Quando estamos apenas a uma edição de sabermos quem venceu o concurso de contos “Um Caso Policial em Gaia”, damos a conhecer mais dois episódios d’ “O Retiro do Quebra Bilhas”.

 

“O Retiro do Quebra Bilhas”, de A. Raposo

4º. Episódio – Amores de Milú

Ainda não vos falei do passado da menina Milú. Sei do vosso interesse e por isso deixei os intérpretes a enxugarem-se no Lago do Campo Grande para vos pôr ao corrente da curta mas já exuberante vida da menina Milú.

Maria da Luz fez a escola no Maria Amélia em Lisboa e aos 16 anos teve o primeiro desgosto de amor, dos muitos que vieram depois.

O seu namorado – veio a saber mais à frente – utilizara-a como cortina de fumo pois fora apanhado no Parque Mayer com um colega aos beijos. Uma amiga viera piedosamente avisá-la.

Depois foi um pegador de touros. Era um rabejador. Não dava a cara ao touro, pegava-o pelo rabo, o que evitava levar uma cornada. Salvador era um lindo moço. De cabelo louro escorrido e de risco ao meio. Ao longe na Praça de Touros parecia um pajem. Porém, o namoro durou pouco.

Salvador tornara-se aborrecido. Só gostava de a ter ao colo e quando ela acedia começava a imitar a corneta do inteligente como se fosse a hora da pega.

A primeira vez tivera piada, depois era uma maçada. Mandou-o rabejar para outro lado.

Milú tinha um dia prometido a Santa Engrácia de quem era devota, que levaria a virgindade até à noite do casamento. Como mandavam as regras da Santa Madre Igreja. Queris seguir a vida de Santa Engrácia, a virgem mártir se fosse necessário. Milú ia à missa todos os domingos e até tinha feito a comunhão. Porém os anos foram passando e Milú já com 27 anos começava a ver que não lhe aparecia namorado de jeito.

Um dia em que estava no Café Londres a tomar uma bica foi-lhe apresentado o Sr. Costa, um abastado construtor civil, homem já entrado na idade e que, soube depois, tivera papeira já em adulto, o que influenciou o normal funcionamento dos órgãos reprodutores.

Esta última parte da infertilidade estaria para provar e a sua amiga Manuela que o apresentou acabou dizendo não ter lá muita certeza se a doença provocara mesmo algum distúrbio ao Sr. Costa.

Veio a saber depois que ele tinha mulher e filhos em Tomar, coisa que o próprio não desmentiu quando foram ao cinema Império ver um filme de amor.

Costa abriu o jogo. Queria ter em Lisboa um aconchego. Um ombro amigo, uma amiga que lhe tratasse bem e soubesse dirigir um apartamento mobilado à maneira. Em troca nada pedia senão a sua boa disposição e alegria de viver. Nada mais.

Milú topou o jogo e embarcou no negócio. Com uma condição. Ela queria continuar virgem até à consumação do casamento. Costa fechou o negócio.

Ele tinha uma apartamento na Avenida de Roma, mas raramente estava em Lisboa. Tinha muitos negócios em Cabo Verde e estava a construir um hotel na cidade da Praia.

 

5º. Episódio – Ainda no Lago do Campo Grande

O alferes Sesinando, a menina Milú e o canito Lanudo boiavam no Lago do Campo Grande com grande espalhafato. O barco voltara-se e os remos escaparam-se.

Os tripulantes dos outros barquinhos tentavam aproximar-se e salvar os náufragos.

Milú gritava, o cão gania e o alferes tentava puxá-los para terra.

A queda na água não chegava para afogar ninguém, mas a roupa essa ficava completamente encharca e a colar-se ao corpo. Um casal em terra sorria.

O encarregado dos barquinhos rapidamente foi buscar os três náufragos e levou-os para uma casinha ao lado da bilheteira onde lhes forneceu umas mantas.

O alferes Sesinando culpava-se e pedia desculpa pelo banho forçado mas nada podia modificar. O que estava feito, estava feito. Milú pediu ao encarregado para chamar um táxi e convidou o alferes para ir também.

E lá foram os três embrulhados em finas mantas até à Avenida de Roma.

Chegados ao 1º. andar, Milú indicou ao alferes uma casa de banho. E desenvolta acrescentou: Depois do banho deite-se na cama enquanto eu vou arranjar no roupeiro uma roupa do meu marido que talvez lhe sirva, pelo menos enquanto a sua seca. Eu também vou na outra casa de banho. Esteja à vontade.

O alferes até nem tinha alternativa. Estava encharcado até aos ossos e os sapatinhos novos, de verniz, estavam uma desgraça. Pensou se o marido da Milú não teria também uns sapatinhos tamanho 41… já agora se não se incomodasse muito… pensou e sorriu!

Assim que se lavou e limpou para o quarto da Milú e meteu-se entre os lençóis, obviamente como viera ao mundo. Já estava quase a passar pelas brasas quando surgiu a Milú também sem roupa e correu metendo-se na cama ao lado do alferes.

Milú retirou um braço de dentro dos lençóis e apontou ao alferes:

– Meu amigo, nada de intimidades. Somos só amigos. Ponto final.

O alferes Sesinando sorriu e fechou os olhos. Que mais lhe haveria de acontecer?

Cinco longos minutos se passaram. Num silêncio profundo que pairava no ar alguém meteu a chave à porta.

Lanudo correu ladrando, farejando algo.

O Sr. Costa surgiu no quarto, de mala de viagem numa mão, chave na outra e um olhar basbaque. Abriu a boca estupefacto e balbuciou:

– Mas o que se está aqui a passar?

O cão veio abanar a cauda e ladrar ao dono, feliz.

O Sr. Costa é que não parecia muito agradado.

(na próxima edição será publicado o último episódio)

 

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