Num dia destes tive dificuldade em cicatrizar os golpes de uma choradeira imprevista, por causa de uma música que a curiosidade me fez ouvir. Quem disse que este coração de pedra não palpita? Imaginem: o Hino do Divino Espírito Santo, tocado por uma filarmónica micaelense fez o Alfredo chorar!…

Aliás, situações deste género por cá já têm passado muitas vezes, deixando notória a intensidade da dor conforme a passagem do tempo. Não tenho vergonha de dar a conhecer o facto de umas simples músicas de igreja, ou até  mesmo o som de um órgão de tubos serem capazes de lavar-me os olhos. Bem, estas coisas são membranas dos meus pontos fracos, sem eu ter culpa nenhuma das suas existências. O caso de hoje, para além de ter acontecido inesperadamente, iniciou-me a uma pequena meditação sobre os alicerces da fé dispersos por diferentes culturas e religiões, tanto que, acabei construindo um muro de vedação, porque se às vezes custo a entender as minhas, muito menos entenderei as dos outros. Em seguida, agasalhei-me num manto de melancolia. É que, este ano tudo foi, é, e será diferente, por causa daquele micróbio maldito que conquistou o mundo e modificou nossos hábitos, transformando as nossas vidas.

A maior parte das romarias quaresmais não se realizaram, e para muitos a Páscoa não existiu. As coroações das domingas, que alegravam as missas dominicais não chegaram a acontecer porque as misssas da Quaresma ao Pentecostes nem existiram. É que, por serem mesmo chatas as homilias do Padre Albino da igreja de Santo António, era uma alegria chegar ao fim das celebrações eucarísticas para se sentir nas narinas o excelso perfume do incenso, misturado com respingos de água benta, ao som do órgão, que com as vozes do côro se juntava aos Querubins, glorificando o Senhor com o canto gregoriano Veni Creator Spiritus, que em latim cantado dá maior solenidade às coroações, tal como o Tantum Ergo na adoração ao Santíssimo Sacramento.

Toda a gente diz que nunca imaginara viver um instante da história da humanidade como este que estamos atravessando, ao qual o futuro próximo está longe de ser considerado promissor. Vive-se um dia atrás do outro, com a esperança do amanhã ser mais um. Saiu à rua a procissão dos Terceiros, mas a dos Passos foi cancelada. Uma dor de alma veio parar ao peito dos amantes do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Quanto às festas do Espírito Santo, não houve nada para ninguém.

Confesso que nunca fui um grande devoto das festas religiosas entre o povo, onde o profano muito se mistura com o divino. Mas, quer queira quer não, eu faço parte deste povo e nunca negarei a minha identidade. Prova disso é a choradeira que tive ao ouvir o hino que une todos os açorianos. O Hino do Espírito Santo dos Açores. Para diferenciar do Veni Creator Spiritus. Ou: o Hino da Alva Pomba, como é conhecido o cântico açoriano do Divino Espírito Santo numa pequena região brasileira, que por coincidência acabei de reparar que há bem pouco tempo foi descoberta esta curiosidade, e que tem sido estudada a festa do Espírito Santo naquele espaço geográfico. Graças à escritora e jornalista Lélia Nunes, bastante conhecida na imprensa do mundo lusófono, que na série de crónicas Na Esquina das Ilhas, a 26 de Setembro de 2018, o jornal Portuguese Times fez chegar até nós o artigo intitulado “A Festa da Coroa e o Hino da Alva Pomba – Bom Jesus do Itabapoana”.

Dona Lélia, de Florianópolis, estado de Santa Catarina, afirma que ali, no sul do Brasil, o hino do Espírito Santo açoriano não é executado. Não está lá. Acreditando ter razão histórica, visto que os açorianos ali chegaram no século XVIII, e o hino deve ter sido composto pelo Padre Delgado, nos Açores, na primeira metade do século XIX.

Se há controvérsias sobre a autoria do hino, deixo isto ao cuidado dos especialistas na matéria. O que nos interessa agora é perceber como o hino açoriano foi parar a Bom Jesus do Itabapoana, uma pequena cidade do estado do Rio de Janeiro, onde as festas do Espírito Santo tiveram início entre 1760 e 1762. Lélia Nunes, em várias conversas com o pesquisador António Borges sobre as tradições açorianas do Espírito Santo naquela cidade ficou sabendo, e informou-nos, que no princípio a festa era celebrada no mês de Maio, com “Coroação, Cortejo, Missas, distribuição de esmolas e mais solenidades no domingo de Pentecostes.” Mais tarde, a meados do século dezanove, “como a economia do município estava assentada na cultura do café e, como a colheita e venda do café se dava em Julho, a Festa foi transferida para o mês de Agosto, coincidindo com a época de celebração do santo de orago “Bom Jesus” (6 de Agosto). Desta forma passaram a celebrar a Festa do Padroeiro e a Festa do Divino Espírito Santo nos dias 13, 14 e 15 agosto, (…)”, pelos vistos, associando a Assunção e Coroação da Virgem Santíssima, “com grandes festejos, bandeira, coroas e coroações, procissões e tríduos. Enfim, tudo que comumente integra a tradição do Espírito Santo, porém fora do tempo de Pentecostes.” Eis a razão porque a festa ficou conhecida por Festa da Coroa ou Festa de Agosto.

Quanto ao tal Hino da Alva Pomba, Depois de constatar que era o mesmo que se usa nos Açores, embora com tom mais lento, Dona Lélia diz-nos que segundo o seu conhecimento, em terras brasileiras, “somente nas comunidades açorianas das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro” se entoava e cantava o tal Hino nas celebrações do Espírito Santo. Intrigava-lhe o mistério do nome, bem como a sua chegada a Bom Jesus do Itabapoana, se a festa ali nascera em 1762 e o hino foi composto no século dezanove. Mas, com a ajuda do pesquisador Antônio Soares Borges o mistério foi desvendado: “Só podia ser coisa de açoriano ali chegado. E foi… Padre António Francisco de Mello, micaelense, nato em 27 de Abril de 1863 na Achada Grande, Concelho do Nordeste, filho de Mariano Francisco de Mello e Rosa Pimentel de Mello, chegou a Bom Jesus do Itabapoana com Provisão de Vigário em 18 de junho de 1899, acompanhado da irmã Maria Júlia de Mello e de uma amiga da família de nome Cândida.” Foi ele que introduziu na festa o hino açoriano, que ficou a ser ali conhecido por Hino da Alva Pomba.

Segundo consta, o Padre António Francisco de Mello Deixou uma grande marca nesta região brasileira. Além de ter sido um grande líder espiritual, semeou e cultivou ali bastante açorianismo. Foi poeta, escritor e colaborador de vários jornais. Faleceu a 13 de Agosto de 1947, em plena festa do Divino Espírito Santo, em Bom Jesus do Itabapoana.

Como o propósito desta crónica se destinava a dar testemunho da saudade, sem o autor ter dado por isso ela atravessou as Américas do Norte ao Sul, sem sair do eixo das origens. Porém, sente-se preocupado, a pensar que a qualquer altura poderá haver um possível atentado, um processo criminal, ou uma acusação discriminatória, da parte destes movimentos anti-racistas que andam por aí nos nossos dias. Há que conservar a alva pomba no hino, na bandeira, na coroa e no ceptro. A não ser, que se arranje uma pomba de cada cor para cada um destes objectos, afim de satisfazer toda a gente.

Haja saúde e Viva o Divino Espírito Santo!

 

Alva Pomba, Pomba Alva,

Que os sete dons derramais,

Sem eles ninguém se salva,

Com eles vivemos mais.

 

Ó minha doce pombinha,

Alegria dos cristãos,

Fazei que esta gente minha

Saiba amar-se como irmãos.

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