Por mais anos que passem, nunca será fácil esquecer o dia mais “sombrio” por que passou a CC 1654, da qual eu fazia parte integrante, ao longo dos dois anos de comissão que cumprimos em Moçambique (1967-1969), integrados no Batalhão 1.906, liderado por um militar de carreira que já nos deixou, o saudoso coronel José Guardado Moreira.

Na fase mais adversa da Companhia comandada pelo capitão miliciano José Manuel Campos, frequentemente me ocorre, que um dos companheiros que mais sentiram na “pele” os efeitos nefastos da trágica emboscada de 14 de Maio de 68, na região de Tete, que “roubou” a vida a quatro camaradas, foi o alferes miliciano Alberto Augusto da Silva, transmontano de Miranda do Douro, que chefiava o 4º Pelotão, durante um patrulhamento de rotina a Nordeste do Fíngoè. Gravemente atingido logo ao romper da dia, só conseguiu recuperar após um longo período de intervenções e convalescença. Passadas algumas décadas, quando nos cruzamos, no âmbito dos nossos encontros anuais, Alberto Augusto da Silva fez questão de ser interveniente directo nas palavras que originaram este texto, que eu interpreto como forma de prestar homenagem aos camaradas falecidos.

Os imprevistos da guerra

Depois de recuperado, aquele antigo miliciano quis deixar o seu testemunho, com algumas recordações, por vezes angustiantes, da delicada situação por que passou.

«Recordo esse dia como se fosse hoje. Eu ia num dos lugares da cauda da coluna e no momento do ataque, fui alvejado com um tiro que me perfurou o intestino em diversos pontos, tendo a bala ficado alojada sobre o rim direito. Já no chão, voltei a ser atingido por três vezes. Porém, embora a ocorrência tenha sucedido ao principio da manhã, só por volta das três da tarde, eu e os restantes feridos, conseguimos que nos fosse prestado auxílio. Chegava então o dr. Durval Gonçalves (lamentavelmente, este camarada deixou-nos recentemente), médico da Companhia, com as viaturas que haviam ficado em Vila Coutinho, escoltadas por uma secção de militares nativos. O objectivo era evacuar para o Hospital de Tete os militares em situação mais complicada, ou seja, eu e os 1.ºs cabos Sérgio Veríssimo e Conceição Costa. Porém, cerca de 5 km à frente, sofremos novo ataque que atingiu o 1º cabo João Manuel da Silva (era conhecido pelo Lisboa), com um estilhaço de granada que lhe perfurou um pé. Já exaustos, quando chegámos a Vila Coutinho esperava-nos uma avioneta, para nos levar para Tete, ainda a duas horas de distância. Só que, mal tínhamos acabado de levantar voo, reparei que o 1º cabo Veríssimo, transmontano de Freixo de Espada à Cinta (Poiares) já não dava sinais de vida. Mas, por estranho que pareça, já tinham passado mais de 12 horas desde o sucedido e isso leva-me a pensar que, se tivéssemos sido socorridos em tempo oportuno, talvez o desfecho pudesse ter sido bem diferente».

«Quanto à minha situação pessoal – recordou – estive sempre consciente até à chegada a Tete, onde desde logo, me ministraram a terceira dose de morfina. Mas os pormenores das lesões que sofri só os conheci mais tarde, pela boca de uma religiosa espanhola – a madre enfermeira – que me disse em castelhano: «tenemos aqui un buraquito».

«No dia seguinte, acordei todo entubado e deparei com outra enfermeira a meu lado – a irmã Marta – que providenciou que fossem cosidos todos os ferimentos que eu tinha nas pernas, ao todo seis».

Quero salientar também que, na emboscada que aqui refiro, os soldados Armando José Gomes e José Alberto Fazenda Machado, ambos meus camaradas do 1º Pelotão, também pereceram após o primeiro ataque.

in – A Nordeste do Fíngoè – Cap. 13 “ – Agosto de 2016