Desvendamos nesta edição a primeira parte do último conto do concurso “Um Caso Policial em Gaia”, da autoria de uma das nossas mais brilhantes solucionistas e imaginativas produtoras policiárias que se esconde atrás de um pseudónimo que nos traz à memória uma escritora policial que sugerimos para leituras futuras, a inglesa Samantha Hayes, que escreve sobretudo thrillers psicológicos ambientados na vida familiar e focados em assuntos do quotidiano (“Até que Sejas Minha” é o seu livro de maior êxito até ao momento). Mas a Hayes que assina o conto derradeiro da nossa competição é outra, é nossa, é portuguesa, e apresenta-nos hoje a sua mais recente micro narrativa, que não deixará ninguém indiferente, sobretudo os nossos leitores-jurados. Ora, leiam:

 

CONCURSO “UM CASO POLICIAL EM GAIA”       

Conto nº. 13  

“Janela Indiscreta”, de Hayes

I – Parte

Antes de mais, devo informar o leitor. O que aqui se relata não é um verdadeiro caso policial em Gaia, mas sim um caso quase policial. Isto, porque foi por uma unha negra que a situação não foi denunciada e a polícia chamada a intervir.

Esta é também uma descrição de acontecimentos passados há vários anos e é apenas aquilo que recordo dos factos no momento em que escrevo. Tenho uma memória boa para detalhes sem interesse, mas péssima para aspetos gerais e datas. No entanto, sei que tudo se passou em 2004, ano em que o europeu de futebol arrebatou o país.

E a história começa aqui.

Um trabalho académico levou-me por acaso a Gaia, durante duas semanas. Teria de fazer uma recolha de dados, que se previa diária, no hospital de São João no Porto. Uns amigos, de uns amigos, disponibilizaram-me alojamento gratuito em Gaia. Era uma oferta irrecusável, que aceitei de imediato. Julgava eu que ia ter as tardes livres para vaguear por esta margem esquerda do Douro, zona para mim completamente desconhecida. Os chamados destinos turísticos nunca me entusiasmaram, por isso, com exceção da praia da Granja e da capela do Senhor do Monte − locais para mim misteriosos −, constavam da minha lista os sítios indicados por amigos conhecedores: “onde se come a melhor…”, “uns azulejos únicos”, “um pôr do sol magnifico”…

À chegada, a rua onde fiquei instalada pareceu-me sombria, apesar da luminosidade do dia. Era uma ruazinha sem qualquer movimento, estreita e comprida, percorrida por um muro granítico num dos lados e por casas baixas do outro. Oficinas velhas e armazéns desativados alternavam com casas de habitação, algumas recuperadas. Os prédios estavam alinhados, com um ar bem comportado, talvez por causa da simetria das portas e janelas com bandeira, ou devido à cor repetida das fachadas e dos caixilhos, que me fazia lembrar o tom rubi do vinho do Porto e o verde das garrafas do vinho de mesa. Cores que estavam em sintonia com as bandeiras portuguesas dependuradas por todo lado, num assomo de patriotismo nunca mais visto. A rua desembocava num largo, ironicamente minúsculo. A minha casa ficava mesmo no final, diante de uma pequena mercearia, um posto de venda de tudo, como vim a descobrir. Quem me cedeu a casa, depois do inevitável caloroso acolhimento nortenho, entregou-me a chave e deixou-me duas recomendações, uma delas acompanhada de uma sonora gargalhada trocista: evitar andar sozinha na rua a desoras, por causa dos dealers, e evitar pedir uma bica nos cafés.

Tudo estava bem encaminhado e tranquilo. Nessa altura eu antevia algum trabalho, mas com espaço para usufruir de tempo livre.

No dia seguinte, tudo se precipitou. Os dados que era suposto recolher foram-me entregues numa volumosa pasta A4. A primeira fase do trabalho afinal tinha sido fotocopiada, passando eu à etapa seguinte de seleção e introdução de dados, para posterior tratamento estatístico. Poderia ter regressado à minha cidade, mas nem sei porquê decidi aproveitar a vantajosa tranquilidade de estar sozinha. O dia a dia decorria sem qualquer rotina, condicionado pela resistência ao cansaço. Tanto ficava a teclar pela noite fora e tentava dormir um pouco durante o dia, como me levantava com o nascer do sol. Obrigava-me a fazer pausas regulares, porque sei que é fácil uma pessoa embrenhar-se no que está a fazer, saltar refeições e esquecer o descanso, o que normalmente leva a erros fatais que obrigam a refazer etapas de trabalho. Estas interrupções eram passadas numa janela de sacada, com uma vista privilegiada sobre o pequeno largo e o posto de venda. Este, mais parecia uma antiga mercearia − onde tudo se vende, desde bilhas de gás a agulhas e linhas para costura − funcionava como catedral de consumo para os raros clientes de passagem e para os moradores das três ruazinhas que confluíam no largo.

Ao fim de uma semana consegui descobrir um padrão nos frequentadores da loja/café/taberna. O dono, com o seu bigode farfalhudo, chegava pontualmente às seis da manhã, recebia a carrinha do padeiro. De seguida, com dotes de equilibrista, alinhavava contra a fachada do prédio, um expositor com frutas e legumes e montava a esplanada, três mesinhas antiquadas e alguns bancos de ferro desdobráveis. Então, apareciam os primeiros fregueses para uma bica rápida. Eram trabalhadores da construção civil, que vinham numa carrinha de caixa aberta, ou usavam as duas rodas como transporte próprio. Depois, era a vez das mulheres com ar atarefado, que despachavam as compras ou tomavam café em menos de um fósforo. As reformadas chegavam mais tarde, a partir das nove e meia. Tomavam o pequeno almoço e escolhiam cuidadosamente as batatas, com vagares de quem nada tem para fazer.

Os reformados homens surgiam uma hora mais tarde. Espalhavam-se pelas mesas, e pela gaiola que guardava as garrafas de gás, e disputavam a posse do Jornal de Notícias e dos jornais desportivos. Este grupo regressava à tarde para jogar às cartas ou ao dominó. As discussões e as zangas eram inevitáveis, mas despediam-se amigos até ao dia seguinte.

Durante a tarde, o ritmo da clientela abrandava até finalizar com alguns homens da vizinhança, para um último fino antes de regressarem ao doce lar.

(continua na próxima edição)

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