O conto que hoje publicamos traz-nos à memória as tradicionais Festas de São Pedro da Afurada, que este ano foram canceladas por força do confinamento da pandemia da Covid-19. A sua autora, a nossa confrade Ma(r)ta Hari, é uma adepta incondicional daquelas festividades e talvez por isso tenha decidido escolhê-las como pano de fundo para mais uma das suas incursões pela escrita policiária. Os protagonistas são dois jovens amigos pouco ou nada dados ao trabalho, que sempre viveram os seus dias de expedientes vários, tendo por principal preferência o recurso ao furto e roubo dos bens alheios. Mas nem sempre as coisas lhes correm bem, como podem ver…

 

CONCURSO “UM CASO POLICIAL EM GAIA”       

Conto nº. 4    

“Necas e Lecas”, de Ma(r)ta Hari

Necas e Lecas são dois dos mais temidos jovens sem eira nem beira que todos os dias andam à cata de dinheiro fácil, saído por artes pouco dignas dos bolsos dos turistas que pululam diariamente pelos lugares mais concorridos da zona histórica da cidade de Gaia. Aos poucos, porém, foram sendo desmascarados nas imediações das caves de vinho do Porto, onde habitualmente exerciam a sua arte, optando agora por outros palcos, mem por isso menos procurados pelos forasteiros. As entradas para os barcos rabelos que navegam por entre as seis pontos do rio Douro têm sido alguns desses pontos de ação, que têm proporcionados pecúlios razoáveis, sobretudo nos fins de semana e épocas festivas. Nos restantes dias, quando não gozam as suas folgas, rumam a outras paragens que os turistas são aconselhados a visitar.

Afurada tem sido um desses pontos. Sobretudo nos finais de junho, em que as festas de São Pedro animam aquele lugar piscatório de gente humilde e de bem. A partir das nove da noite, quando os foliões acorrem ao recinto dos espetáculos, Necas e Lecas acomodam-se por entre a multidão em busca de gente mais distraída e aparentemente abastada. Mal descobrem uma potencial vítima, com o perfil adequado, ou seja, uma pessoa não conhecida, com ar de forasteiro, estrangeiro ou não, possuidor de valores à vista, lá estão eles de prontidão para o golpe. E raramente falham. Uma carteira de homem, recheada de dinheiro e de cartões de crédito, salta quase por artes mágicas do bolso traseiro das calças do seu proprietário para as mãos de um deles, sem que ninguém se aperceba, pondo-se logo em fuga de mansinho.

E quando não é uma carteira que voa milagrosamente dos bolsos de um incauto cavalheiro abonado para a posse de um dos jovens larápios, é um objeto de valor subtraído da mala de uma bem posta senhora que muda de dono. Eles são exímios a atuar e fazem-no muitas vezes aos olhos de cidadãos seus conhecidos, mais despertos mas cobardes, que ficam calados por temor da reação agressiva dos dois jovens. Não há, na verdade, quem os conheça que não os tema, salvo muito raríssimas exceções. E as pessoas que constituem essas raras exceções eles conhecem muito bem e não ousam confrontar. Tiveram, aliás, algumas pequenas contrariedades tempos atrás, porque se atreveram a fazer frente a algumas vozes mais grossas saídas de bocas de gente ágil, destemida e musculada, que lhes serviu de emenda para sempre.

Necas e Lecas ainda hoje sentem as dores sofridas numa dessas contendas com cidadãos mais arrojados, testemunhas involuntárias de roubos, que levantaram a sua voz contra o crime e responderam a soco à forte reação dos seus “infelizes” autores. Dessa vez, o resultado foram três dias sem saírem de casa por mal se poderem mexer por via dos traumatismos e para não evidenciarem as nódoas negras que seus olhos, nariz e lábios espelhavam. Agora põem todo o cuidado na ação, não vá o diabo tecê-las e sofrerem os mesmos amargos de então. Não só escolhem muito bem as suas vítimas, como saem logo de fininho se alguém topa o esquema e levanta a sua voz contra o crime, mesmo que seja de mansinho. Toda a precaução é pouca e, lá diz o ditado, gato escaldado de água fria tem medo.

Mas apesar de todos os cuidados, chegou o dia em que o feitiço se virou contra o feiticeiro. E tudo aconteceu nas festas de São Pedro da Afurada, no recinto dos espetáculos. Os dois jovens ladrões toparam um sujeito bem posto, com ar estrangeirado, que nunca tinham visto nem mais gordo nem mais magro, com um valente chumaço na algibeira direita das suas calças de linho de cor cinza claro. Necas colocou-se sorrateiramente do lado direito do indivíduo, não sem antes olhar cuidadosamente em volta. Lecas, por sua vez, depois de analisar bem a zona envolvente e de tirar a pinta à gente que se encontra próxima do alvo, dispôs-se atrás do sujeito, levemente sobre a sua direita, e esperou que Necas desse o passo seguinte. E assim que este seu cúmplice deu um encosto seco no ombro da presa, Lecas deitou a sua hábil mão esquerda no bolso do sujeito.

Em vez da ansiada carteira ou maço de notas, a mão de Lecas trouxe um perfumado lenço de cambraia que arrastou consigo uma placa metálica, que caiu no chão. Ato contínuo, a mão de Lecas foi firmemente agarrada pela mão direita do assaltado, enquanto a canhota lhe desferiu um sopapo que o deitou por terra, agarrado ao queixo e com lamúrias de menino mimado. Necas, antes que fosse sujeito ao mesmo tratamento, pegou nas perninhas e deu às de vila-Diogo, arrastando pelo caminho algumas das pobre almas que assistiam ao concerto da noite. Ainda houve um cidadão corpulento que lhe deitou a mão, mas o máximo que conseguiu foi ficar com o seu pullover na mão.

Quanto a Lecas, depois de imobilizado pela sua “projetada” vítima, foi levado até à esquadra da PSP, na Afurada. Para já, ficaria a dormir aquela noite na esquadra. Dali poderia ouvir o que restava do concerto que decorria com a atuação de um artista em voga, podendo depois ouvir o som do fogo de artifício que romperia os céus nessa noite de folia. Noite que foi de insónias e angústia para ele, que só mais tarde ficou a saber que a pessoa que tencionou roubar era, para mal dos seus pecados, um inspetor da PJ em gozo de férias de verão, que não se satisfez em lhe dar apenas uns bons sopapos que lhe servissem de lição, optando por levá-lo primeiro à prestação de contas com a justiça, para só depois procurar o seu crachá de polícia caído no chão do recinto…

 

CONVITE AO LEITOR

E pronto, caro leitor. Agora o passo seguinte é seu. Para tal, repetimos o nosso convite à sua participação na escolha dos melhores contos. O processo é simples. A partir de hoje, tem trinta (30) dias para fazer a avaliação, em função da sua qualidade e originalidade, do quarto conto do nosso concurso, da autoria de Ma(r)ta Hari, e enviar a respetiva pontuação, numa escala de 5 a 10 pontos, para o e-mail do orientador da secção (salvadorpereirasantos@hotmail.com).

 

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