Nasceu em Portugal mas cedo a França se tornou o seu país. Contudo, a língua materna falou mais alto e hoje, Isabelle Oliveira, professora titular de Ciências da Linguagem na Université de Paris-Sorbonne e presidente do Instituto do Mundo Lusófono, sediado em Paris, vive determinada a demonstrar que « a língua portuguesa tem um potencial enorme e penso que ainda não foi devidamente valorizada », não poupando esforços para a divulgar e promover por onde passa.

 

 

 

Divide o seu tempo entre Portugal e Paris. Como aconteceu isso?

Articular estes dois países foi sempre algo que fez e faz parte da minha vida. A França foi o país que me adotou, onde me formei, onde cresci e me envolvi em termos académicos e onde constitui o meu núcleo de amigos, mas Portugal esteve e está sempre no meu pensamento saudosista, como não poderia deixar de ser e onde sempre voltei como quem volta ao seu ninho: aqui estão as minhas raízes profundas, a família que é o meu grande suporte, os amigos de longa data e agora, cada vez mais pelas  reuniões e encontros de trabalho em prol do Instituto do Mundo Lusófono. Não tem sido fácil, mas a vontade de levar em frente este desafio é algo que me move como me tem sempre movido as grandes causas.

 

 

Pode-nos falar um pouco de si, onde nasceu, a sua formação e como chegou até ao cargo que ocupa atualmente?

Nasci em Barcelos e fui ainda bébé para França, país onde meus pais desenvolveram a sua atividade profissional. Todo o meu percurso escolar decorreu em França, sempre muito dedicada aos estudos, tendo sido considerada a melhor aluna da turma ao longo de toda a minha escolaridade na região da Franche-Comté. Depois, prossegui os meus estudos na Universidade Lumière Lyon2 na qual me formei e, em 2008, por concurso na Universidade da Sorbonne Nouvelle, passei ao quadro, como professora efectiva daquela Instituição. Quando podia, visitava Portugal nas férias, fazendo este parte do meu imaginário – a minha verdadeira Pátria! Cheguei também a vir estudar para Portugal, em Coimbra e Lisboa, por uns tempos e mais tarde, por essa ligação sempre presente, cheguei a ser deputada municipal em Barcelos e num lapso de tempo vereadora.

O meu longo percurso académico tem sido árduo e muito trabalhoso. Consegui muito por mérito próprio e graças a um intenso trabalho de dedicação exclusiva ao estudo e à investigação. Claro que, para isto acontecer, tive de abdicar de muitos projetos pessoais. Tenho de reconhecer que fui muito bem sucedida graças também ao grande suporte da família, em especial, aos meus pais que projetaram em mim os seus sonhos de vencedores da emigração. Penso que, às vezes, as pessoas não têm a noção do quão difícil é ser vencedor num país onde somos vistos sempre como emigrantes e ainda por cima, mulher. É preciso trabalhar muitíssimo para provar o que valemos, mas felizmente o reconhecimento surgiu e foi ainda mais gratificante  por ter sido atribuído por uma Instituição com imenso prestígio como é o caso da  Sorbonne.

Assim, vou fazer um breve relato do meu longo percurso: sou  professora titular de Ciências da Linguagem na Université de Paris-Sorbonne (Paris III), na qual tenho exercido diversas funções de grande responsabilidade desde 2010 até ao presente. Com dedicação plena ao estudo e à investigação  defendi  duas teses: uma primeira em Ciências da Linguagem, em 2005, na Université Lumière Lyon2, sob o título “Nature et fonctions de la métaphore en science: l’exemple de la cardiologie”, versando sobre a metáfora em ciência, nomeadamente no discurso médico e no Direito. Em 2014, defendi uma segunda tese, também no domínio das Ciências da Linguagem, na Université de Paris-Sorbonne (Paris III), sob o título “Discours scientifique et technique et figures de style”. Desta forma, passei a prova da HDR, o diploma de grau mais elevado das universidades francesas (Decreto nº 84-431 de 6 de Junho de 1984 – Artigo 46 º) que permite ascender ao mais alto cargo de docência no escalão francês. Este diploma foi obtido na Sorbonne Nouvelle, conhecida por ser rígida na obtenção deste tipo de habilitações. Aliás, o relatório de avaliação de HDR foi elaborado por sete eminentes Professores Catedráticos a nível nacional e internacional, os quais realçaram por unanimidade, a minha grande capacidade de trabalho, por ter conseguido apresentar um dossiê HDR tão exigente e rigoroso e liderar, em simultâneo, um Pólo tão complexo como  o L.E.A com 2500 estudantes.  Sou também Diretora de investigação (Ciências da Linguagem) na Université de Paris- Sorbonne (Paris III), na École Doctorale 268.

Tenho criado redes internacionais de cooperação académica e científica na Europa, África, Ásia e América. A par disto, tenho organizado inúmeros seminários, colóquios e congressos, entre os quais  destaco os Congressos da Língua Portuguesa, em 2013, 2017 e 2019. Sou também autora de  várias obras e mais de 50 artigos  sobre diversos domínios publicados em França, Portugal, Canadá, Brasil, Angola, Roménia, Itália, Egipto, Líbano, Dinamarca e Espanha, entre outros. De acrescentar ainda que sou ainda presidente do Instituto do Mundo Lusófono sediado em Paris, um novo desafio, mas afinal eu continuo a gostar muito de desafios.

 

 

É uma verdadeira defensora da língua portuguesa. Porquê essa paixão?

A língua de Camões tem, na verdade, um significado e importância muito grande para mim, enquanto portuguesa e descendente de pais portugueses. Há anos que tenho vindo a lutar pela sua afirmação.  Ela merece ser tratada de forma nobre pois é uma língua com um potencial incrível e, infelizmente, não tem sido devidamente valorizada. “A minha pátria é a língua portuguesa” disse o grande poeta Fernando Pessoa e é esta Pátria, a sua língua e cultura, que quero, enquanto cidadã, projetar não apenas em França mas em todo o mundo. É necessário reconquistar a língua portuguesa na sua plenitude através de um projeto global e não em medidas dispersas. Deve também ser acompanhada por um esforço internacional sólido. Tal implica uma ação ponderada e concertada, para oferecer o melhor àqueles que desejam mergulhar na nossa herança cultural, e não o fruto de experiências arriscadas, projetadas para satisfazer alguns grupos de interesses.

Sim, sou apaixonada pela causa da promoção da língua portuguesa e das culturas lusófonas no mundo talvez pela história da diáspora que me envolve e envolve a minha  família. Na verdade, tudo fica mais valorizado e sentido quando estamos fora. Daí, o alvo das minhas investigações e atividades girarem em torno de quatro eixos: o mundo lusófono em toda a sua diversidade cultural e linguística; a sua democratização; a análise efetuada nas áreas geolinguísticas na qualidade de objetos da teoria das relações internacionais; e, por fim, a educação e a cooperação universitárias no mundo lusófono.

 

 

De entre os vários artigos que já publicou na sua vida, também lançou um livro. Pode-nos falar sobre isso? 

Recentemente publiquei o livro « O Devir da Lusofonia » que foi apresentado, no dia 18 de novembro de 2019, na Associação de Futebol do Porto a convite do Senhor Presidente José Lourenço Pinto, também este local com muito significado por todos sabermos o quão importante é o futebol para os emigrantes.  O livro contou com preâmbulo do Professor Doutor Edgar Morin, amigo de longa data e meu mentor que me deu a honra de estar presente e fazer uma memorável intervenção. O prefácio foi elaborado pelo Professor Doutor José Rodrigues dos Santos que não podendo estar presente deixou uma mensagem e ainda o posfácio da autoria do Doutor José Lourenço Pinto, que fez uma excelente apresentação da obra. Tratou-se de uma narrativa em  defesa da lusofonia, o retrato  das dificuldades de uma longa  caminhada, muito difícil de vencer. Na verdade, para se vingar num mundo diferente e muito competitivo onde o facto de ser emigrante a ainda por cima mulher tudo se tornou muito difícil. Foi uma forma de homenagear a força da união de uma família que tudo fez e continua a fazer para ajudar a que a caminhada seja de sucesso.

 

 

Pensa em lançar outro livro?

Embora reconheça que precisaria de ter mais tempo, algo que me escasseia cada vez mais, no entanto, sendo uma académica e investigadora tenho sempre presente em mim o desejo e pertinência de me envolver em novos estudos, seja de artigos científicos, seja de memórias pessoais, seja de reflexões sobre temas que domino e que me suscitam sempre curiosidade. Posso dizer que sou uma mulher inquieta e isso faz-me ser permanentemente ativa e crítica, mesmo em relação a mim própria.

 

 

Como vê a língua portuguesa e como acha que lá fora, nos outros países, vêem a língua portuguesa? 

A língua portuguesa tem um potencial enorme e penso que ainda não foi devidamente valorizada como já referi.  Vai ser essa a grande missão do Instituto do Mundo Lusófono. Será necessário um projeto global muito bem organizado para se projetar esta grande janela aberta ao mundo que a Língua potencia em si. Temos de começar cá dentro a apercebermos-nos desde valor que é a Língua e a cultura Portuguesa para que os outros países venham também a reconhecê-las.

A nível do ensino, o atual desprezo pelo português – sendo que a língua de um povo é, de certa forma, o reflexo da sua alma – é manifesto no sistema de ensino francês, considerando todas as medidas que têm sido adotadas ao longo dos anos. A língua portuguesa – tão maltratada hoje em dia – corre grande risco, não apenas por conta da hegemonia da cultura anglo-americana, mas também, e pior, pela recusa da classe política, da administração, da escola e dos meios de comunicação em tirar pleno partido das potencialidades atuais da língua portuguesa, para cultivar o desejo de aprender e falar a língua de Camões e atuar em prol da proteção e salvaguarda dessa bela língua. Em França, deparamo-nos com uma língua em risco por razões orçamentais, por falta de consideração ou, ainda, por falta de afirmação e vontade política efetiva de Portugal. Então, por que razão a língua portuguesa continua em risco? Porque os falantes a utilizam cada vez menos e começam a negligenciar as suas subtilezas, recorrendo cada vez mais a uma língua rival. Há também outro fenómeno, os pais deixaram de ensinar a sua língua de origem aos seus filhos, acabando também eles por esquecê-la. Uma língua só existe através do uso recíproco dos indivíduos. É, aliás, o próprio fundamento da sociolinguística. Uma coisa é certa: há mais fatores envolvidos do que um mero afastamento da língua original, que convém analisar com uma inquietação compreensível.

Todavia, é minha profunda convicção de que o português, tal como acontece com outras línguas de comunicação, também pode ser uma língua comercial, de evolução tecnológica, da sociedade da informação ou de investigação científica e conhecer a sua época de ouro como já conheceram outras línguas internacionais. Mas, para tal, temos de acreditar nisso e, acima de tudo, ter essa pretensão e munirmo-nos de todos os instrumentos para a sua consecução. É, pois, chegado o momento de reflectirmos e trabalharmos, sem delonga, numa regulação linguística cujos interesses são, no mínimo, de igual importância aos acima referidos. Para tal, temos de falar português com orgulho e assumi-lo sem complexos. Gostaríamos que a máxima voluntária – “Sim, falamos português!” – fosse adoptada pelos funcionários internacionais, pelas elites e pelos altos responsáveis portugueses que aderem permanentemente à dialéctica anglicística. Aliás, torna-se difícil aceitar a ideia de vergar o pensamento a uma língua que se fala com relativa proficiência, se pensarmos como a tarefa já é difícil com a própria língua materna.

Com o sentido de humor que lhe era característico, Winston Churchill afirmava que “o inglês é a língua mais fácil de ser mal falada”. Ora, num contexto de negociação, de conversações ou na elaboração de uma resolução, sabemos que todas as palavras pesam. É precisamente a nível das organizações internacionais que o futuro da língua portuguesa está em jogo, pois a escolha da língua na qual nos expressamos constitui, em si, um acto político proeminente. Não é por acaso que, conforme se constata, os representantes dos Estados de expressão árabe ou de língua espanhola, se expressam, cada vez mais, nas suas línguas. Devemos assumir a nossa quota-parte nessa reconfiguração do mundo, com a convicção de que poderemos cimentar esse espírito de solidariedade que constitui a própria essência da Lusofonia, contribuindo para a afirmação e a difusão dos valores que a mesma veicula e, dessa forma, nestes tempos de crise, tornaremos compreensível e evidente a necessidade imperiosa de uma solidariedade com base nos atos.

 

 

Na sua opinião, o que diferencia a língua portuguesa de outras, como a francesa, por exemplo?

A comunidade francófona conta com um forte aparato de instituições, como a Organização Internacional da Francofonia (OIF), o Grupo dos Embaixadores francófonos de França (GAFF), a Agência universitária da Francofonia (AUF), a TV5 Monde, a Associação international dos Presidentes de Câmara francófonos (AIMF), o Instituto francês (IF), a Delegação geral para a língua francesa e para as línguas de França, a Alliance Française, a Subdireção da diversidade linguística e do francês do Ministério dos Negócios Estrangeiros e dos Assuntos Europeus, a Academia francesa e a Real Academia da língua e da literatura francesa da Bélgica, entre tantas outras, cuja missão comum é acompanhar e promover a língua francesa. Estas instituições não são supérfluas, atestam sim, um desejo genuíno de mobilização para proteção da língua francesa e promoção das expressões culturais. Têm por missão difundir a Francofonia em toda a sua diversidade, contribuindo para a aproximação dos povos e para a criação e valorização das sinergias no espaço francófono. Relembro que a Francofonia já tem uma política da língua há uns 40 anos. Houve sempre um grande investimento por parte do governo francês na promoção, divulgação e defesa da língua francesa.

E a Lusofonia? Somos obrigados a constatar que a Lusofonia está bem menos guarnecida e que tem de intensificar os seus esforços nesta matéria, para ganhar força e reforçar a sua presença. É um imperativo que a Lusofonia defina, urgentemente, uma política da língua fundada num espírito de partilha e de solidariedade! Daí a necessidade que senti na criação do Instituto do Mundo Lusófono(IMLus) que vem a ser uma vitrina da Lusofonia em França e a nível internacional. O IMLUS acaba por preencher uma enorme lacuna, eis que diversas outras instituições similares já desempenham papéis similares em prol de suas respectivas línguas e comunidades, ainda que bem menos numerosas do que a Lusófona. No IMLus, não haverá lugar para conformismos exigindo-se credibilidade, ação, conhecimento aprofundado, experiência e pro-actividade face a um “mundo” que se vai revelando cada vez mais aguerrido e complexo.

No entanto, como antes referi, a dimensão que a língua portuguesa tem em termos de representatividade no mundo é enorme. Por isso, ela pode ser a grande influenciadora em todas as suas dimensões: política, cultural,educativa,económica,mediática,científica,técnica,geográfica,desportiva,cívica,assegurando simultaneamente a promoção dos valores lusófonos. Esta linha de acção deve consolidar a presença internacional da língua portuguesa pois a lusofonia está no epicentro das relações internacionais que partilham interesses de diversas ordens e que podem servir objectivos diferentes, a saber: a paz, a luta contra o subdesenvolvimento, a defesa dos direitos humanos, entre outros.

Também acredito que o futuro da lusofonia passa pela sua integração na Latinidade, que diz respeito ao mundo latino, à civilização latina, ao espírito da latinidade que traduz esse sentimento de filiação a uma mesma família, cuja especificidade tem as suas raizes na língua de origem: o latim.

 

Quais os seus planos para os próximos tempos, algo que possamos saber?

Estou muito centrada na promoção e afirmação do Instituto do Mundo Lusófono, prosseguir os seus objetivos que têm uma abrangência muito plural, tocando várias dimensões que vão da cidadania ao ativismo social, do empreendedorismo à ciência e à cultura o que significa que há muito trabalho pela frente! Estou segura que temos muito caminho para desbravar mas sou uma mulher conhecida pela determinação e frontalidade, pronta para desafios e quanto mais difíceis, mais entusiasmo me suscitam. Além disso, tenho comigo uma equipa de pessoas ilustres que me dão todo o apoio e isso é muito importante. Saber que personalidades marcantes da sociedade, quer a nível nacional quer internacional, me apoiam nesta missão, é algo que me dá coragem e muito orgulho, revelando-me que estou no caminho certo, mesmo sabendo quão difícil será essa caminhada. Quero continuar a desempenhar as funções na Universidade de forma entusiástica, sempre com a postura que me tem marcado como mulher lutadora, defensora de causas e projetos,  por vezes incomoda pela frontalidade e determinação. Na verdade, sinto que a Université de Paris-Sorbonne (Paris III), continua a ser a minha Academia, a ilustre Casa que me ajudou a crescer como académica e com ela quero continuar a ser ativa e interventiva. Nela, cerro fileiras em defesa da Língua Portuguesa. Não tem sido fácil lutar por manter a Língua Portuguesa presente nos currículos e com projeção crescente pois estão sempre presentes jogos de interesses e para vencer é preciso um árduo e contínuo trabalho e também uma ação de visibilidade constante.

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