José Ferreira Pinto comemorou, no passado dia 14 de novembro, 80 anos e assume-se como sendo um homem com visão e paixão pela vida. Conhecido por ser um dos impulsionadores da indústria do calçado em Portugal, o empresário contou, em entrevista ao AUDIÊNCIA, a história do seu percurso, que começou nas solas, que o conduziram a fundar a For Ever, em 1973, e prosperou com a criação do grupo Procalçado, em 1984, o que culminou com a conceção das marcas de calçado injetado, nomeadamente a Wock, para o mercado profissional, e a Lemon Jelly, para o segmento da moda. José Ferreira Pinto aliou, ainda, a responsabilidade social à sua vontade de ajudar o próximo e criou, em 2013, o Pony Club do Porto, com o verdadeiro intuito de auxiliar as pessoas com necessidades especiais, através da prática de atividades equestres.

 

 

 

O José Ferreira Pinto comemorou, no passado dia 14 de novembro, 80 anos, data que foi assinalada com o lançamento da obra “Ferreira Pinto também é José – um líder [também] é pessoa”. O que representa e qual a relevância deste livro?

Eu nasci em Lobão, uma pequena aldeia do concelho de Santa Maria da Feira. Posso dizer-lhe que falar sobre os meus 80 é uma coisa muito grande. Eu tenho lembranças desde os meus cinco anos, idade com a qual já tinha de trabalhar com o meu pai, na lavoura, porque eu vivia numa zona muito pobrezinha, não havia meios nenhuns, não havia dinheiro, a família era muito pobre, não tinha nada. Portanto, nós éramos lavradores, tínhamos um pequeno sustento, mas muito pouco. Então, fiz a escola primária, a quarta classe, e, depois, queria estudar, mas o meu pai disse-me que não tinha dinheiro para isso, logo eu tinha de ir trabalhar. Então, acabei a primária e fui trabalhar. Arranjei um emprego para carpinteiro, depois fui para a fábrica das rolhas, em Santa Maria de Lamas, mais tarde fui pedreiro e posteriormente fui trolha, como tal trabalhei em tudo onde eu pudesse ganhar uns míseros tostões, que, para mim, já me satisfaziam. Eu penso que o meu pai, no fundo, era boa pessoa, mas tinha, dos pais dele, alguns hábitos, nomeadamente uma linguagem muito grosseira e forte. Assim sendo, ele não sabia cumprimentar, não sabia beijar, nada. Eu, nunca na vida, recebi um beijo do meu pai. Logo, ele era um homem duro, mas eu, um dia, depois de casado, perdoei-lhe, porque reconheci que, de facto, vi que ele era assim, mesmo pelos antepassados, pois eram pessoas que tinham a ambição de que eram gente de bem, tinham uns campos e uns valores e que eram pessoas que vivam acima do normal, então falavam para as pessoas de uma forma grosseira e até eram famosos nisso. Posteriormente, com 19 anos, dei início à minha vida militar e cumpri 26 meses de tropa. Durante os meus 80 anos de vida eu vivi muitas coisas, mais concretamente, a guerra com as colónias, o Estado Novo de Salazar, a Revolução de 25 de Abril, inúmeros governos e a ideia para o livro surgiu da minha vontade de preservar e recordar as minhas memórias. O primeiro livro foi escrito na comemoração dos 40 anos da empresa e denominou-se “Em frente For Ever – O caminho de José Ferreira Pinto”. Porém, no final, entendi que estava incompleto e que faltavam muitas coisas. Então, desejei, um dia, fazer o segundo, o que me conduziu, recentemente, antes de completar 80 anos, ao complemento que me faltava, pelo que reuni uma equipa e trabalhamos, durante quase um ano, à volta do segundo livro, que foi lançado no dia da minha festa de aniversário. Este livro contempla, então, um complemento à minha história de vida, claro, contada por outras pessoas, que escreveram de uma forma diferente, com uma linguagem diferente e que findou, claramente o anterior e a minha história de vida.

 

Considerando que não tinha qualquer ligação prévia, o que o conduziu até à indústria do calçado?

Quando eu terminei a tropa, que me deu uma experiência muito grande e me permitiu conhecer Portugal e, fundamentalmente, os homens, pois convivia com eles, uma vez que eu era instrutor e dava aulas de condução. Eu posso dizer-lhe que antes de eu ir para a tropa, eu nem sequer sabia onde é que era o Porto e vivia a cerca de 40 quilómetros da cidade e, a partir da minha vida militar, procurei arranjar trabalho uma empresa, numa zona industrial, pelo que fui à zona industrial de São João da Madeira, pois entendi que lá, mais do que na minha aldeia, me abririam alguns horizontes. Então, eu fui aprender para uma fábrica, onde se faziam, mesmo, solas para calçado e logo, aí, nasceu a minha paixão pela indústria e, a partir daí, a minha vida avançou lentamente, suavemente, mas de uma forma exponencial, o que me conduziu à inauguração, em 1973, da For Ever. Felizmente, eu nasci assim, com esta qualidade, enfim, de ser um homem corajoso, um homem que gosta de trabalhar sempre no fio da navalha e, portanto, tive de vencer muitas montanhas, mas estou com a memória fresca, porque acabei de referir tudo isto, recentemente, para o meu último livro. É uma história muito longa, mas é gira. Eu vivi altos e baixos, a vida tem altos e baixos. Eu não tinha nada de nada e, hoje, tenho um pequeno império, no qual trabalham cerca de 400 pessoas, tenho quatro filhos, cinco netos e, portanto, sou um homem completo e feliz. Não é fácil chegar cá, mas eu não tive grandes quebras, eu consegui entrar numa espécie de rampa de lançamento e eu era incontrolável, graças a Deus, porque eu nasci assim e a quem eu devo isso é aos meus pais.

 

Esperava, algum dia, concretizar os sonhos que realizou ao longo da sua vida?

Não esperava concretizar os sonhos que realizei. Longe de mim imaginar que um dia ia chegar aqui. Portanto, consegui a pulso e esse foi o sonho, logo, eu sinto-me mais realizado do que aquilo que eu esperava.

 

Se tivesse de escolher o momento mais marcante para si, qual seria?

Há muitos, mas posso referir uma fase em que a minha empresa chegou a ter dificuldades financeiras, porque eu investi muito para crescer e construir esta empresa em tão pouco tempo. Eu não tinha conhecimento, não tinha formação, nem bases de gestão ou economia. Eu não conhecia esses palavrões e, portanto, eu sabia apenas comprar, vender e fazer as contas de somar e dividir. Posso contar-lhe que eu até me esquecia de escrever, pois andei a vida inteira a fazer contas. Portanto, eu dediquei-me à área do calçado e foi por aí que eu segui e alcancei os meus objetivos, mais depressa do que eu imaginava. A realidade é que foi uma luta tremenda e passei uma fase mais difícil, porque, na altura, comprei muitos equipamentos, terrenos, pavilhões e investi, porque naquele tempo era fácil. Eu ganhei bastante crédito, no mercado, e os bancos ofereciam dinheiro e eu, com esse entusiasmo, não fiz um processo de investimento e comprei tudo a curto prazo, ou seja, eu precipitei-me e, depois, senti-me um pouco atrapalhado, mas, tive estratégias que me conduziram a uma fase de superação, que foi muito lida. Não posso descurar, de forma alguma, o nascimento dos meus filhos e dos meus netos, pois são momentos que só quem passa por eles é que percebe o quão são importantes. Eu não sabia se ia ter filhos ou netos e, hoje, quase que já podia ter bisnetos. Portanto, chegado este momento, todo ele é lindo, é único, é impressionante. Portanto, vale a pena ler o meu livro e vale a pena aprender com aquilo que se passou comigo. Foi uma história bonita e está plasmada no livro intitulado “Ferreira Pinto também é José – um líder [também] é pessoa”, que foi distribuído por cada convidado que esteve presente na minha festa de aniversário.

 

De que forma é que a fundação da For Ever, em 1973, que, em 1984, deu origem ao grupo Procalçado, que hoje é uma grande referência da indústria do calçado, também, representou um grande objetivo alcançado?

A For Ever era uma empresa comercial, que comprava, vendia e utilizava a marca For Ever, que era a marca do produto. Então, nós utilizamos e demos uma certa importância à For Ever. Quando eu vim de São João Madeira para Pedroso, tive de comprar e criar uma empresa, então entendi devia utilizar a For Ever só como uma marca, porque, naquele tempo, era um nome que alguns não sabiam pronunciar e, então, eu precisava de um nome ligado e vocacionado para a indústria do calçado. A ideia do nome Procalçado não partiu apenas de mim, mas foi-me deslumbrado através de várias pessoas e, hoje, a Procalçado ainda é uma empresa de componentes para a indústria do calçado.

 

O que conduziu à criação das marcas Wock, para o mercado profissional, e Lemon Jelly, para o segmento da moda?

A ideia inicial para a criação da Wock e da Lemon Jelly partiu do meu filho, juntamente comigo. Nessa altura, ele tinha acabado de sair da universidade, mas já trabalhava há alguns anos na empresa como diretor comercial. Eu recordo-me que nós gostávamos de ter algo diferente, porque estávamos a ficar cansados do produto que tínhamos, então ele também se entusiasmou, mas nós tínhamos de ter a consciência de que não podíamos ter calçado, quando nós vendíamos solas aos nossos fabricantes de calçado português, inclusive eu sou há mais de 20 anos diretor da Associação Portuguesa da Indústria do Calçado e, hoje, sou presidente da Assembleia-Geral da APICCAPS, pelo que eu não podia fazer nada que colidisse com os meus clientes das solas e, assim, nasceu a Wock, que é uma marca que se destina ao mercado profissional e que tem evoluído muito o que nos tem levado mais além. Depois, com a Lemon Jelly, que se direciona ao segmento da moda, nós continuamos a fazer aquilo que não se fazia cá, para não mexermos com o nosso mercado. O meu filho, José Azevedo Pinto, abraçou este projeto de alma e coração e, com a minha companhia, nós conseguimos, sendo que, neste momento, temos duas marcas muito bem colocadas no mercado e a Lemon Jelly, também, está muito bem colocada a nível não só nacional, mas, fundamentalmente, internacional, pois nós vendemos muito para fora, quer as solas, quer as duas marcas de calçado. O meu filho já conhecia muito bem o mercado, porque já trabalhava há alguns anos na empresa como diretor comercial na empresa e ele, fundamentalmente, bate o mercado e faz as feiras, tanto com stands da Lemon Jelly, como da Wock, que integram a Procalçado.

 

Como vê a gestão que tem sido feita pelo seu filho, José Azevedo Pinto? Acredita que, enquanto CEO, ele dar continuidade ao trabalho que foi iniciado por si e vai levar a Procalçado a bom porto?

Não tenho dúvidas nenhumas. Ele está seguro, já tem 50 anos e, portanto, tem uma experiência muito grande e gosta da criação, porque criar calçado é um processo giro e muito divertido. Portanto, o meu filho procura, de facto, clientes e mercados de alto nível e anda tão entusiasmado que a empresa segue em frente, sem sombra de dúvidas, pois ele veio acrescentar não só mais faturação e valor, como veio reforçar o conceito e a inovação. Ainda estamos a aprender todos os dias e, quando se trata da moda, é mesmo todos os dias, porque a moda tem duas épocas fundamentais, mas nós temos de criar permanentemente e isso deixa-nos inquietos todos os dias, a todas as horas e a todos os momentos.

 

O José Ferreira Pinto, depois de ter marcado a história da indústria do calçado em Portugal, vai ficar eternamente ligado à sua grande paixão?

Mesmo a nível de solas, eu fui um impulsionador e desenvolvi muito a indústria do calçado, porque existiam muito poucos industriais de calçado, naquele tempo. Portanto, eu fui um dos fundadores da indústria do calçado em Portugal e eu posso dizer-lhe isto com muito orgulho e alguma vaidade. Eu ajudei e ajudaram-me a mim, também, a crescer e, portanto, isto transformou-se numa história muito gira. É difícil descrever-me e falar sobre mim próprio.

 

A responsabilidade social é algo que lhe é inerente e, por isso, criou o Pony Club do Porto. Qual é o objetivo e a importância deste projeto? De que forma tem feito a diferença na vida das pessoas, através do patrocínio da Procalçado?

O Pony Club teve apenas um objetivo. Eu entendi que, desde que comecei a trabalhar, só pensei na minha atividade e que, por isso, devia contribuir, com alguma coisa, para a sociedade, porque tinha-me prendido a fazer contas, vender e comprar e a pensar no dinheiro e no negócio. Então, percebi que devia fazer alguma coisa em prol da sociedade e surgiu-me a ideia de apoiar as crianças com mais dificuldades e, então, criei o Pony Club, que é uma obra muito grande e muito boa na cidade do Porto, que está a ajudar muitas famílias com crianças e jovens portadores de deficiência e, para além disso, utilizamos, também, a atividade equestre. Portanto, o Pony Club do Porto é uma associação, que foi criada com a finalidade de contribuir para a sociedade, porque entendi que tinha feito a minha vida dedicada a mim próprio, a pensar em mim, então, resolvi pensar nos outros e eis a razão pela qual nasceu o Pony Club do Porto.

 

Quais sãos os seus maiores sonhos?

Com 80 anos, eu estou, naturalmente, a terminar a minha vida, pois não posso exigir mais, mas, também, penso que 80 anos é uma meta muito importante. então, eu vou abrandar, provavelmente, a minha atividade, porque o meu filho começa a absorvê-la, e ainda bem, pois as minhas capacidades quer físicas, quer intelectuais, tendem a diminuir. Portanto, eu estou, neste momento, a preparar tudo, para que a família Ferreira Pinto e José Pinto possa perdurar por muitos anos, mesmo depois de eu não existir. Esse é o meu objetivo e é por este motivo que eu estou a fazer uma fundação, que se denominará Fundação For Ever, mesmo para contemplar tudo e ser eterna.

 

Qual é a mensagem que gostaria de transmitir?

Gostava de deixar para a posterioridade, os sonhos que concretizei e a obra que construi.