O Orfeão de Valadares comemorou 92 anos de existência e de promoção do desenvolvimento da cultura, da arte, do recreio, da prática do bem e da instrução. Valentina Peres é presidente da direção desta coletividade e falou, em entrevista ao AUDIÊNCIA, sobre associativismo, sobre os desafios da direção e sobre os 92 anos de história da coletividade.

A Valentina está à frente dos destinos do Orfeão de Valadares. Qual é a história da sua envolvência nesta coletividade?

A primeira vez que eu fui sócia do Orfeão era uma jovem. Aliás, eu tinha 18 ou 19 anos a primeira vez que eu entrei aqui. Na altura, na direção estava o Artur Gandra, que era um jovem, e toda a direção em si era composta por jovens e isso, realmente, na altura atraiu uma camada jovem muito grande. Tínhamos muitas iniciativas que na altura dinamizaram um grupo grande de amigos, que se manteve firme aqui. Depois cada um casou, teve os seus filhos e isso criou algum afastamento, mas a verdade é que quem gosta, gosta, e por muitas voltas que a vida dê e por muitas voltas que nós próprios tentemos dar à nossa vida, por vezes ela puxa-nos para os sítios onde nós fomos felizes e a verdade é que nessa minha juventude eu fui feliz nesta casa. E eu vim para aqui não com funções na direção, mas a nível profissional, portanto dava aulas aqui no Orfeão e a verdade é que fui de novo emprenhada neste espírito que é o associativismo, porque tem de se gostar e quem gosta, gosta. O associativismo é, como eu digo, o que me rejuvenesce todos os dias e que faz com que, realmente, a luta não seja uma luta sazonal, mas que seja uma luta diária por esta coletividade.

Já sentiu algum tipo de pressão pelo facto de ser mulher?

Nunca senti qualquer tipo de hostilidade nem qualquer tipo de pressão pelo facto de ser mulher. Primeiro porque quem me abriu a porta foi outra mulher. Esteve a Teresa Lopes também como presidente da direção e entretanto como presidente da Assembleia, que até hoje se mantém. Portanto, já uma mulher anteriormente tinha estado à frente dos destinos da coletividade e ela serviu-me como exemplo e ainda hoje me serve como exemplo. É uma mulher como eu, somos as duas mulheres destemidas e determinadas. A vice-presidente da minha direção também é uma mulher, é a Sofia Ramos. Estiveram três homens na fundação e neste momento estão três mulheres à frente dos destinos da coletividade. Não somos diferentes. Acho que conseguimos, não fazendo a diferença, mas sim mantendo o que está a nível estatual, portanto o que está a nível dos estatutos e permanecendo com os ideais, se calhar, com uma forma mais dinâmica, por sermos mulheres, com uma gestão se calhar mais caseira, mas de forma alguma eu senti por parte dos sócios e dos sócios mais antigos qualquer tipo de diferença, porque ainda hoje, por incrível que pareça, são esses sócios mais antigos que vêm todos os dias à hora do almoço aqui à coletividade jogar o seu bilhar e ler o seu jornal, que me dão força e que em alguns momentos em que tive vontade de desistir, foram eles que estiveram ao meu lado e me deram algum colo por forma a eu me manter e querer tomar de novo as rédeas do Orfeão.

O Orfeão de Valadares celebrou 92 anos de existência. O que representa este macro e como foi comemorado?

Para a coletividade significam anos de manter os ideais que nos foram entregues no dia em que se fundou esta casa. A ideia da fundação do Orfeão de Valadares surge de três grandes homens, que são os nossos fundadores, Dr. Ângelo Pereira Gandra o Prof. Amadeu José dos Santos e o Prof. Aquino de Sousa e Cunha, que resolveram que Valadares necessitava de um local, onde permanecesse a cultura, o recreio e o desporto e assim foi e assim se tem mantido ao longo destes 92 anos. Com toda a certeza não foi fácil, houve alturas de melhores anos e outros nem por isso, mas eu penso que qualquer presidente da direção que passe por esta casa sabe que o Orfeão não pode morrer, o Orfeão tem que permanecer por todo o tempo. De uma forma geral, foi um mês muito intenso como tem sido ao longo dos anos e ao dos tempos, mas este ano de uma forma completamente diferente e extraordinária. Nós fizemos o nosso hasteamento da bandeira no primeiro sábado de abril e este ano com a inauguração das novas instalações e da requalificação também do edifício. Estiveram presentes, entre muitas entidades, de maior relevo, para nós, o presidente da Câmara Municipal de Gaia, o Professor Doutor Eduardo Vítor Rodrigues e também o presidente da União de Freguesias de Gulpilhares e Valadares, o senhor Alcino Lopes. A importância destas presenças advém do facto de terem sido estes dois grandes homens que realizaram o sonho que o Orfeão vinha a tentar concretizar ao longo de décadas. A verdade é que o sonho concretizou-se e estes dois homens, que me deram as mãos, estiveram presentes num grande momento para a nossa coletividade. É de realçar a importância destes dois homens e destas duas instituições que estão a eles ligadas. Sem eles nada disto seria possível. A Junta de Freguesa de Gulpilhares e Valadares financiou a 100% o projeto e as obras de ampliação e de requalificação foram subsidiadas a 100% pela Câmara Municipal de Gaia. Claro que, o trabalho que o Orfeão teve ao longo dos anos foi algo que ponderou a decisão que estes dois homens tiveram em estarem connosco e em apoiarem o nosso trabalho e em acreditarem, porque eu acho que eles acreditaram em nós e nós agora temos de fazer com que eles nunca se desiludam pela nossa parte. Foram homens importantes e vão ficar para todo o sempre na história deste Orfeão. Eu penso que foi o acreditar na cultura, foi o acreditar que realmente aqui passam-se valores, não é só cultura, passam-se valores, passam-se princípios, passa-se a educação, porque nós aqui formamos jovens também, uma vez que grande parte destes associados são jovens, são crianças, são adolescentes e aqui, se calhar, conseguimos incutir algum gosto pela música, pela dança, torna-los, de alguma forma, pessoas ativas, pessoas que acreditam que o associativismo pode vir de raiz e pode crescer com eles por todo o sempre.

De que forma é que as obras de ampliação e de requalificação do edifício sede concederam mais valências à coletividade?

Nós já tínhamos diversas valências antes da ampliação, mas a verdade é que essas próprias valências chegavam cá, mas não conseguiam crescer porque estavam limitadas a nível de espaço físico. Agora com a ampliação temos, neste momento, a decorrer uma Escola de Dança, que inclui desde ballet clássico, ballet contemporâneo, barra no chão, jazz, hip hop e encontra-se em fase de crescimento, porque agora em setembro, com a abertura do nosso novo ano letivo com toda a certeza que mais atividades surgirão dentro desta Escola. Também temos uma Escola de Música, que conta com aulas de piano, aulas de guitarra clássica, aulas de bateria e percussão, aulas de flauta transversal e aulas de canto. Assim como uma Escola de Atores, que funciona ao sábado com uma parceria com o Daniel Rizzi, que é um ator brasileiro da Globo, que está cá, neste momento, portanto é uma coisa nova que está agora a dar os primeiros passos. Também temos um Grupo de Cordas, um Grupo Etnográfico, uma sala de estudo, um Grupo Coral Adulto e um Grupo Coral Infantojuvenil. Na parte desportiva, temos o ténis de mesa, com desporto adaptado, que tem-nos trazido, todos os anos, um primeiro lugar, portanto sempre com grandes classificações, com um grupo sénior e um grupo de veteranos também.

Quais são as suas perspetivas para o futuro do Orfeão de Valadares?

Num futuro imediato, porque foi uma promessa que nos foi deixada aqui pelo presidente da Câmara Municipal de Gaia, a terceira fase das obras, portanto a requalificação da parte frontal do edifício, a nível de telhado, da requalificação do piso e de toda a estrutura interna e exterior, isso foi algo que nos foi prometido e que já está, neste momento, a ser formalizada esta terceira fase, que muito em breve terá início. Também nos foi, aqui, prometido para o ano de 2020, algo que o Coral vem pedindo ao longo dos tempos, que é um piano de cauda e foi-nos prometido 50% da verba pela Câmara e 50% da verba pela União de Freguesias de Gulpilhares e Valadares. Portanto, esse piano irá dar apoio não só à Escola de Música, mas também aos dois corais. Depois, o grande desafio desta direção será manter cada vez mais ativo o nosso Orfeão. Nós temos, atualmente, ativos, a pagar cotas, cerca de 300 sócios e pretendemos aumentar o número de associados, porque as valências automaticamente também vão aumentar as atividades e a nível de horários, como temos salas independentes para cada uma dessas atividades, poderemos, portanto, duplicar, até as próprias atividades e a finalidade será, também, tentar não digo duplicar, porque se calhar era ser demasiado bom, mas não quer dizer que não seja um objetivo concretizável, mas nem que fossem mais 100 ou mais 200 sócios num próximo mandato, seria, para nós, ideal e isso a nível de futuro próximo será o que a direção neste momento tem planeado e fazer com que os sócios se mantenham aqui e que se continue a ouvir, dentro desta casa, dizer que esta é a segunda casa de cada um deles.

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