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PINTURA: O AMOR DE ONTEM, HOJE E AMANHÃ

Pedro Moreira é natural da Madalena. Lembra-se de, ainda criança, não conseguir ir a uma mercearia com a avó sem pedir um bloco ou lápis de colorir e de se zangar quando os outros não percebiam o que tinha desenhado. A paixão pela pintura foi crescendo e no final do seu 9º ano de escolaridade, foi convidado a expor na escola que frequentava. As recordações desse dia são fantásticas, no entanto, Pedro Moreira garantiu, em entrevista exclusiva ao Jornal AUDIÊNCIA, que não foi fácil ser um jovem no mundo da arte. Seguiram-se muitos nãos, mas o pintor não baixou os braços e foi crescendo no meio artístico. Hoje, sente-se realizado, mas garante que é difícil viver só da pintura. Os sonhos esses, existem sempre, mas o artista gaiense confessa que, com a pandemia, aprendeu a viver com mais calma e a não planear a vida com muita antecedência, mas antes a viver cada dia intensamente.

 

 

 

 

Em primeiro lugar, vamos recuar e tentar perceber quando e como é que nasceu este gosto pela arte e, mais especificamente, pela pintura?

Eu tenho a ideia de, com seis ou sete anos, ficar chateado quando, por exemplo, na pré-primária, e depois na primária, fazia um ou outro desenho em que eu via ou interpretava uma coisa, e tanto a professora, como os meus pais, e o resto da minha família viam outra coisa. Ficava super chateado. Ficava revoltado porque eu tinha desenhado uma coisa e eles não viam e não percebiam aquilo, isso revoltava-me um bocado. Desde sempre que gostei da área, tanto a nível de colagens, como de pintura. Basicamente, pintura, esse, sim, sempre foi aquele bichinho que tinha dentro de mim e não podia entrar, na altura, numa mercearia. Como vê, a Madalena nestes 30 anos cresceu, mas cresceu a nível de edifícios, a nível local e de comércio, pouco ou nada se acrescentou. Pronto, agora temos dois hipermercados, na altura tínhamos aquelas pequenas mercearias. Eu lembro que, mesmo nas mercearias, eu não podia ir com a minha avó ou os meus tios, porque eu tinha que sair de lá sempre com um bloco e com uma caixa de crayons, para pintar, ou seja, o bichinho sempre existiu. Depois, na altura, comecei a pintar e a experimentar tintas, então, aí, entrei numa casa de material artístico, eu era cliente da Sousa Ribeiro, com a famosa dona Emília, uma senhora já com muita idade, eu subia ao segundo andar e ficava lá horas. Não havia dinheiro que chegasse para satisfazer o capricho, porque, atenção, a pintura é um capricho caro.

 

Mas a família sempre foi apoiando este gosto, que, inicialmente, era um hobby?

Sim, sempre. Inicialmente era um hobby, mas, depois, na altura que eu quis, estudei aqui em Valadares, fiz aqui o secundário. A minha primeira exposição de pintura individual foi quando eu saí do 9º ano, porque em Valadares, a certa altura, realmente, perceberam que havia aqui alguma habilidade para a parte artística, e quando eu decidi sair do 9ª para o 10º ano e ir para a Escola Artística Soares dos Reis, fui convidado pela Escola Secundária de Valadares para fazer lá uma exposição. Eu tinha organizado, um ano antes, uma exposição do Infante Dom Henrique, dos 500 anos, na altura, do Infante Dom Henrique, a nível da disciplina de história, porque sempre gostei muito da parte de organizar isto, organizar aquilo, eu nunca fui muito de estar parado. E, depois dessa exposição do Infante, quando eu digo que, realmente, quero ir para uma escola artística, surgiu o convite de fazer uma exposição de pintura. Lembro-me que a minha primeira exposição de pintura foi com uma mistela de tudo, porque eu tinha poucos quadros. Então, o que é que eu tinha na altura? Tinha quadros, tinha caixinhas de madeira pintadas, a exposição foi no Natal, foi a 1 de dezembro, tanto que, para mim, a data 1 de dezembro diz-me muito, tento fazer sempre exposições que apanhem o dezembro, para comemorar um bocadinho essa data. E, então, eram caixas de madeira pintadas, eram quadros e peças de barro, aquelas peças que, às vezes, íamos às feiras e comprávamos, um pote ou um vaso. E foi a minha primeira exposição, essa foi a minha primeira exposição.

 

Que memórias tem dessa exposição?

Fantásticas memórias. Foi muito bom. Na altura, havia aquela parte, área escola, acho que era assim que se chamava no meu tempo, já não me lembro bem, e havia o projeto de uma rádio na escola. Aquilo era giríssimo porque dava-se a notícia da exposição. Os colegas, ainda mantenho amizades com eles, o que é engraçado, porque eu tenho amizades que vêm desde a minha infância, com algumas pessoas que acompanham este percurso. Ainda agora estou a trabalhar com uma amiga que conheço há 30 anos, a nível de decorações, ou seja, sempre fui muito próximo, e quando gosto, gosto, e mantenho ali as relações. Eu acho a vida não tem sentido sem esta parte da relação humana, e há muita gente que se esquece disso. Eu, ainda há pouco tempo, falei desse tema com a exposição que fiz a exposição no Castelo da Feira, que se chamou “Ser”. Esta grande exposição, grande a nível de trabalhos, eu penso que foi das exposições em que, apesar de eu ter feito uma retrospetiva do meu trabalho de há 20 anos para cá, porque quis assinalar os 20 anos da última exposição no Castelo de Santa Maria da Feira, a última fase de quadros novos, eram quadros bastante fortes. E bastante fortes porquê? Porque, com a situação do Covid, eu fiquei muito mais em casa, fiquei com muito mais tempo e, realmente, refugiei-me na pintura. Quando foi preciso dar um título à exposição, pensou-se muito e, a certa altura, havia montes de nomes e numa conversa, por acaso, no café, foi quando eu disse que a exposição ia ter apenas um nome, “Ser”. A exposição tem de ter isto, tem de ser aquilo, eu pensei que não, a exposição é o ser. E é o ser porquê? Porque todos nós temos de ser alguma coisa, ou temos que fazer por ser. Queremos isto, queremos aquilo, queremos alcançar aquilo, e, muitas das vezes, queremos ser tanta coisa e não somos nada. E não somos nada, exatamente, chegando à parte do relacionamento humano com o próximo, porque cada vez mais estamos uma sociedade individualista, em que as pessoas se atropelam umas às outras para atingir os seus objetivos, em que se esquecem da parte humana. A pintura tem que ser isto, tem de apelar à consciência das pessoas, porque, por muito que gostem ou não da pintura, porque eu costumo dizer que a minha pretensão não é agradar, não é ter uma boa crítica de arte, mas que é a minha pintura mexa com alguém. Que mexa no sentido de, pelo menos, captar o olhar da pessoa. No momento em que a pessoa olhar, vai passar uma mensagem, seja ela qual for.

 

Pode é ser diferente consoante quem olha, não é?

Exatamente, pode ser diferente, mas mais passar uma mensagem. A pintura, seja a minha, seja de outro colega meu é exatamente isso, é um meio de transporte que vai comunicar com terceiros através de imagens ou de cores, cromática, seja o que for. E, ao transmitir, que apele. É o que eu digo, tem de apelar à consciência de alguém. Eu fico muito contente quando uma criança vai a uma exposição minha com os pais e para à frente de um quadro meu para tentar fazer interpretações, porque as crianças, por muito que sejam treinadas, são das coisas mais puras, e dizem tudo, não estão com filtros, e isso é muito bom.

 

Vamos recuar, novamente, aos seus tempos de juventude. Falávamos da tal exposição que fez no nono ano, depois foi, então, para a Escola Soares dos Reis. Que outras exposições fez nessa época?

Eu tive a da escola, depois tive uma que fiz, aqui, na Junta de Freguesia da Madalena, ainda era no Salão Nobre. Seguiu-se aquela fase de exposições nos postos de turismo, tanto do Porto como de Gaia. Tudo antes dos 18 anos. Eu ainda estudava. Agora recuando, assusto-me, porque já passou muito tempo.

 

Quando começou a entrar neste mundo e a procurar sítios para expor, sendo que era tão jovem, que dificuldades encontrou pelo caminho?

Foram enormes. Primeiro, é assim, a nível de apoio para a parte artística, esqueça, não existe, principalmente para a pintura. Eu acho que ainda se vai tendo alguns apoios para a dança, a música, mas para a pintura é muito complicado. Depois, mais complicado se torna, uma galeria, ou mesmo uma Câmara, eu já nem falo só em galerias porque para elas, pronto, eu acredito que seja complicado, elas já têm os seus artistas residentes. Agora, uma Câmara, pelo menos, devia analisar o que aquela pessoa vai apresentar, devia. Mas não. Olham-nos de cima a baixo, julgam-nos pela idade que temos, e manda-nos aguardar. Foi o que aconteceu. É assim, foi o que aconteceu, mas eu nunca baixei os braços. Acabei por fazer. Eu com 16 anos, penso que com 16 ou 17 anos, lembro-me que existiu o Dia Mundial do Turismo, ainda o Cais de Gaia era o Parque de Exposições de Gaia. Ainda não era esta obra que é hoje, era um pavilhão enorme. E eu, nessa altura, sou um dos artistas convidados para estar a pintar ao vivo. Há notícias dessa época, que lá está, assustam-me por ver quanto tempo passou, apesar que é como eu estava a dizer, acho que ainda tenho um caminho enorme pela frente. Há muita coisa que eu quero fazer, ainda, mas o não cruzar os braços e o insistir, realmente, leva a que, depois, as portas se comecem a abrir. Depois, eu tive a felicidade de me cruzar com pessoas muito sensíveis à parte artística e que me ajudaram imenso.

 

Durante esta fase houve sempre apoio familiar? Nunca lhe disseram que a arte não era uma área segura?

Disseram, claro, como é lógico. Os meus pais, especialmente o meu pai. E, é assim, estamos a falar de que, apesar de eu só ter 43 anos, isto há 20 anos atrás, a arte ainda era mal vista, pensava-se que o futuro de um pintor era acabar nas ruas a pintar quadros. Um pouco aquela imagem parisiense do pintor de rua. Os meus pais sempre me questionaram, porque não arquitetura? Porque não outra área ligada à parte artística? A pintura é mais complicada. Sim, alertaram-me para isso. Eu penso que o meu pai, essencialmente ele, só se rendeu em 2000, 2001, tinha eu os meus 20, 21 anos, quando fiz a minha primeira exposição no Castelo de Santa Maria da Feira.

 

Talvez por ter sido a primeira com grande alcance?

Eu penso que não foi só o alcance. É assim, eu já tinha tido exposições que considero bastante importantes e que foram fantásticas. Na altura, eu penso que o que assustou a minha família foi ter a parte da Presidência da República presente numa exposição minha. Isso assustou, mas a mim não. Primeiro, porquê? Foi uma luta. Eu posso dizer que quando fui para Santa Maria da Feira para expor, eu olhava para o Castelo e achava muito bonito, mas sempre disse a mim mesmo «ganha juízo Pedro, calma, também não é agora que vais expor agora no Castelo». E havia um edifício abaixo do Castelo, também muito bonito, que era o Orfeão, assim uma casa muito gira, e na altura que eu fui para Santa Maria da Feira, até fui procurar o Orfeão. E, lá está, ao contrário do que tinha acontecido em anos anteriores, de me fecharem as portas, quando eu vou para expor no Orfeão, encontro uma pessoa que quando olha para o meu trabalho diz «Não, porque é que não expões no Castelo?». A minha resposta na altura, e estamos a falar de uma pessoa que eu admiro e respeito imenso, que é o Dr. Fernando Sampaio Maia, o Conde de São João de Ver, eu disse «acha?», e ele respondeu-me «então porque não?». E é mesmo isso. Porque não? E desde essa altura que eu costumo dizer uma coisa que é que nós o não, realmente, temos garantido na nossa vida. Por isso, o resto, é lutar. O não já sabemos que temos como garantia. Já tinha ouvido tantos. Pronto, depois, na altura, falou-se com a Comissão. O Castelo é gerido pela Comissão de Vigilância do Castelo. O ano passado, quando eu fiz lá, novamente, a exposição, o Castelo está a ter a passagem de parte da gestão para a Câmara, mas, foi uma experiência muito gira.

 

Abraçou totalmente o desafio? Dizia há pouco que, ao contrário dos seus familiares, nunca se sentiu assustado.

Nada, absolutamente nada. Como em nada que tenho feito. Eu tinha dito que até aos 40 anos gostava de ter a minha carreira artística realizada. Consegui aos 25. Em 2005, quando me surgiu o convite para expor em Barcelona, eu nem hesitei. Na altura não era para expor em Barcelona, era para expor em Santiago, na Semana Santa. Eu expus em Barcelona em maio de 2005. Antes disso, eu tinha tido cá uns espanhóis, no Porto, que tinham visto alguns trabalhos meus e perguntaram-me se eu não queria expor em Santiago na Semana Santa. Aí sim, achei que tinha sido um convite de cortesia, porque parece bem. Disse que sim, mas como nunca mais me disseram nada, eu nada disse. Na semana antes da Páscoa ligam-me a perguntar se já tinha tudo preparado. Eu disse que não tinha nada preparado. Pronto, e na altura foi o que eles disseram, que se eu não queria expor naquele momento, eles iam fazer uma coletiva em Barcelona e que gostavam que eu fosse com eles. Nessa altura eu já não hesitei, e fui sozinho para Barcelona. Eu e cinco quadros. Foi um sucesso. Aí sim, assustei-me um bocadinho. Em Barcelona, assustei-me um bocadinho. Eu penso que foi das primeiras vezes que me puseram com algumas lágrimas, em público, porque a crítica foi muito boa. Pessoas que não me conheciam de lado nenhum, conseguiram captar exatamente a essência da minha pintura e conseguiram chegar a algumas coisas que eu já fazia, nomeadamente falam das tonalidades de azul que eu uso nos quadros e, há um crítico de arte que faz um texto em que fala da viagem azul ao mundo de Pedro Moreira. E com 20 e poucos anos, no meio de artistas com idades um bocadinho mais elevadas, ter uma crítica assim e ser reconhecido é muito bom, muito gratificante, é quando uma pessoa diz que valeu a pena lutar.

 

E quando é que começou a sentir-se reconhecido em casa? Aqui em Gaia e na Madalena?

Eu acho que desde sempre. Atenção que nós, aqui na Madeira, temos artistas que que eu prezo e por quem tenho bastante consideração, como, por exemplo, o professor Abílio Guimarães, que é um aguarelista que faz coisas fantásticas. Agora, cada qual no seu género. E é o que eu digo, a pintura, as artes, como qualquer outra profissão, dá para todos e cabemos todos neste mundinho. E se tivermos unidos, melhor ainda. Acho que o convite que me foi feito, realmente, é por verem e reconhecerem algum mérito daquilo que faço. Por exemplo, quando me pediram para fazer o projeto do Monumento ao Pedreiro, eu nunca fui muito de fazer aquilo que é logo visível ao olho normal. Porque normalmente os Monumentos ao Pedreiro são o senhor com o martelo na mão a bater pedra. Para mim isso já não chega. Eu dou valor a quem faz isso, agora, acho que se eu tenho alguma sensibilidade, ou se me chamo de artista, eu tenho de parar um bocado e tenho de tentar recriar algo, contar uma história com aquilo que faço, seja com a escultura, seja com a pintura. Daí o Monumento ao Pedreiro recriar uma pedreira, apresentar as pedras em determinadas fases, para mostrar as coisas. E, se calhar, aí, mostra a diferença e daí chamarem-me para fazer algumas coisas.

 

Até agora falou-me sempre deste percurso na pintura, mas quando é que aparece a escultura na sua vida?

A primeira escultura que eu fiz a Redenção, foi o Cristo. Eu sempre tive na parte artística, em várias componentes. Estive ligado à área do calçado, por exemplo. Não se vive só de vender quadros. E a quem o faz, eu tiro o chapéu, porque eu não consigo. E depois há uma coisa, eu também sempre gostei de experimentar coisas novas.

 

E por isso, então, foi fazendo, ao longo do tempo, estas parcerias, um pouco mais rentáveis, para ter algum rendimento extra? Ainda assim, sempre ligadas à sua arte. Falava, por exemplo, da parceria com o calçado.

Com o calçado, com Luís Onofre. Eu tive, também, roupa pintada. A roupa surge de um acidente de trabalho. Eu, a certa altura, cansado de estragar roupa, decidi começar a pintar as minhas camisolas, porque caso contrário não dava, viver da pintura já é complicado, a pintar constantemente roupa e a pô-la para o lado, pior ainda E, então, de um acidente, começo a pintar roupa. Nessa altura, eu já fazia televisão, tinha uma rúbrica e ia participando em alguns programas, como o Portugal no Coração e A Praça da Alegria, e apresento a roupa pintada à mão. Na altura era com a Merche e com o Malato, e foi um sucesso. Sucesso esse que depois se estende para o calçado, com o Luís Onofre, para a Lameirinho, com os têxteis-lar, onde depois também, e era aí que eu queria chegar, algo parecido com a escultura, que são as joias. Dentro das silhuetas que eu crio na pintura, fazer uma peça de joia, um pendente, uns brincos, um anel, e aí sim, começa o primeiro contacto com a escultura, digamos assim. Na Redenção, aí sim, foi a primeira obra de escultura, mesmo. É assim, pediram-me para criar algo para aquela parede junto à Igreja e eu achei que só um painel de azulejos não chegava. Eu queria algo que saísse da parede.

 

Quase como indo de encontro aos fiéis?

Exatamente, é um bocado isso. Como agora, o Cristo que sai do painel e segura aquilo que me encomendaram, que é o tabuleiro. A mim encomendara-me um projeto de um tabuleiro, claro que, mais ao menos artístico e que se enquadrasse ali, no cemitério, mas é assim, um tabuleiro, qualquer serralheiro faz, eu dou as medidas e o serralheiro faz. Aqui a ideia era criar alguma coisa diferente. Na parede da frente da Igreja, o Cristo sai e vem ao encontro dos fiéis, nesta obra, o Cristo segura o tabuleiro.

 

Queria que, agora, me falasse um pouco das obras mais significativas, se podemos falar assim, ou aquelas que o marcaram mais ao longo destes anos.

Mais significativas, foi o que eu lhe estava a dizer, Barcelona marcou-me imenso e há um quadro, que é o Singularidades. Esse quadro é da minha filha, eu não o vendi, tive uma proposta completamente aliciante em Barcelona e não o vendi. Ele chama-se Singularidades porque, apesar de ser de 2004 ou 2005, eu dei-lhe esse nome porque acho que aquele quadro sou eu. Tem um bocado de cada um de nós. E, apesar de eu estar numa fase diferente da minha pintura, acho aquele quadro atual. Eu não o vendo, é da minha coleção particular e, neste momento, já nem meu é, é da Luísa.

 

Mas na época, em Barcelona, a Luísa ainda não existia. Porque não o vendeu?

Mas, na altura, eu disse que não vendia aquele quadro e que ele seria para o meu primeiro filho. E a Luísa sabe que o quadro é dela. Quando eu fiz a segunda exposição no Castelo, que foi para contar um pouco da história dos últimos 20 anos, eu queria o quadro e ela dizia «não sei se te vou emprestar». Ela tinha medo que alguém o quisesse comprar, mas eu disse-lhe que não porque ia pôr como vendido. Por acaso não o usei. O quadro a nível de texturas e de azuis, está fantástico. Eu acho que não consigo fazer novamente. Depois há essa parte, no tipo de pintura que eu faço, não consigo reproduzir, tem muito do momento, da inspiração, da textura que é dada, da força do estado de espírito em que estamos, e é quase impossível reproduzir uma obra minha. Se calhar o Singularidades é dos mais emblemáticos, é do mais significativos para mim. Depois temos, se calhar, o Fénix, que é um quadro, também, em grandes dimensões e tinha um destes Cristos que viu na Igreja.

 

Alguma obra pública que o tenha marcado de alguma maneira especial?

A Redenção. Sem sombras de dúvidas. A Redenção, pela simbologia que tem, por acreditarem em mim e, na altura, eu também era bastante novo. E depois, porque eu acho que com a Redenção consegui chamar as pessoas e consegui que aquele meu Cristo e aquela minha obra, realmente, chamasse as pessoas. Eu tive quase 500 pessoas naquele adro da Igreja na inauguração, a assistir. Isto no ano de 2010. Foi muito significativo. A nível de obras públicas, penso que foi isso. Tem uma simbologia diferente do Monumento ao Pedreiro. Eu fui convidado pelo Museu dos Combatentes para fazer uma peça que assinalasse o centenário da guerra. Fazer uma obra que marcasse a guerra de há 100 atrás, estando a viver uma guerra, atualmente, não tinha lógica eu só me basear na de há 100 anos atrás. Então, tentei criar uma peça que fosse atual, mas que também fosse buscar as lembranças e memórias do passado. Esta peça vai ficar no museu, em Lisboa. Mesmo agora, com 40 e poucos anos, ter esse tipo de convite, é muito importante e muito gratificante.

 

Mas, certamente, ainda há sonhos…

O sonho é não parar. Basicamente, é não parar. Há projetos que eu ainda gostava de pôr em prática, sim. Esta segunda exposição que eu fiz em Santa Maria da Feira, teve a participação de dança, música e pintura minha ao vivo. A minha filha não estava comigo nesse fim-de-semana. Quando fiz a exposição no Ateneu do Porto, a Luísa estava comigo e, ter a minha filha a pintar comigo, a participar na inauguração da minha exposição e a pintar comigo, mexe, abala.

 

Há aqui um sonho futuro de uma exposição conjunta? Quem sabe a Luísa segue os passos do pai…

Quem sabe. É assim, eu não pressiono, nem faço questão que ela siga a parte da pintura, u até mesmo a área artística. A Luísa é muito crítica. Neste momento, a minha filha é das maiores críticas, a nível de pintura, comigo, e é daquelas pessoas que, realmente, consegue-me abanar e consegue pôr-me a mexer. A Luísa, com dez ou onze anos, chega à minha beira e diz «oh papá, faz coisas diferentes, sai da tua zona de conforto, mesmo que tu não gostes». Eu lembro-me da Luísa pequenina, entrar no meu atelier, eu estar a pintar, ela olhar para o quadro e dizer «ai pai, que horrível». Eu estremeci, quase caía abaixo da cadeira e o quadro quase caiu abaixo do cavalete. Ela sempre foi assim, muito direta e muito crítica, tanto que quando eu faço coisas diferentes, ela fica encantada. É das maiores críticas, como é das maiores fãs que eu tenho. E isso é muito bom. Sonhos para o futuro, não sei.

 

Alguma colaboração com algum artista? Algum sítio de eleição para uma futura exposição?

É assim, existe aqui uma proposta. Eu não estava a falar muito disto porque ainda está em estudo. O Douro foi elevado, há 20 anos, Património Mundial. Havia ou há a possibilidade de fazer uma exposição pelos 19 distritos. É uma coisa muito grande e um pouco complexa. Se calhar vamos escolher aqui uns quatro concelhos e tentar fazer isso. Depois, há o convite para estar, em novembro, em Lisboa, no Museu dos Combatentes, porque a diretora do museu e o presidente, devido a esta peça que esteve lá em exposição recentemente, fizeram-me o convite de assinalar o Dia dos Combatentes, que se celebra em novembro, e querem que eu faça uma exposição. Ou seja, isso tudo são projetos que me agradam e são sítios que me dão algum gozo para ir expor. Se calhar, voltar a expor lá fora. Não sei. Eu gosto daquilo que estou a fazer neste momento, e sinto-me realizado, o que é muito importante, por isso não ambiciono grandes voos, porque eu acho que nós tivemos um ensinamento há um ano ou dois atrás, bem importante, e do qual nos esquecemos. Temos esse defeito às vezes, em altura de sufoco apelamos a todos os santinhos e damos valor a tudo e, depois, quando as coisas começam a ficar mais calmas, esquecemo-nos muito rápido. Nós, quando nos deparamos com a situação do Covid percebemos que a vida é muito curta para andarmos, ora a adiar, ora a perspetivar coisas muito para a frente. A vida é muito curta e acho que, cada vez mais, nós temos de viver o momento, agarrar-nos ao presente e tentar fazer do nosso dia, o melhor possível, que nos faça sentir bem. A partir daí, aceito desafios. Eu sou uma pessoa que gosta de aceitar desafios e não cruzar os braços. Continuar a pintar, experimentar coisas novas, sim, mas não tenho assim nenhum projeto que ambicionasse muito.

 

O que é que o Pedro de hoje, com 43 anos, diria ao Pedro que expôs, pela primeira vez, na escola, no final do 9º ano?

Ainda bem que lutaste e não desististe dos sonhos. Na altura, sim, era um sonho. Um sonho que vou concretizado, estou a concretizar ao longo dos dias, dos anos que passam, estou a concretizar os meus sonhos, e diria que vale a pena não cruzar os braços, vale a pena lutar, não ter receio de ouvir um não. O Monumento ao Pedreiro diz “pedra sobre pedra, construindo um mundo melhor” e, realmente, pedras, encontramos muitas pelo caminho. Em algumas delas tropeçamos, caímos, mas o mais importante é, nem que se tenha de agarrar a alguém ou algo que esteja ao nosso lado, mas o mais importante é levantar e continuar.

 

Gostaria que deixasse uma mensagem final.

Se calhar deixo uma mensagem final, exatamente para os jovens. Digo-lhes para não desistirem dos sonhos, sejam eles qual forem, o importante é ser feliz. Agarrarem-se à vida. Mas é importante terem sonhos, porque também há muito jovem que não gosta de ter os seus sonhos e as suas ambições. Agarrem os sonhos, lutem por aquilo que querem, e não se assustem. Estamos a passar uma fase complicada, no mundo, na sociedade, mas não desistam, e lutem, acima de tudo, para tentarem fazer deste mundo e desta sociedade um bocadinho melhor. Eles conseguem!