A Polícia Municipal de Gaia, aliada a uma rede de voluntários, trabalha, diariamente, num armazém cedido pelas Águas de Gaia, na UTIC, para fazer chegar a generosidade gaiense ao povo ucraniano. No dia 18 de março, saiu um camião da empresa Luís Simões, carregado de bens de primeira necessidade, com destino à Polónia. Produtos de higiene e bens alimentares não perecíveis são sempre bem-vindos, no entanto, este ponto de recolha não está, neste momento, a aceitar roupa, água e leite.

 

 

No dia 18 de março saiu mais um camião carregado de bens essenciais de Vila Nova de Gaia, com destino à fronteira da Polónia com a Ucrânia. O município de Gaia, essencialmente representado pela Polícia Municipal, e uma rede bastante ampla de voluntários, trabalha, árdua e diariamente, num armazém da UTIC, cedido pela empresa municipal, Águas de Gaia, para separar, catalogar e encaixotar os milhares de donativos, que os gaienses continuam a fazer. O Jornal AUDIÊNCIA acompanhou o carregamento de um camião, teve a oportunidade de ver como funciona a logística dentro do armazém e, ainda, conseguiu falar com uma voluntária de nacionalidade ucraniana, assim como com Telmo Moreira, Comandante da Polícia Municipal de Vila Nova de Gaia.

O agente de autoridade começou por explicar que, inicialmente, a envolvência da força de segurança “nasce da espontaneidade de alguns elementos da Polícia Municipal, que se dirigiram ao Seminário Cristo Rei, para perceber, individualmente, se precisavam de ajuda e em que termos”. Lembre-se que o Seminário Cristo Rei foi das primeiras instituições gaienses a mobilizar-se para a recolha e a oferecer as suas instalações, para armazenar os donativos, no entanto, o espaço começou a ficar pequeno, devido à enorme generosidade gaiense. Além disso, o Seminário começou, também, a preparar-se para receber refugiados. “O Seminário Cristo Rei precisava de aliviar as suas, porque começou a receber população que vem de lá, e que precisa de cuidados primários e de uma atenção diferente, e o número de pessoas que estavam envolvidas naquela operação, bem como o entra e sai, não seria benéfico para a operação seguinte, que era receber pessoas”, mencionou o comandante da Polícia Municipal. Foi assim que, após a disponibilização do armazém pelas Águas de Gaia, voluntários e Polícia Municipal, mudaram-se para a UTIC. Pela mesma altura, ter-se-á dado a assinatura do protocolo entre os municípios do Porto, Gaia e Matosinhos, para a ajuda ao povo ucraniano, e a envolvência da força de segurança municipal começou a ser mais direta e em maior escala.

Olena Pasenko acompanha a ação enquanto voluntária desde o Seminário Cristo Rei. Na verdade, Olena começou por contactar uma associação de Lisboa, que já apoiava a população ucraniana desde a primeira invasão, ou seja, há oito anos. Depois, quando percebeu que o Seminário em Gaia estava a mobilizar-se para a recolha de bens, juntou-se a eles. Olena Pasenko é ucraniana, mas vive em Portugal há 20 anos. Ainda assim, desde logo, percebeu que o seu conhecimento acerca da língua, por exemplo, poderia ser uma mais-valia. “Nós tivemos uma comunidade muito grande ucraniana a juntar-se para tentar ajudar e fazer o envio dos primeiros camiões humanitários que, obviamente, não tinham esta estrutura que temos aqui, até porque não tínhamos os mesmos meios, os empilhadores, os porta-paletes e tudo mais, mas nós percebíamos que a situação era urgente e que precisávamos de fazer o envio o mais rápido possível, porque havia zonas da Ucrânia que já estavam a ficar cercadas e com escassez de bens”, contou Olena, sobre os primeiros dias e os primeiros camiões de bens que foram enviados.

A necessidade de organização também era urgente. “É muito difícil quando o camião chega lá e é descarregado, as pessoas não terem noção do que vai dentro das caixas, ou ter só um papel a dizer que é comida”, explicou a voluntária. Hoje, todos os produtos são separados, contabilizados e, nas caixas, vai discriminado exatamente o seu conteúdo e quantidade. Contudo, tudo vai escrito em três idiomas: português, inglês e ucraniano. “O procedimento que nós fazemos, permite que, quando chegamos junto à fronteira, tenhamos um corredor verde, para se efetuar de imediato a descarga de mercadoria, perfeitamente identificada, para os locais para onde vão seguir, quer para os locais onde vão ficar armazenados”, disse o comandante.

A medicação foi, e é, outra das grandes carências da Ucrânia. A pensar nisso, e numa ação da Polícia Municipal, foram três carrinhas entregar medicamentos e equipamentos médicos à fronteira. Mas, efetivamente, a separação da medicação, é um pouco mais complexa. “Nós recebemos alguma medicação muito específica e foi necessário fazer uma triagem e perceber o que eram aqueles medicamentos. Para isso, tivemos o apoio de médicos, enfermeiros, químicos, biólogos, das mais diversas áreas, que nos ajudaram nessa divisão”, referiu Telmo Moreira, um dos polícias que participou na viagem. “Há, efetivamente, medicação e instrumentos de cirurgia que são necessários em hospitais de campanha e hospitais que, neste momento, estão a receber os feridos, não só militares, mas civis também, todavia há aquela medicação mais básica, como o paracetemol, o brufen, que também são necessários para as crianças que estão a ficar doentes, porque está muito frio e elas passam muito tempo na rua”, também explicou Olena Pasenko.

 

Gaia não está a aceitar roupa, água e leite

Neste momento, o ponto de recolha de donativos da UTIC não está a aceitar vestuário, água e leite. “Nós temos muita roupa e, neste momento, não é uma necessidade. Não quer dizer que não venha a ser, quer para as pessoas que lá estão, quer para as pessoas que estão a chegar a Portugal. Estamos num trabalho árduo de fazer a separação de roupas, por tamanhos, idades, criança, adulto, homem, mulher, tipos de vestuário, para acondicionar devidamente, de forma a podermos ter no armazém algum tempo, para quando surgir essa necessidade, estarmos preparados”, afirmou Telmo Moreira. Quanto à água, o chefe da Polícia Municipal de Gaia explicou que o custo de envio de um bem tão volumoso e pesado não compensa, comparativamente ao preço que custa em países mais próximos, como a própria Polónia. Já no que diz respeito ao leite, trata-se, também, da questão do tempo que os bens podem ficar armazenados nas caixas, bem como as mudanças de temperaturas, que podem alterar as propriedades do mesmo.

Tudo o resto é necessário e pode ser deixado no armazém da UTIC, seja por empresas, instituições ou a título pessoal. “Bens não perecíveis, como as salsichas, atum, arroz, massa, tudo o que seja higiene, como champô, gel de banho, cremes de crianças, halibut, betadine”, foram alguns exemplos dados pela voluntária Olena.

 

Ser voluntário em Gaia

Além de 27 membros da Polícia Municipal de Vila Nova de Gaia, dos quais, 25 agentes, uma técnica superior e um assistente técnico, todos os dias, dezenas de voluntários vão ajudar na organização e separação dos donativos. “A questão da rede de voluntários foi um assunto que tivemos de resolver, porque acidentes ou incidentes podem acontecer dentro de um armazém. Há uma Bolsa de Voluntários, que é gerida pela Ação Social do município. As pessoas inscrevem-se online, para a autarquia poder ativar o seguro de acidentes pessoais e fazer uma escala, digamos assim, de rotatividade, que permita, por exemplo, não ter, no mesmo dia, 50 voluntários, e, no dia seguinte, não ter nenhum”, esclareceu o comandante da Polícia.

 

Ajudar quem está na Ucrânia e quem chega a Portugal

O camião que saiu de Gaia no dia 18 de março, foi o segundo a sair da UTIC, no entanto, Telmo Moreira garantiu que, nas próximas semanas, está programado saírem mais. “A nossa perspetiva é saírem três ou quatro camiões e ficarmos com o armazém em liquidação, digamos assim, e prontos a receber novos bens”, elucidou o chefe da força de segurança gaiense. Além dos camiões, também foram encaminhadas as três carrinhas de medicação para a Polónia.

Para Portugal, a Polícia Municipal de Vila Nova de Gaia, também já enviou alguns bens. “Houve um pedido da Câmara da Azambuja, de vestuário, para 140 pessoas que chegaram, e nós tínhamos isso em armazém, era sobretudo roupas de cama, e rapidamente fez-se lá chegar, com o apoio da empresa Luís Simões”, afirmou o comandante. Além disto, estão preparados alguns “kits de intervenção primária e imediata” que consistem em pequenas caixas com alguns bens, como produtos de higiene pessoal, bolachas, sumos, água e pensos higiénicos, para o caso de ser necessário para os refugiados, que chegam a Vila Nova de Gaia, muitos deles durante a noite.

 

Ver a guerra no seu país, ao longe

Olena Pasenko está em Portugal, com os pais, há 20 anos. No entanto, ainda tem muita família, nomeadamente o irmão, a cunhada e um sobrinho bebé, na Ucrânia, e estes dias não têm sido fáceis. “Para mim tem sido angustiante, acho que é o que posso dizer, angustiante e revoltante. Eu sou uma pessoa que acredita no bem e não consigo assimilar aquilo que está a acontecer, às vezes parece que, simplesmente, estou a viver um pesadelo e estar envolvida nesta organização traz-me um pouco de tranquilidade, saber que, durante umas horas, esqueço-me um pouco da realidade e só vejo caixas e paletes. Estamos todos a trabalhar para o mesmo bem, isso é importante para mim, é tipo terapia”, contou Olena.

O Jornal AUDIÊNCIA pôde presenciar a cara de felicidade da voluntária quando chegou ao armazém e viu as preparações do envio. “Ver o camião a ser carregado é incrível, é aquela sensação de que aquilo, agora, vai mesmo para onde é preciso. Fazer só caixas não é o objetivo, o objetivo é fazer isto chegar às pessoas, que precisam”, concluiu Olena.