A Confraria da Pedra realizou, no passado dia 26 de março, no Restaurante Castela, na Madalena, em Vila Nova de Gaia, um jantar tertúlia que reuniu 50 pessoas e teve como convidados de honra o licenciado em Ciências da Educação, José Henrique Rocha e a médica Paula Pereira.

O último jantar tertúlia da Confraria da Pedra juntou 50 Confrades de Honra, Confrades Honorários e convidados, para uma noite sublime, onde se falou sobre solidariedade, diabetes e paralisia cerebral.

José Carlos Leitão, Chanceler presidente da Confraria da Pedra, afirmou que “a Confraria da Pedra foi fundada no dia 12 de julho de 2001, com o objetivo de dignificar a indústria e a arte da pedra e de perpetuar a memória do pedreiro” e deu início à tertúlia, passando a palavra ao Confrade Frei Fernando Ventura que falou sobre as ações desenvolvidas pelo Banco de Leite em Cabo Verde, em São Tomé e Príncipe e sobre voluntariado.

“A nossa guerra em São Tomé e Príncipe prende-se com devolver a dignidade a uma comunidade que foi espoliada. Nós, Banco de Leite, nunca tivemos grande intervenção no Príncipe, enviávamos, volta e meia, uns sacos de leite para lá, porque havia uma ONG portuguesa que estava a trabalhar no território. A Ilha do Príncipe tem 7500 habitantes. Essa ONG estava lá e nós não tínhamos grande necessidade de estar a sobrepor o trabalho que estava a ser feito e que, naquilo que não dependia das chefias, estava a ser muito bem feito. Infelizmente, por desvios de dinheiro, aquilo acabou”, explicou o Frei Fernando Ventura, acrescentando que “fugiu tudo de lá e os idosos e as crianças ficaram entregues a duas senhoras, de quem eu tenho muito respeito, a duas freiras portuguesas dos açores, uma é do Nordeste e a outra é da Ribeira Grande, a mais nova tem 75 anos e a mais velha tem 80. A Cáritas faz o que pode, naturalmente, este Governo tem estado a ajudar e o Governo Regional também”.

A alimentação é o mais urgente, mas tudo faz falta, mencionou o Frei Fernando Ventura, garantindo que “sufoco grande nesta altura também é a construção da Casa Betânia, que está pendente há mais de um ano”. Este projeto tem como objetivo a construção de uma nova casa de acolhimento de idosos na Ilha do Príncipe e está orçado em 317 mil euros.

“Nós queremos replicar aquilo que temos nas Neves, que é uma estrutura para 39 pessoas”, esclareceu o Confrade, revelando que “o segredo que eu trago comigo há mais de 30 anos é que são os pobres que ajudam os pobres e é com esta rede capilar que nós temos conseguido fazer tantas coisas”.

Posteriormente, o Chanceler presidente da Confraria da Pedra apresentou a convidada de honra Paula Pereira que é internista no Hospital Lusíadas do Porto e dedica-se especialmente à diabetes.

A convidada de honra desmistificou alguns mitos, respondeu a algumas dúvidas dos presentes, alertou para os perigos da doença e sensibilizou para as formas de prevenção da diabetes.

“A diabetes é uma doença que não dói, não se sente, mas mata”, revelou Paula Pereira, elucidando que “um quarto das pessoas com mais de 60 anos tem diabetes e não sabe e isto é grave”.

Depois desta intervenção, José Carlos Leitão apresentou o convidado de honra José Henrique Rocha, como sendo “um cidadão que lida com uma diferença. É uma pessoa espetacular, foi meu colega de turma na faculdade e é um cidadão com uma inteligência acima da média, que tem dificuldades que tem em comunicar, mas não é malandro”.

José Henrique tem 36 anos, é de Espinho, é licenciado em Ciências da Educação e falou sobre a sua perspetiva relativamente à paralisia cerebral. “Sou apenas uma pessoa como todas as presentes nesta sala”, referiu o convidado num texto que estava a ser lido por José Carlos Leitão.

“Quem olha para mim, pela primeira vez, vê uma pessoa com deficiência, bastante dependente de terceiros. De facto, é verdade. Sempre tive consciência das minhas limitações físicas, mas elas não me limitam a capacidade de alcançar os objetivos a que me proponho. Desde a escola primária tive uma vontade imensa de aprender. Até finalizar o secundário fui um aluno mediano, mas tive sempre a noção de que tinha de ter um curso superior se não quisesse acabar no Centro de Atividades Ocupacionais, como a grande maioria das pessoas com deficiência. Em 2010, terminei a licenciatura em Ciências da Educação, na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto e, como todos os recém-licenciados, tive como objetivo exercer a minha profissão, mas, até então, ainda não consegui realizar este sonho”, leu o Chanceler.

O convidado de honra integrou, em 2014, o Movimento Nacional de Vida Independente, “que surgiu da necessidade de se criar um modelo alternativo à institucionalização de pessoas com deficiência” e, mais tarde, descobriu na poesia a melhor forma de se expressar. “Nela consigo ser aquilo que sou e reinvento-me noutras personagens que me fazem viver numa realidade bastante diferente da minha”, escreveu o licenciado, sublinhando que “acho que só me sinto bem quando estou a criar e acho que foi por essa razão que aceitei o desafio para escrever peças de teatro na Companhia «Era Uma Vez… Teatro», da Associação do Porto de Paralisia Cerebral. Nesta aventura já escrevi o monólogo final da peça «Vidas Cruzadas», um texto de Mia Couto, e a peça «Macbeth – O poder do papel higiénico»”.

José Henrique contou que escreveu um livro, que ainda não foi publicado, e salientou que “ainda não consegui concretizar alguns sonhos, entre eles estão o meu mestrado que, por razões económicas, ainda não consegui terminar, mas tenho a plena convicção de que em breve retomarei o mestrado para cumprir mais um objetivo” e que “eu só quero uma oportunidade para mostrar a minha capacidade de trabalho”.

A Confraria da Pedra emocionou-se com a história do convidado e comprometeu-se a ajudá-lo a concretizar alguns dos seus sonhos.
Foi mais uma noite sublime, na qual o pintor e Confrade Abílio Guimarães desenhou os convidados de honra, presenteando-os com a sua arte.

Durante a tertúlia, José Carlos Leitão destacou as últimas iniciativas que contaram com a presença da Confraria da Pedra e lembrou a inauguração da exposição “Viajante nas Confrarias” de Abílio Guimarães, que decorreu no passado dia 23 de março, na Casa-Museu Regional de Oliveira de Azeméis.

A Confraria da Pedra aproveitou ainda a ocasião para atribuir um Diploma de Reconhecimento a José Henrique e a Paula Pereira, a quem também foi concedido um pino.

O Chanceler anunciou, à margem do jantar tertúlia, que o Jantar Solidário que está a ser organizado pela Confraria da Pedra e que se ia realizar no próximo dia 28 de maio, na Quinta da Torre Bella, em Oliveira do Douro, foi adiado, por incompatibilidade de agenda, para o mês de novembro. A Confraria pretende atingir os 20 mil euros, sendo que a verba angariada vai reverter em prol de jovens com deficiência.

O 18º aniversário da Confraria da Pedra vai ser celebrado no próximo dia 12 de julho. José Carlos Leitão adiantou que “vamos organizar o nosso jantar de aniversário e vamos honrar a memória dos pedreiros” e que “este ano temos como grande objetivo interno a nossa filiação na Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas”.

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