Publicamos hoje, sem mais delongas devido a sua extensão, o enigma que constitui a segunda prova do nosso torneio de decifração, da autoria do criador do inspetor João Velhote:

TORNEIO “SOLUÇÃO À VISTA!”        

Prova nº. 2           

“Whisky Mortal”, de Rigor Mortis

Tomás Cerqueira era um velho azedo e sorumbático, incapaz de um gesto simpático. Mas tinha tido sempre um agudo sentido para os negócios, nem sempre limpos. Tal engenho, aliado à sua crueldade intrínseca, tinham-lhe permitido ir-se apropriando de uma apreciável fortuna. De pouco lhe valia essa fortuna. Vivendo só, sem familiares conhecidos, desprezava luxos e pouco uso fazia do dinheiro. Uma moradia grande, mas velha, com muitos móveis antigos, mas estragados com o tempo e o uso, eram os seus sinais aparentes de riqueza. Raramente saía de casa. Aí vivia também o único empregado, José Machado, que em muitos anos de serviço se tinha habituado aos humores do patrão.

Visitas, apenas duas. O seu secretário, o Santos, vinha todos os dias úteis e aos sábados de manhã. Tratava da contabilidade, do correio e de alguma carta que o patrão quisesse escrever. A outra era um amigo de antigamente, o Norberto Ávila. A amizade entre os dois já não era nada que parecesse com a desses tempos, mas o Norberto continuava a visitá-lo de quando em vez.

Tomás tinha um hábito arreigado. Sábado ao fim da manhã, quando o Santos e o Machado começavam a folga de fim-de-semana, fechava-se à chave na parte da casa onde estava o seu escritório, o quarto e uma casa de banho. Duas garrafas de whisky, uma dúzia de garrafas de água Perrier e uns iogurtes guardados num pequeno frigorífico que estava no escritório, era tudo o que precisava durante o fim-de-semana. Quando o Norberto o visitava, um domingo ou outro à tarde, encontrava-o sempre bem bebido, mas nunca ébrio.

Naquele domingo, pelas cinco horas, Norberto Ávila bateu à porta, mas ninguém lha abriu. Depois de várias insistências, perante a estranheza do facto, ocorreu-lhe que o Tomás poderia ter tido algum problema de saúde. À falta de melhor, resolveu ligar ao 112.

Minutos depois chegou ao local um carro da polícia. Norberto explicou a situação. Os agentes deram uma volta à casa, espreitando pelas janelas fechadas. Ao olhar pela do escritório do Tomás, viram um homem sentado num sofá de orelhas, que o Norberto identificou como sendo o Tomás Cerqueira. Resolveram forçar a porta de entrada. Entraram em casa e encontraram a porta do escritório fechada à chave, por dentro. Arrombaram a porta.

Tomás estava sentado, cara contorcida, vestígios de espuma e saliva nos cantos da boca retorcida, mãos enclavinhadas nos braços do seu sofá preferido. Morto, seguramente envenenado. Na mesinha ao lado, um telefone, uma garrafa fechada de whisky e outra aberta, ainda com um dedo de álcool, uma colher e um copo, menos de meio com um líquido claro, aparentemente mistura de whisky e gelo derretido. Do outro lado do sofá, em cima do pequeno frigorifico, uma dúzia de garrafas de água Perrier e duas cuvetes de gelo de plástico branco, umas e outras vazias.

O inspetor João Velhote entrou na moradia e dirigiu-se ao escritório. Certificando-se da morte do Tomás Cerqueira, mandou os agentes fazer uma busca pela casa e interrogou o Norberto:

– Amigo do falecido? Qual era o nome dele? E o deu? Costumava visitá-lo com frequência?

– Chamo-me Norberto Ávila. Sim, sou amigo do Tomás Cerqueira desde há muitos anos. Costumo visitá-lo aos domingos à tarde, uma ou duas vezes por mês, não mais. Sei que ele costuma passar o fim-de-semana sozinho em casa, sempre lhe fazia um pouco de companhia.

Regressando a casa, José Machado entrou nessa altura no escritório.

– E você, quem é?

– José Machado, empregado do senhor Cerqueira. Acabo de gozar a minha folga de fim-de-semana. O que aconteceu?

– O seu patrão morreu envenenado, parece que com o whisky que esteve a beber.

– Não pode ser! – exclamou o Machado – As duas garrafas estavam seladas de fábrica quando as trouxe ontem ao fim da manhã! Como sempre, era uma exigência do senhor Cerqueira! Bem como as garrafas de Perrier!

– Perrier no whisky?… – perguntou o Velhote.

– Não exatamente. O senhor Cerqueira apenas põe gelo no whisky, mas esse gelo é feito com água Perrier, aqui mesmo, naquele frigorífico. Trago-lhe as garrafas seladas de whisky e de água e é ele mesmo que enche – enchia, desculpe – as cuvetes e as punha no frigorífico. Era também ele que lavava sempre as cuvetes e o copo…

– Ele costumava beber todos os dias?

– Bebia só no fim-de-semana, mas aí eram sempre duas garrafas de whisky…

O inspetor espreitou dentro do frigorífico: seis iogurtes intocados, no congelador quatro cuvetes de gelo, uma delas meio vazia.

– Quando é que deixou o falecido, este fim-de-semana?

– Saí por volta das onze e meia da manhã. Trouxe-lhe os iogurtes e as garrafas de whisky e de Perrier, que deixei aqui, despedi-me e saí. O senhor Cerqueira ficou ainda com o senhor Santos, que deve ter saído pouco depois, como de costume.

Mandado buscar a casa, o Santos chegou uma meia hora depois. Entretanto, os agentes terminaram a busca, sem encontrarem nada de relevante. Informado da morte do Tomás Cerqueira, o Santos foi também submetido ao interrogatório do inspetor João Velhote.

– A que horas deixou ontem o senhor Cerqueira?

– Minutos depois do Machado. O senhor Cerqueira tinha ido lavar as cuvetes à casa de banho e veio pô-las em cima do frigorífico. Informei-o de que na próxima semana tínhamos de tratar do IMI, despedi-me e saí, enquanto ele foi novamente à casa de banho lavar o copo e a colher. Quando estava a vestir o casaco, no vestíbulo, ouvi-o a fechar a porta do escritório à chave, como sempre fazia.

– Gostava do seu patrão?

– Bem… A verdade é que ninguém gostava dele…

João Velhote mordiscou o lábio superior, expondo os incisivos inferiores por baixo do bigode grisalho, como sempre fazia quando mentalmente resolvia algum caso.

– Isto foi tudo bem imaginado, sem dúvida! Mas não o suficiente… Leve este senhor detido para a esquadra!

DESAFIO AO LEITOR

Caro leitor, até ao próximo dia 30 de julho, responda a estas três questões: Quem mandou o inspetor João Velhote deter? Como foi executado o homicídio do Tomás Cerqueira? Que provas poderá o inspetor apresentar para consolidar a acusação?

Recordamos entretanto que, juntamente com a solução desta prova, deve enviar a pontuação atribuída ao enigma que constituiu a prova inaugural do torneio, da autoria de Daniel Gomes. E, já sabe, não se esqueça de identificar a solução enviada com o seu nome (ou com o pseudónimo adotado).

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