Daniela Gonçalves, a nossa convidada de hoje, iniciou-se como atriz, em 1995, nos palcos do teatro amador, nos Plebeus Avintenses, onde foi dirigida por Castro Guedes, Roberto Merino e Moura Pinheiro, entre outros encenadores. A sua incursão pelo teatro profissional aconteceu a partir de 2002, no Grupo Cruzamentos, passando depois pelo Entretanto Teatro, ao mesmo tempo que se empenhava na criação dos grupos Estaca Zero e Ponto Teatro, onde se cruzou com o encenador Emanuel Sousa.

Com este produziu, e interpretou, alguns dos mais interessantes e singulares projetos teatrais desta década a norte do país, nomeadamente “Déjá Vu”, “Capital Fuck” e “Dystopia”. Paralelamente, manteve-se ligada ao ensino, como formadora em teatro, expressão dramática e animação sociocultural. A sua relação com os Plebeus Avintenses foi retomada em 2016, como formadora e encenadora, tendo dirigido recentemente, entre outras, as peças “As Guerras de Alecrim e Manjerona” de António José da Silva e “O Meu Pé de Laranja Lima” de José Mauro de Vasconcelos. É dela a palavra para mais uma reflexão sobre o teatro profissional em Gaia.

 

Na tua opinião, o que falta para que o teatro profissional em Gaia se constitua como alternativa à crescente oferta cultural da cidade do Porto?

Por um lado, penso que falta comunicação com um público que está fragmentado e muito habituado a ter acesso à cultura através das associações que lhe estão mais próximas. Gaia tem um forte tecido associativo, em diversas áreas culturais (música, teatro, dança) e é através dele que o público tem a sua primeira experiência a este nível e através do qual cria empatia e hábito de participar e/ou assistir a espetáculos. Não havendo, ou não tendo havido até agora, grande comunicação entre a câmara e as associações, maior disponibilidade para que as mesmas tenham um papel mais relevante e ativo até na utilização dos equipamentos municipais, o acesso a esse público continua muito limitado. O que a mim me parece contraditório é que Gaia tenha tanta gente envolvida direta ou indiretamente em diversas áreas culturais e que isso de facto não se reflita numa participação mais ativa e entusiasta na programação definida por exemplo para o Auditório Municipal. No entanto o FesTeatro tem sempre casa cheia e é aqui que eu acho que está o grande fosso que não tem permitido a Gaia afirmar-se, à semelhança do Porto, como o grande polo cultural que poderia ser. O teatro não vive sem um público e para que este se possa interessar em ver mais e melhor teatro de cariz profissional, há um trabalho a ser feito em conjunto com as associações que o fazem de forma amadora. Penso que as associações deveriam ter mais apoios para contratar, em conjunto com a câmara, bons profissionais para estarem à frente dos imensos projetos de Iniciação à Prática Teatral que existem, para que esse início seja de qualidade e que desperte nesses jovens o interesse, a curiosidade, o prazer, o espírito crítico para verem coisas para além daquelas que existem nas associações que frequentam. Por outro lado, acho que falta uma programação realmente competitiva e alternativa ao que se pode encontrar nas salas de espetáculo do Porto. Uma programação que para além de ter em vista cativar e fidelizar um público de Gaia, pudesse também levar os habitantes do Porto a atravessar a ponte para ver um espetáculo ou participar numa ação de formação. À semelhança do que acontece por exemplo com o CCVF [Centro Cultural Vila Flor] em Guimarães, Gaia precisa ser uma alternativa consistente em termos de programação e formação de públicos, a ponto de se tornar um polo de interesse para público em geral e artistas da região e do País.

 

No que respeita à formação de públicos e à criação de hábitos culturais, de que forma e até que ponto a escola pode dar o seu contributo?

A escola pode e deve ser um grande fomentador de hábitos culturais e de formação de pessoas sensíveis às questões da Arte, que a procurem regularmente e que façam dela uma ferramenta de conhecimento, questionamento e reflexão acerca de tudo o que nos envolve. A minha experiência em contexto escolar sempre foi muito compensadora e os resultados provaram, um após o outro, serem surpreendentes. Não só os alunos mas também os pais se envolvem e acabam por criar um hábito de procurar outras possibilidades fora daquele contexto. Daí a colaboração com potenciais grupos profissionais  ou outros ser também importante. Haver uma ponte entre a escola e a oferta cultural do meio em que se insere é a resposta para a formação de público e a fomentação de hábitos culturais. Na minha opinião esta seria uma área a inserir curricularmente em todos os níveis escolares. Não se percebe que, apesar da imensa carga letiva que os alunos enfrentam na escola de hoje (demasiada na minha opinião), a Arte, e as artes de palco em particular, não encontrem ainda um espaço que seria importante e eficaz a tantos outros níveis até para o sucesso escolar dos alunos, para além da criação de hábitos culturais enriquecedores.

 

No que concerne à programação da oferta cultural em Gaia, designadamente no que respeita às artes de palco, a quem deve competir o seu desenho e concretização?

O desenho e efetivação da programação cultural deveria estar nas mãos de alguém politicamente isento, com provas dadas  em termos de percurso ligado à Cultura. Não necessariamente alguém que tenha sido um interveniente direto enquanto artista, mas que seja acima de tudo um pensador, de vasta cultura e que tenha também uma componente essencial: a de saber intervir, perceber e chegar até ao público de Gaia, perceber as características da população e quais são as suas raízes para conseguir elaborar um programa que possa diretamente ir ao seu encontro.

 

Quando, atrás, falas numa programação alternativa ao que se pode encontrar no Porto, queres referir-te a um modelo mais experimental, que não se encaixe no lado comercial da arte, que priorize a pesquisa, que misture géneros, linguagens, estéticas…?

Sim, alternativa na medida em que possa suprimir algumas lacunas em relação à oferta que se encontra no Porto. Acho o Porto um bocadinho conservador em relação ao que apresenta, por estranho que isto soe. As instituições têm o peso que têm e por vezes isso influencia bastante as escolhas de programação efetuadas. Dei por mim a deslocar-me mais vezes a Guimarães do que à maioria dos espaços semelhantes no Porto e isso fez-me refletir sobre o porquê. E sempre que ia encontrava o Porto lá em peso, o que ainda me levou a questionar mais. Acho que em termos de programação internacional é na generalidade bastante melhor, na minha perspetiva, e por outro lado também há espetáculos nacionais que eu adoraria ver no Porto que só encontram espaço mais a norte, em Guimarães ou em circuitos não tão centrais como Matosinhos, Aveiro ou Ovar. Por isso, porque não Gaia? Talvez com uma programação nesse sentido, tal como as pessoas se deslocam a estes locais que referi anteriormente, também se deslocassem a Gaia. Mas para isso tem de haver um projeto cultural de fundo, com objetivos bem definidos e na minha opinião uma maneira completamente diferente de se pensar os espaços de programação disponíveis. Uma forma muito mais flexível. Nota-se nestes espaços o peso do funcionalismo público com o que tem de menos positivo. Tudo é muito difícil, problemático, complicado de resolver até ao nível mais básico de montagens e afins. Portanto há que mudar mesmo o paradigma se a intenção for dinamizar a sério um património que no fundo já existe e que poderia ser muito mais rentabilizado em termos culturais.

 

Para além dessa falta de flexibilidade no seu funcionamento, a que te referes, que outros condicionalismos impedem os Auditórios Municipais da implementação de uma programação moderna, inovadora e diversificada?

Penso que o maior entrave é mesmo o peso institucional de um auditório de gestão pública, com a agravante de equipas não fixas, portanto contratadas esporadicamente para os trabalhos específicos que vão sendo necessários. A falta de verbas será aqui determinante. Parece-me que não existe um projeto de fundo, uma aposta clara num projeto que defina uma programação e todos os recursos necessários para a fazer acontecer. E sem isto, por mais boa vontade ou competência das pessoas que gerem este tipo de equipamentos, não é possível fazer muito mais. Tenho sempre sensação de que não existe um carater, uma personalidade, algo que defina o porquê de ir a este lugar específico ou o que esperar da sua programação, porque é esporádica, sem um fio condutor claro.

 

A terminar, quando voltas aos palcos como atriz e qual a personagem, a peça ou o autor que ambicionas para esse regresso?

Não faço ideia de quando será o meu regresso ao palco. Neste momento estou com um outro projeto na área do Turismo e divido o meu tempo entre o Porto e o Douro. Não me passa pela cabeça não regressar, embora claro que pode acontecer. O Teatro faz parte de quem eu sou, vai sempre fazer e é algo não negociável, não é sequer uma escolha, é simplesmente natural, orgânico, como respirar. Fiquei muito feliz com o meu último trabalho em palco, na Ponto Teatro, que foi um monólogo, portanto um dos maiores, senão mesmo o maior desafio no meu percurso como atriz. No entanto a minha peça fetiche continua a ser “Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny” de Brecht e a Viúva Begbick, uma personagem que eu adoraria interpretar.

 

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