No auditório da Tuna Musical de Santa Marinha está em ensaios, com ante estreia agendada para 23 (20h30) e 24 (10h30) de abril, o espetáculo “Aquele Inverno”, que retrata um país pobre, na sua generalidade analfabeto, triste, subdesenvolvido, sem perspetivas de futuro e privado das suas liberdades, onde a cultura do silêncio e do medo imperava. Para muitos a única saída era a emigração, na sua maioria clandestina. Mas muito mais que emigração, era a fuga à ditadura, uma ditadura que aniquilava quem tinha pensamento, ideia e visão diferente do regime! E, claro, o anseio de atingir aquilo que não se tinha: Liberdade!

Era dramática a situação que se vivia nesse país, onde muitas crianças iam para a escola descalças, independentemente do frio ou do calor, e depois eram forçadas a trabalhar para ajudar na sobrevivência das suas famílias; os liceus e as universidades eram apenas um privilégio dos filhos das classes economicamente abastadas, restando aos mais pobres pegar cedo na enxada e amanhar a terra ou enfrentar a vida nas fábricas, nas minas ou na construção civil; a segurança social era incipiente e os sindicatos eram controlados pelo regime, os trabalhadores não tinham direitos e as jornadas de trabalho eram por vezes de sol a sol; os direitos das mulheres eram quase inexistentes, e ai daquelas que erguessem a voz no sentido de lutar pela sua independência, pela sua inserção no mercado do trabalho ou por uma maior valorização pessoal. Mas eis que num Inverno já distante o país acordou com uma guerra.

Em fevereiro de 1961, em Angola, dá-se o início de um pesadelo que transformaria ainda para pior o nosso Portugal de então, com o massacre de 800 pessoas por parte de independentistas africanos. Quase um mês depois, o país acordava com Salazar a responder com veemência. “Para Angola rapidamente e em força!!”, ordenou o ditador aos microfones da RTP e da Emissora Nacional. E eis o resultado: Cerca de 9.000 mortos, 30.000 feridos evacuados e mais de 100.000 doentes, 14.000 deficientes e cerca de 140.000 com stresse pós-traumático! Rara foi a família não atingida pela guerra nas antigas colónias portuguesas em África. Telegramas ou aerogramas do Ministro do Exército, com “as mais sentidas condolências pela morte de seu ente querido, soldado fulano de tal…”, chegavam inesperadamente aos nossos lares, semeando a dor de perda de filhos, maridos, pais, irmãos.

“Aquele Inverno” é uma história ficcionada, de uma família desse tempo. Um pai autoritário, fanaticamente orgulhoso de seu país e sua ditadura, racista e preconceituoso, que coloca a pátria à frente da vida da sua própria família; de uma mãe destroçada por tudo o que de mau está a acontecer e que perde o seu filho para a guerra; de um filho jovem com um futuro em aberto que luta pela liberdade e que se vê obrigado a combater na guerra de África deixando a sua mulher amada com um filho no ventre… Uma história ficcionada, inspirada na realidade, com um final triste que ainda hoje deixa marcas em todos nós e naqueles que sobreviveram à guerra e à ditadura e que se deseja que nunca volte a acontecer.

E hoje, essa tal liberdade conquistada com a Revolução de Abril, será uma realidade ou somente ficção? – essa é uma das questões que os espectadores levarão para casa, em busca de respostas que nos transportem para um país que nos prometeram, justo e livre!…

A encenação do espetáculo é de Filipe Santos, também autor do texto, a que junta inúmeros poetas e compositores lusos, como Pedro Homem de Mello, José Afonso, José Guimarães, José Carlos de Vasconcelos, Luísa Odete Froufe, César Oliveira, Maria Teresa Horta, Armor Pires Mota, Alberto Martins Rodrigues, António Veríssimo, Ivone Chinita, Aguinaldo Fonseca, Paulo Quintela, Glória de Sant’Anna, Sidónio Muralha, Eduardo Roseira, Manuel Alegre, Sá Flores, Lourdes dos Anjos, Rui Mingas (entre muitos outros).

A produção tem assinatura da Tuna Musical de Santa Marinha, em parceria com a Troupe Palavras Vivas, a direção musical é da responsabilidade de Filipe Rodrigues e a interpretação está a cargo de um grupo de jovens atores e atrizes, bailarinos e bailarinas do corpo cénico daquela popular coletividade e pelos membros da Troupe Palavras Vivas.

Recorde-se que o espetáculo tem duas únicas representações a 23 e 24 de abril, pelo que se aconselha aos interessados a reserva dos ingressos com a maior antecedência possível, devido à reduzida lotação do espaço, determinada por razões sanitárias relativas à Covid-19.

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