmente são denominadas por ordem numérica. Ao sair da cidade e à medida que dela nos vamos afastando: First Beach, Second Beach e Third Beach. Todas três na famosa lista das praias de Newport.

     A nossa preferida é a Second Beach, que tem por nome próprio Sachuest. De quando em vez se faz uma asneira e, em dezembro ou janeiro lá se toma uma banhoca. O ambiente que a envolve é todo natural e não há casas construídas nas proximidades. O seu extremo oriental está reservado a refúgio selvagem, para aves e outros animais. O centro é para o banhista que gosta de sol e ondas. O seu extremo ocidental para amantes do surf. Todos os dias lá estão eles, a qualquer hora, esteja o frio que estiver, ou faça o calor que fizer.

     A primeira vez que em plena quadra natalícia por lá passámos, em dezembro de 2010, achámos graça a uma árvore de natal plantada na areia da zona surfista. Decorada com conchas e algas marinhas, naquele lugar, tem algo de original e merece uma fotografia. Por curiosidade, no natal seguinte passámos lá novamente. Mais uma árvore, decorada com conchas, estrelas-do-mar, musgo e outras algas. Tanto que, passou a tradição a romaria ao Second Beach, pelo natal. Como nas escolas e em alguns locais de trabalho se enfeita árvores ou se monta presépios, pensámos que aquela árvore era dos surfistas. Perguntámos. Não, não têm nada a ver com a plantação nem com a decoração. Disseram-nos, então, que a árvore é de toda a gente. Aparece ali, todos os anos e não se sabe quem a planta na areia. Todas as pessoas que passam por ali podem decorá-la com os seus próprios enfeites, ou com produtos do mar. Felizmente tem reinado o bom-senso, fazendo sobreviver com liberdade o bom-gosto. Toda a gente que por ali passa decora-a à sua maneira, na maioria das vezes alterando a decoração que já tem, mas só usando produtos do mar ou algo que deu à costa.

     Misteriosamente a árvore de natal aparece na praia todos os anos na semana seguinte àquela do Thanksgiving (ou dia de ação de graças), e desaparece do areal durante os primeiros sete dias de Janeiro. Uma árvore daquele porte custará no mínimo $60.00 (sessenta dólares). Ali é colocada verde e viçosa. Tem variado entre os três e meio e os quatro metros de altura, com pelo menos um de tronco enterrado na areia, para resistir às tempestades e permanecer de pé. Por incrível que pareça, para alguns, a árvore de natal da Second Beach já faz parte do roteiro turístico de natal da cidade de Newport. É uma tradição que agora completa uma década ou pouco mais. Não é electrificada porque fica longe da rede de distribuição. Já atraiu a atenção da comunicação social, mas até agora ninguém desvendou o mistério da plantação. O homem, ou a mulher responsável pela colocação da árvore no areal continua sendo uma figura fantasma, e assim se quer manter enquanto vida tiver. O certo é que a árvore proporciona um momento de felicidade a quem visita o local, e pode transformar um dia chato em tempo encantador, porque o meio envolvente para isso mesmo contribui. A atenção e o carinho dedicados à árvore de Natal da praia Sachuest é invejável. O mesmo não aconteceria se em seu lugar estivesse um presépio. Possivelvente a cena da natividade de Cristo seria vandalizada. Já basta ser a sua exibição proibida em alguns espaços públicos, por causa dos exageros da liberdade. Voltando à árvore, sendo ela avistada da caminho sobranceiro, obriga a uma paragem, para um “selfie”. Os surfistas Lhe fazem uma vénia ao entrar e ao sair da água. E o Ti José, com os seus oitenta e tal na pele, ao ver a rapaziada dançando nas ondas não diz nada, mas pensa assim:

Nesta água, assim, tão fria,

Onde tudo se arrefece,

A bolsa se arrepia

E a pomba desaparece.

     Com estas palavras prometo voltar brevemente, saudando toda a família do jornal Audiência, leitores e anunciantes, desejando um feliz natal e fazendo votos para que o ano de 2020 vos seja muito próspero. Haja saúde!

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