A liberdade de imprensa está a retroceder em passos gigantes na Europa devido à aprovação de legislação vária supostamente destinada a preservar a segurança dos cidadãos, a exemplo do que acontece em Espanha com a chamada Ley Mordaza e as leis de vigilância e espionagem aprovadas na Grã-Bretanha e Alemanha, assim como a repressão da imprensa na Turquia, País com aceitação na União Europeia e NATO e ao mesmo tempo considerado como a maior prisão do mundo para jornalistas.

Trata-se, pois, duma realidade dos dias de hoje, mas que não deve ser confundida com outra situação também ela bem real que é a manipulação da imprensa cuja acção já vem de longe e tende a agravar-se, pois já Lenine dizia que «Os capitalistas denominam de liberdade de imprensa a liberdade de suborno da imprensa pelos ricos, a liberdade de usar a riqueza para forjar e falsear a chamada opinião pública», facto a colocar na ordem do dia a necessidade de reagir contra esta realidade e despertar a consciência das populações para a gravidade desta situação que nos entra pela porta dentro todos os dias.

A manipulação da realidade pela Imprensa ocorre de várias e múltiplas formas, sendo importante notar que não é todo o material que toda a Imprensa manipula sempre, pois, se assim fosse ou se pudesse ser assim, o fenómeno seria autodesmistificador e autodestruidor e a sua importância seria extremamente reduzida ou quase insignificante, assim como se ocorresse uma vez ou outra, numa ou noutra matéria de um ou outro jornal ou televisão, os efeitos seriam igualmente nulos ou insignificantes.

A gravidade do fenómeno decorre do fato de ele marcar a essência do procedimento geral do conjunto da produção quotidiana da Imprensa, embora muitos exemplos ou matérias isoladas possam ser apresentados para contestar a característica geral, a qual pode ser observada quando se procura tipificar as formas mais usuais de manipulação.

Linguista genial, filósofo desconcertante e activista político no mínimo polémico, Noam Chomsky, nascido em Filadélfia em 7 de Dezembro de 1928, afirma que este modelo de imprensa denuncia a existência de cinco filtros, gerados por esse desvio sistémico, a que todas as notícias são submetidas antes da publicação, filtros, que combinados, distorcem e deturpam as notícias para o atendimento de seus fins essenciais e são a propriedade, o financiamento, a fonte, a pressão e o normativo ou normas da profissão de jornalista.

Cá, pelo nosso burgo, também temos e de sobra desta matéria que se revela diariamente, mas com mais acutilância quando comemoramos datas importantes para a humanidade, o fim do nazi-fascismo, a queda do Muro de Berlim ou a Revolução de Outubro.

Recentemente, a RTP1 transmitiu um episódio designado por biografia de José Stáline, transformada numa peça de bombardeio mediático anticomunista que prossegue intensamente vinte e cinco anos depois do final da União Soviética. Não sendo condenável que sejam feitas e divulgadas biografias do antigo dirigente da URSS e nelas seja levantado um inventário realista e inteligente da sua acção de primeiríssima importância na História contemporânea, é exigência elementar que, como acontece com qualquer biografia, tais relatos não sejam construídos pelos inimigos do biografado.

Mesmo no nosso País e referindo apenas trabalhos editados em livro, há material bastante para organizar um inventário sério, não desequilibrado e não manipulado da acção de José Stáline. Acontece, porém, que uma das linhas fortes da propaganda anticomunista primária e reles é a tentativa de estabelecer paralelismos de Stáline com todas e quaisquer formas do movimento comunista internacional, logo complementada com a miserável tentativa de igualar Stáline a Hitler e comunismo a nazismo.

Não se trata de colocar fora da crítica uma personalidade e a sua acção concreta, mas é imperiosa, no plano da honestidade intelectual, a necessidade de integrar essa acção na sua circunstância, nomeadamente que é a de uma revolução assediada e agredida tanto internamente pelas forças mais reaccionárias como externamente pelo imperialismo.

Será adequado recordar que, em qualquer praça cercada, enfrentando ataques de toda a ordem e prováveis infiltrações e traições, é forçoso defender as conquistas alcançadas até que a vitória esteja consolidada, aliás, a experiência histórica ensina que as revoluções podem ter fases de dureza extrema, caso da Revolução Francesa, de que emergiram o reconhecimento generalizado dos Direitos do Homem e várias formas de Liberdade, mas onde foram guilhotinados milhares de franceses e ainda hoje é odiada por sectores conservadores da sociedade francesa e mesmo os conspiradores portugueses de Dezembro de 1640 assassinaram Miguel de Vasconcelos e defenestraram o seu corpo.

Portanto, será legítimo manter a esperança de que num dia destes a RTP transmita biografias construídas com a serenidade e a lucidez que por agora são improváveis e que a documentação fornecida pela propaganda ou suas efectivas filiais seja arrumada em poço sem fundo, pois resta-nos ter a lúcida consciência do que nos é servido e ir avisando o próximo ou o ingénuo para não cair no logro.

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