Concluímos nesta edição o último conto do concurso “Um Caso Policial em Gaia”, que tem por protagonista uma jovem deslocada no norte do país, por um período de duas semanas, para a realização de um trabalho académico no hospital de São João, no Porto. Por deferência de uns amigos, ela ficou alojada em Gaia, numa casa com uma vista privilegiada sobre um pequeno largo e uma antiga mercearia. As pausas no seu trabalho de casa eram passadas numa janela de sacada, onde foi apreciando o corrupio de clientes que frequentavam aquela loja. Os primeiros fregueses para um cimbalino rápido eram habitualmente trabalhadores da construção civil, que vinham numa carrinha de caixa aberta, ou usavam as duas rodas como transporte próprio. Depois, era a vez das mulheres com ar atarefado, que despachavam as compras ou tomavam café em menos de um fósforo. As reformadas chegavam mais tarde, a partir das nove e meia. Os reformados homens surgiam uma hora mais tarde. Espalhavam-se pelas mesas, e pela gaiola que guardava as garrafas de gás, e disputavam a posse do Jornal de Notícias e dos jornais desportivos. Este grupo regressava à tarde para jogar às cartas ou ao dominó. As discussões e as zangas eram inevitáveis, mas despediam-se amigos até ao dia seguinte. Mas havia muito mais, como se pode ler de seguida:

 

CONCURSO “UM CASO POLICIAL EM GAIA”       

Conto nº. 13  

“Janela Indiscreta”, de Hayes

II – Parte (conclusão)

Dentro de este inesperado corrupio, chamou-me à atenção um grupo que se reunia com ar conspirativo, sempre pouco depois das seis da tarde. Passei também a fixar a minha pausa para esta altura. Eram meia dúzia de miúdos com um aspeto rufia, mas ao mesmo tempo eram bem-comportados em demasia. Deslocavam-se em silêncio, com discrição, sem as confusões frequentes em crianças. Só o mais alto entrava no estabelecimento, para sair logo de seguida com uma caixa pequena de cartão. Longe de olhares indiscretos, juntavam-se em círculo com as cabeças bem encostadas sobre a caixa de cartão. Durante cerca meia hora seguia-se um estranho ritual do que me parecia uma distribuição de qualquer coisa, com registo individual em cadernos ou folhas soltas. Todo este clima misterioso obrigou-me a aproveitar a máquina fotográfica, destinada dos meus tempos livres em Gaia, para testemunhar as atividades do grupo. Eram afinal cinco rapazes e uma rapariga, que não teriam mais de dez anos. Dois deles, os mais pequenos, eram gémeos iguaizinhos que vestiam sempre a camisola do Maniche, a rapariga era lingrinhas e usava o cabelo bem esticado num rabo de cavalo no cocuruto da cabeça. Havia ainda um ruivo sardento com óculos de aros pretos e, por fim, o miúdo mais alto, que eu julgava ser o mais velho. Este, à chegada, transportava um saco plástico com qualquer coisa que pelo tamanho parecia um volumoso maço de notas. O saco desaparecia no interior da loja e em seu lugar vinha a caixa de cartão e seguia-se o concílio acima descrito. No final, o rapaz alto devolvia a caixa à procedência. Chegavam juntos e partiam separados, levando cada um o respetivo avio.

Não tive qualquer dúvida. Os miúdos estavam a ser usados para passar droga, e da pesada, pelo menos a julgar pela quantidade de notas que entregavam. Esta situação repugnante teria de ser denunciada ou resolvida. Pensei falar com o dono da loja, mas receei que estivesse metido na negociata, apesar do ar inofensivo e da simpatia com que me entregava a bica matinal.

Uma tarde, embrenhada nesta indecisão e sem saber o que fazer, observava uma vez mais a cena da distribuição do produto, quando estalou uma confusão no grupo. Peguei no telemóvel, desci a correr as escadas e atravessei a rua. Foi o tempo para ver a discussão passar a briga, enquanto o alto enfiava um gancho no ruivo caixa de óculos e a miúda tentava, em vão, acalmar os ânimos. No chão espalhava-se a papelada e o conteúdo da caixa de cartão: cromos da Caderneta UEFA – EURO 2004.

Tudo ficou esclarecido. O saco plástico do dinheiro era afinal um lote de cromos repetidos, para ser entregue ao madrugador padeiro que se encarregaria de os levar para outras lojas da concorrência. A caixa de cartão tinha um perigoso produto a ser traficado − os cromos deixados no posto de venda por diversos clientes. A reunião de grupo secreta não passava de uma sessão para ordenar os cromos e distribuir os números em falta, tudo devidamente anotado em folhas de registo de cada proprietário. Os elementos do perigoso gang chegavam juntos, porque frequentavam um centro de férias próximo, de onde saíam às seis com os cromos, próprios e de colegas, acondicionados num saco plástico. Partiam separados porque moravam por ali perto, em ruas distintas. Entravam mudos e saíam calados, porque o Bigodes, o dono da loja, não queria confusões e a cada edição das cadernetas Panini ameaçava com o fim do negócio. O Girafa enfiou um murro no Cenoura, porque este o acusara de ter amarrotado o cromo do Cristiano Ronaldo.

Afinal tudo acabou bem. Não foi preciso pôr fim a um negócio de droga e os óculos do Cenoura ganharam mais um pedaço de adesivo para fixar as maleitas.

Eu levei o Ronaldo para casa, com a promessa de o devolver no dia seguinte, devidamente passado a ferro a vapor, com um truque que eu cá sei.

Posto isto, e a quem possa interessar, só posso acrescentar que nesse ano terminei a parte escrita do meu trabalho final, mas ainda hoje continuo sem conhecer nada de Gaia e arredores.

 

CONVITE AO LEITOR

E pronto, caro leitor. Agora o passo seguinte é seu. Para tal, repetimos o nosso convite à sua participação na escolha dos melhores contos. O processo é simples. A partir de hoje, tem trinta (30) dias para fazer a avaliação, em função da sua qualidade e originalidade, do décimo-terceiro conto do nosso concurso, da autoria de Hayes, e enviar a respetiva pontuação, numa escala de 5 a 10 pontos, para o email do orientador da secção (salvadorpereirasantos@hotmail.com).

Após esta última pontuação, atualizaremos a classificação do concurso, que era liderada por Rui Mendes quando era apenas conhecido o veredito do Júri sobre os primeiros nove contos publicados. Entretanto, enquanto aguardamos pelo escrutínio final dos nossos leitores-jurados, daremos inicio ao Torneio de Iniciação A. Raposo, que nos acompanhará até final do ano em curso.

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