Março, marçagão, / de manhã Inverno, / de tarde Verão”. Dos muitos provérbios sobre o mês de Março, este é por excelência o mais divulgado, quiçá pai de outros do seu género, como aquele outro que diz: Março, marçagão. /  Com cara de cão. / Noites geladas, / Manhãs asseadas, / Tardes de verão.

Março tanto é o mês da esperança como das tormentas e dos sacrifícios. Por isso ele acolhe com agrado a quaresma cristã. Para nós, habitantes do hemisfério norte, outro mês do ano não teria o mesmo sentido para as renovações naturais e espirituais. Além disso, como tudo o que traz vantagens a uns e inconvinientes a outros, Março ao carregar o peso da Quaresma é a salvação de muitos negócios ligados ao peixe, que em certos locais conseguem compor em seis semanas quase dois terços do seu lucro anual. Repare-se que não faz sentido nenhum a abstinência da carne à sexta-feira quando se tem lagosta para o almoço e caviar para o jantar. Ainda dentro deste pensamento, esta coisa de comer peixe à sexta-feira durante a quaresma, sendo uma treta é também um grande sacrifício para os nossos bolsos. O preço de dois peixes dá para comprar três bifes com ovos a cavalo e bastante batata frita. Depois de comer, um Padre-Nosso e duas Avé-Marias tratam do assunto. Mas cá se vai engolindo o peixe, para não se ser a ovelha negra da família, escapando, uma vez por outra, conforme as ciscunstâncias. Uma coisa é certa: Jejum não passa por aqui. Acredito em controlar o apetite e a não cometer excessos, mas também creio que é de dar graças a Deus o facto de sermos sortudos por ter alimento, enquanto que há gente por este mundo fóra  morrendo à fome.

A primeira vez que fugi à regra da abstinência foi numa sexta-feira santa, cumprindo serviço militar. Numa refeição peixe, na outra carne, era a regra da alimentação na tropa. Ou comia-se, ou passava-se fome. Como nunca fui nas cantigas dos jejuns, naquele dia tive como a melhor ceia de sempre a afamada e odiada “cabeça de porco com feijão”. Cabeças de Sargentos, como diziam os praças. Não querem crer que, realmente, estava mesmo uma delícia?! O fruto proibido é sempre o melhor. Pecado mortal. Sim, tinha pura consciência disso, mas Deus perdoou, e foi tão fácil obter este perdão, porque confessei-me ao Padre Edmundo. As suas penitências para comigo (falo só por mim), nunca passaram de um Padre Nosso e três Avé-Marias. Por gosto se pecava porque a penitência era sempre leve. Porém, não quero acreditar que estes fáceis perdões tivessem contribuido para a formação de reguila, ou refilão que tanto me caracterizava quando na Ribeira Grande vivia.

Sempre que me reconciliava com Deus através do Padre Edmundo, eu ficava sem saber se se tratava de uma confissão ou de uma conversa de confessionário. É que, ele sempre puxava tópicos interessantes para um diálogo de amigos. Em vésperas da elevação a cidade da Ribeira Grande, Padre Edmundo ao encontrar-me na Rua Direita pediu-me uns versos alusivos ao momento histórico, para serem publicados no jornais. No dia seguinte apresentei-lhe uma folha de papel A-4 com com seis quadras de cada lado. Burrice da minha parte, porque eu devia saber que ele foi o impulsionador mais activo daquele movimento, e mesmo que o não fosse nunca aceitaria poesia satírica. Pois, já se sabe, nada daquilo foi publicado. Qual era a tua ideia, Alfredo? Padre Edmundo não falava mal de ninguém, levava tudo no optimismo, tinha muito respeito por toda a gente, e sempre trazia consigo uma palavra amiga para quem com ele se cruzava.

Considero que a pior ofensa que o senhor Padre poderia ter era ser interrompido quando da palavra fazia uso. Uma vez, aos onze anos de idade, eu mais o Rui Cebola, que morava na Rua de Santa Luzia, fomos expulsos de uma aula de moral a pontapés. Porque estávamos a distrair o resto da turma enquanto ele falava. Realmente, teria sido um bom jogador de futebol, porque me fez levantar os pés do chão, com dois chutos no traseiro! Afinal, ninguém é perfeito. Por esta altura, além de ser seu aluno fui também seu acólito durante alguns anos, sendo especialmente destacado para a missa das nove-e-meia. Todas as semanas o senhor Padre escalava os seus ajudantes, gravando seus respectivos nomes em papel dactilografado e afixado-o numa das paredes  da sacristia. Às nove e meia dos domingos lá estavam os nomes de Paulo Renato, filho do Professor Ferdinando e Alfredo da Ponte. A ordem dos nomes era alterada semanalmente porque o primeiro servia do lado direito e o segundo do esquerdo. Reunindo-se a isto estava o privilégio de ir muitas vezes às Caldeiras, com o Senhor Padre, para celebrar a Eucaristia na ermida de Nossa Senhora da Saúde, aos domingos, depois da missa da catequese da Matriz. Provocava inveja a muita gente, não só pelo passeio em si, mas também pelo facto de ir com o Senhor Padre, no seu BMW, que era um dos bem poucos que havia em São Miguel naquela altura. Como vêm, meus amigos, fui um santinho na infância e um santo na juventude. Se Deus não me acode esta crónica corria o risco de ser dedicada à minha beatificação, em vez de ser um público louvor ao Senhor Padre Edmundo, com quem eu nutri uma amizade profunda, e como eu, algumas centenas de pessoas.

Aos 24 de Fevereiro transacto apareceu-nos no Facebook uma notícia da Junta de Freguesia da Matriz, pondo-nos a par do andamento das obras de “requalificação do monumento de homenagem ao Padre Edmundo Pacheco, criando condições condignas à altura de uma das mais ilustres personalidades da Ribeira Grande.” Informava ainda que “as obras incluem uma nova base em betão, iluminação Led, uma moldura realizada em cantoneiras de aço inox (…)”, mantendo “o texto original do reconhecimento público efetuado em 2015, quando o nosso amigo Alfredo da Ponte fez uma intervenção bibliográfica exemplar do Padre Edmundo Pacheco.”

Até aqui, tudo bem. Mas vejo que é necessário lembrar que esta iniciativa de 2015 nasceu nos Estados Unidos: Quando o saudoso Padre Edmundo partiu para a eternidade os Amigos da Ribeira Grande-USA lançaram a ideia à junta de freguesia, e ambas as partes desenvolveram o plano da pública homenagem. A freguesia cedeu o espaço e o monumento, e aos emigrantes coube o lugar de honra nas cerimónias. Lembramos também que os Amigos da Ribeira Grande-USA sempre tiveram as melhores relações com a Junta de Freguesia da Matriz, independentemente da cor política dos seus dirigentes. Recordamos, igualmente, que por lapso, ou por falta de comunicação entre o pessoal da junta de então, o texto gravado no azulejo não menciona emigrantes de modo algum. Por esta razão foi preciso, à pressa, mandar gravar uma pequena folha de metal, que foi depois afixada na pedra que faz a moldura do azulejo, com estes dizeres: “Homenagem da Junta de Freguesia da Ribeira Grande-Matriz e Amigos da Ribeira Grande-USA”. Fazemos votos que depois das obras de requalificação não haja o esquecimento de voltar a afixar no monumento a referida chapinha, ou folha de metal.

Para concluir esta fuseirada, transcrevemos a notícia da Junta de Freguesia, publicada na rede social em 10 de setembro de 2015:

No passado sábado, dia Institucional da Freguesia Matriz, e por sugestão do grupo de emigrantes da Nova Inglaterra, Amigos da Ribeira Grande, foi celebrada a cerimónia de homenagem à obra e vida do Padre Edmundo Pacheco, homem que marcou o percurso de gerações, sendo-lhe reconhecido o maior respeito e admiração de toda a população. Esta homenagem foi marcada por uma comovente intervenção de Alfredo da Ponte, ilustre representante dos Amigos da Ribeira Grande-USA, seguida da inauguração de um painel de azulejos, alusivo à sua vida, e abrilhantada com a presença do representante do Governo Regional dos Açores, Dr. Paulo Teves, Diretor Regional das Comunidades.”

Terminando esta longa crónica, em repisa aos versos não publicados de 1981, transcrevo aqueles que recitei ao Senhor Padre naquela póstuma homenagem de 2015, no jardim lateral da igreja:

 

Esta Matriz imponente,

Orgulho da nossa gente,

Que até dá gosto vê-la,

Foi casa do Padre Emundo

Enquanto serviu no mundo

A Senhora da Estrela.

 

Por aqui muito pregou

E tanta gente ensinou

Maneiras do bom-viver;

E cativou corações

Com rezas e com sermões

Que ninguém vai esquecer.

 

 

Quem com ele conversava

Consigo sempre levava

Um pouquinho de alegria.

Amigo de toda a gente,

E serviu condignamente

Esta nossa freguesia.

 

Excelente professor,

Que lecionou com amor

Largos milhares de vezes.

Mestre em todas as matérias,

No trabalho e nas férias

Por muitos anos e meses.

 

Foi jornalista distinto,

Que usando todo o instinto

Muito da Gente escreveu.

Tanta verdade foi dita

Em simples e clara escrita

Nossa Terra enobreceu.

 

Fidalgo por nascimento,

Sempre foi muito atento

E um grande conselheiro.

Contava lindas histórias,

E delas temos memórias

Com orgulho de fuseiro.

 

Homem de cultura vasta.

Não precisava de pasta

P’ra mostrar sabedoria.

Foi um senhor dos senhores,

Sem manias de doutores,

Fiel à Virgem Maria.

 

Migrantes e residentes:

Estamos aqui, contentes

Em sentimento profundo.

E nesta humilde linguagem

Prestamos uma homenagem

Ao nosso Padre Edmundo.

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