Confesso que desconhecia por completo a celebração do dia das bruxas antes de vir para a América, embora soubesse que elas se festejavam a si próprias todos os dias. Além disso, todos vós sabeis que as bruxas abundavam pela Ribeira Grande e arredores. Muitos de nós tivemo-las como professoras, na escola primária. As bruxas tinham fama e impunham respeito, e ai daqueles que caíam nas suas garras.

Naquele tempo, quem bebia uns copos a mais, via feiticeiras por todo o lado, e sentia forças ocultas em seu redor. Se algum mal lhes acontecesse davam a culpa às bruxas. Não se passava entre as onze e a meia-noite nos cruzamentos de rua, para não se ficar enfeitiçado ou embruxado. A bruxa que mais se temia era a sogra. Esta quase sempre aparecia nos momentos errados e dava sempre azar. Enfim, se fossemos a lembrar todas estas coisas do nosso tempo de infância e juventude, esta crónica viraria um bruxedo, e ainda me podiam chamar de bruxo ou feiticeiro. Por isso passo à frente, para dizer que, acostumado com o Pão-por-Deus do Dia de Todos os Santos, não foi fácil aceitar esta outra tradição, que não fazia parte da minha cultura. Até que cheguei à conclusão de que eu também não fazia parte deste povo, e quando nele me intregrei passei a fazer. Dentro deste pensamento a gente se ententende. Mas fiquei boquiaberto quando dois ou três anos mais tarde vim a saber que nas nossas ilhas se havia introduzido o Halloween. Hoje esta palavra até já faz parte do vocabulário português, porque toda a gente a conhece e usa-a sem problema nenhum.

Voltando ao Pão-por-Deus, de onde resaltam das memórias da infância a visão de ranchos de rapaziada cantarolando pelas portas, em ritmo monótono, uns versos que diferiam entre as localidades da nossa ilha, unicamente com o objectivo de conseguir alguma guloseima para além de uma fatia de pão, porque pão se comia todo o ano. De facto, neste dia, em certos lares aparecia pães especias, tais como: pão de leite, pão-de-ral, pão-de-mel, entre outros. Os habitantes das casas por onde passavam os ranchos ofereciam-lhes, como é óbvio, aquilo que não lhes fazia falta, destacando-se mais os punhados de milho cozido, que era o que havia com mais fartura no dia de todos os Santos. Mas também, por sorte de alguns, aqueles que começavam a fazer o peditório cedo, ao anoitecer, recebiam castanhas, e até mesmo uns pedaços de abóbora, ambas as espécies cozidas ou assadas. E entre gente discreta, de quando em vez, se entrava na casa e se tomava um cálice de licor. Um “calzins”, por alma dos seus.

 

Porta aberta, luz acesa,

Garrafa em cima da mesa.

P’ra dar por alma dos seus

Pinguinhas do pão-por-Deus!

 

Recordo ainda um ano em que uma forte ventania sacudiu violentamente os araçazeiros da tapada que explorávamos na rua Gonçalo Bezerra. Na manhã do Dia-de-Todos-os-Santos meu pai mandou-me juntar do chão todos os araçás ali caídos pela tempestade, com os quais eu consegui encher dois cestos. Veio-lhe a ideia de passá-los por água, para à noite dar aos rapazes do “Pão-por-Deus”. Pelas memórias que tenho deste dia posso afirmar que a nossa casa nunca foi tão concorrida como naquele ano com esta tradição. Araçás pelo Amor de Deus. Diferente e apreciado. Foi só a demora saber que naquela casa estavam a dar araçás, e para lá se encaminhou toda a rapaziada. Ainda por cima de três cores: vermelhos, amarelos e roxos. A delícia de miúdos e graúdos. Creio que estávamos no ano de 1973.

Neste embalo de saudades, aparece-me entre as brumas do tempo o rosto do Homem da Esmola. Era um indivíduo que pedia o pão-por-Deus durante todo o ano. E só lhe davam pão. Posso até estar enganado, mas o que as memórias recordam é ter visto o homem receber simplesmente fatias e beiras de pão duro, tanto de milho como de trigo.

Percorria as principais artérias da vila e arredores durante uma semana inteira, e  descansava ao domingo. Era como se fosse um emprego, de acordo com a triste sorte que a vida lhe dera. Seria um cinquentão, ou talvez já teria passado a soma dos sessenta. Não sei ao certo. Diziam uns que o pão era para engordar os porcos que criava; outros, que ele tinha um bom lombo para trabalhar, e que devia fazê-lo. Ouvia indiretas e fazia-se surdo. Era de estatura normal. Barbeava-se ao sábado à noite, e tinha, debaixo do barrete, o tamanho do cabelo controlado pela máquina zero de algum barbeiro da Ribeira Seca, aonde morava. Apresentava-se de rosto triste e ar cansado, com a saca de lona às costas, onde guardava todos os pedaços de pão que lhe davam. Sabia onde parar para pedir, e conhecia todas as portas onde havia de bater. Bastava ser ofendido uma vez para à mesma casa não mais voltar. Se lhe dissessem “perdoe por amor de Deus”, ele compreendia que naquela ocasião o benfeitor não o podia auxiliar, mas voltaria na semana seguinte. Não tinha nome. Era o Homem da Esmola. Aos sábados passava lá na rua, e entre as três e as quatro da tarde batia à nossa porta. Enquanto a nossa mãe cozia em casa já se vinha abrir a porta com um pedaço de pão. Quando parou de cozer por causa da saúde foi-lhe dito várias vezes o “perdoe por amor de Deus”. Depois nunca mais voltou. Alguém disse que adoeceu e ficou incapacitado. Mas o que aqui fica registado é o facto do Homem da Esmola ter feito parte das nossas vidas por algum tempo. O seu rosto era-nos familiar como se tratasse de um vizinho, ou amigo. Familiares também connosco e com ele eram estas frases: “Uma esmola, por amor de Deus.” e “Perdoe por amor de Deus.”

Por fim tenho de trazer aqui, à conversa, o Dia das Almas, ou dos fiéis defuntos, ou simplesmente dia de finados, para completar um ciclo de três dias consecutivos. Curioso é o facto dos cemitérios serem mais visitados no dia 1 de novembro do que no próprio dia dos defuntos. Mas creio que isto se deve ao feriado dos Santos. Na memória das saudades estão também as recordações da novena das almas da igreja Matriz, que se realizavam às cinco da manhã. Estas missas eram bastante concorridas naquele tempo, e para muita gente servia de um ritual que se pretendia manter enquanto a vida não faltasse. Estas idas à igreja de madrugada por vezes soltavam gases nas barrigas dos fiéis. É que, em quase todas aquelas em que participei detetei uns cheirinhos muito diferentes do incenso. Ora, imagina-se: aragem húmida da noite, bancos da igreja frios, rabinho ainda quentinho da caminha… Pois, é! Nem todos tomavam um “calzins” de cachaça antes de ir para a igreja, porque nem todos sabiam que uma boa pinga levava uma alma ao céu. Mas os padres diziam que quem andasse sempre “grosso” ao inferno iria parar. Sabe-se lá… Eu lembro-me de um tal “Manuel Bêbedo”, que andando sempre encharcado ia todas as noites dormir no Paraíso. Sim, mesmo ali no centro da Ribeira Grande. E com esta me despeço. Haja saúde e, por favor, cuidem de si.

 

 

 

Há um dia que é da bruxa,

E outro dos Santos meus.

Mas a saudade me puxa

A falar do Pão-por-Deus.

 

Um “calzins” de aguardente

Pra tomar nas horas calmas.

Passa a bruxa, de repente

E diz: – Seja pelas almas!

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