Apesar de já terem passado mais de três décadas desde seu irracional desmantelamento (1988), as populações do nordeste transmontano não esquecem facilmente a utilidade que a Linha do Vale do Sabor tinha para as populações dos diversos concelhos abrangidos, nos municípios de Torre de Moncorvo, Freixo de Espada à Cinta, Mogadouro, Vimioso e Miranda do Douro, directamente afectados, a par de outros que por inerência da sua localização geográfica, também se viam envolvidos activamente no dia-a-dia das ligações que a CP (Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses) deixou de efectuar nos municípios envolventes – Alfandega da Fé, Vila Flor e Macedo de Cavaleiros, cuja actividade económica também dependia desta ligação, entre o Pocinho, no concelho de Vila Nova de Foz Côa, vila de Duas Igrejas, no Município congénere de Miranda Douro. Em boa verdade, foram muitos milhares de pessoas que se viram privadas do único meio de locomoção então existente em todo o nordeste, uma vez que nessa época, possuir viatura própria era ainda uma miragem gigantesca para grande parte da população transmontana.

Um mal nunca vem só

Mas, como segundo um provérbio português, “um mal nunca vem só”, a sanha agressiva de governantes impreparados, para respeitar os direitos dos povos que residiam numa das zonas geográficas mais remotas e cada vez mais desertificadas do País, não ficou por aí. Como se a eliminação dos restantes ramais envolventes do Douro – Vale do Tua (para Bragança), Vale do Corgo (para Chaves) e Vale do Tâmega (até Arco de Baúlhe), a irracionalidade política atingiu também a Linha do Douro, ao tempo a principal ligação ferroviária desta zona com a vizinha Espanha, na Província de Salamanca, através da estação fronteiriça de Barca d’ Alva, no município de Figueira de Castelo Rodrigo. Por consequência, com desmantelamento do troço Pocinho – Barca d’ Alva (hoje está tudo ao abandono), a aspiração da população autóctone levou mais uma “machadada”, perdendo as populações de todo o concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, Mogadouro e Freixo de Espada a Cinta, as suas ligações regulares, embora os mais prejudicados tenham sido os naturais da terra “berço” de Guerra Junqueiro (Freixo), duplamente castigados, uma vez que tinham alternativa quer pelo Sul (Barca d’ Alva), quer pelo norte, pela sua ligação à Estação de Freixo.

Mais recentemente, consta que algumas vozes da sociedade civil se têm levantado anunciando um movimento tendente a promover a reactivação do troço ferroviário Pocinho – Barca d’ Alva, com a finalidade de ligar de novo a Linha do Douro à Província espanhola de Salamanca e regiões limítrofes. Porém, até ao momento, nada destes anúncios tem credibilidade sustentada, podendo mesmo tratar-se de puro “foguetório”, uma vez que sobejamente conhecida a “idoneidade” de grande parte dos políticos nestes temas da nossa “praça”, em assuntos sérios que mexam com a vida diária dos cidadãos. Por isso, o melhor é esperarmos, mas sentados, para não desesperarmos tão facilmente com a mudança das estações do ano.