A última reunião do ECOFIN, instituição que engloba os ministros das finanças dos países da União Europeia, foi caracterizada especialmente pelas palavras proferidas pelo ministro alemão, Wolfgang Schäuble, que sempre tem dirigido duras críticas ao actual governo português, relacionadas com a sua prestação na área financeira.

Pois, desta vez e surpreendentemente, teceu os maiores elogios ao ministro das finanças, Mário Centeno, chegando ao ponto de o classificar como o Ronaldo do ECOFIN, louvor que, embora imbuído de terminologia futebolística, constituiu uma mudança qualitativa nas apreciações até ao momento verificadas e também uma inequívoca prova de que a austeridade, imposta aos portugueses pela troika e ainda agravada pela actuação do governo de direita, PSD/CDS, só trouxe miséria, exclusão e ruptura no nosso desenvolvimento económico.

Convém recordar que, ainda há pouco tempo atrás, Schäuble proclamava, alto e bom som, que Portugal estava a ter sucesso até à chegada da nova formulação governamental, envolvendo PS, PCP, PEV e BE, situação nova que ameaçaria originar novo resgate se não houvesse cumprimento das regras impostas, o que inflacionaria os juros da dívida soberana e iria piorar a nossa situação como devedor.

É bem verdade que qualquer um pode errar, por muito bom técnico que seja, mas errar continuamente e ao mesmo tempo ameaçar valendo-se do lugar ocupado no contexto da União Europeia, já indicia outro tipo de mentalidade a que nem todos estão dispostos a obedecer cegamente e até porque surge, entretanto, a proposta para a saída de Portugal do PDE, Procedimento por Défice Excessivo, como resultado da mudança de política governamental e contrariando assim as más-línguas.

No entanto, não parece ser este o entendimento da direita nacional que, parecendo não ter percebido ainda que as suas medidas de austeridade não constituíam o antídoto adequado para a saída da crise, continua, já ridiculamente, a tentar convencer-nos do contrário, tendo em conta as afirmações de Maria Luís Albuquerque, antiga ministra das finanças e também ela considerada como reputada técnica, mas na peugada de Schäuble a errar continuamente nas suas apreciações e acções contrárias à realidade dos factos e, procurando iludir os portugueses, afirmar agora do alto da cátedra que foi a sua prestação a causadora dos sucessos encontrados pelo actual governo, quando pouco tempo antes afirmava à boca cheia que a reversão das suas medidas governativas era um passo a mais para nos levar ao abismo.

Esta inconcebível atitude é seguida e agravada por Passos Coelho, dada a sua responsabilidade como presidente do partido e líder da oposição, ao afirmar vezes sem conta e sem pudor que «a nós e à nossa governação se deve o êxito alcançado pelo governo da geringonça», designação sobranceiramente utilizada para desprestigiar a solução encontrada para governar o País, mas que acabaria por fazer sair, à direita retrógrada, inconsciente e incompetente, o tiro pela culatra.

Esta teimosia em considerarem os portugueses como amnésicos e mentecaptos, depois de quererem «ir ainda além da troika» e depois de, com essa ideia e a política económico financeira que seguiram, desastrosa para a população e o País, virem afirmar ou reafirmar agora arrogantemente que são seus os méritos da recuperação económica, ou é má fé ou desespero de causa para não lhe chamar loucura.

Juntando-se, em bicos de pés, a este coro de auto elogio insensato, aparece-nos Assunção Cristas reivindicando a sua quota-parte pela saída do PDE, Procedimento por Défice Excessivo, chegando mesmo a recomendar este acontecimento como uma oportunidade para diminuir dívida, melhorar serviços públicos e aumentar o emprego, olha quem fala, pois a sua ajuda à actuação governativa anterior caracterizou-se por seguir exactamente o contrário daquilo que agora afirma.

Com os pés na terra, aquilo que os portugueses constatam e Bruxelas já reconheceu, é que foi com as medidas da troika e a governação anterior que as desigualdades sociais se acentuaram no nosso País e cumulativamente também não nos esquecemos de que os sacrifícios impostos à esmagadora maioria resultaram em benefício para alguns, sendo esta, de facto, a tal herança deixada pela direita no poder.

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