Há 10 anos que Mónica Silva se dedica à confeção de todo o tipo de bolos, mas também de doces. Em entrevista ao AUDIÊNCIA, a pasteleira que já serviu Marcelo Rebelo de Sousa admite fazer o seu trabalho em busca da satisfação de todos os clientes que lhe chegam, já que “são quem me paga as contas e quem sustenta a minha casa”. Mónica Silva explica como começou o seu “Ponto de Açúcar”, a empresa a que se dedica desde que ficou desempregada.

Há quanto tempo é que é pasteleira, ou ‘cake designer’?
Prefiro que me chamem pasteleira do que ‘cake designer’. Hoje em dia toda a gente é ‘cake designer’ e eu não quero ser mais uma. Quero ser a pasteleira, a amiga das pessoas. “Pasteleira” tem um sentido mais carinhoso, mais amigo dos clientes e mais próximo.
Já tenho a minha empresa há 10 anos. Formei-a fruto do desemprego. Tinha de criar o meu próprio posto de trabalho. Como sou uma mulher de desafios, foi esse o desafio a que me propus. Desde aí que confeciono doces. Também ampliámos a empresa, já não nos dedicamos apenas a doces mas também a ‘catering’ em eventos.

Como começou a ganhar gosto pela pastelaria?
Ganhei o gosto quando ia limpar a casa a minha tia. Ela fazia bolos de casamento e eu sempre tinha curiosidade em ir lá espreitar. O gosto veio daí, com a minha tia.

Começou com a sua tia e depois viu no desemprego uma oportunidade.
Sim. Na altura de recessão e crise, fiz do meu desemprego a minha oportunidade de vida. O que é que sabia fazer de melhor? Sabia fazer bolos. Mas fazer bolos implica muita coisa e não me podia apenas basear em pôr um bolo para o forno e fazê-lo de qualquer forma. Aí aventurei-me a ir ao Continente e fazer formação.

Sentiu a necessidade de se formar.
Exato. Senti essa necessidade e acho que tem toda a lógica estarmos sempre informados. Todos os dias há um desafio novo, todos os dias surgem coisas novas, novas técnicas… e o mundo dos bolos é um mundo de desafios.
Por ano tenho uma média de 10 a 12 formações sempre lá fora. Opto por estar sempre atualizada com os melhores ‘cake designers’ nacionais e internacionais. Também opto por estar sempre em contacto com colegas de outros países. A troca de experiências é muito benéfica, e quando isso acontece, não consideramos a nossa profissão como tendo concorrência, achamos até que há uma amizade entre as pessoas.

Até agora qual foi o seu maior desafio?
Considero cada bolo um desafio porque cada um deles é especial e cada um deles tem de ter uma dose de amor e um carinho especial, além de que cada cliente é um cliente.
No entanto, o meu maior desafio foi trabalhar para um senhor do Dubai. Era um cliente com outra cultura e com outra personalidade, embora eu trabalhe para vários países e para várias embaixadas e cada um deles tenha um seu gosto e a sua particularidade. É lógico que as embaixadas deixam-nos um pouco mais reticentes devido a quem vamos servir. Sabemos que vamos servir altas individualidades e altas patentes. Mas o meu maior privilégio foi fazer um bolo para o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Como é que surge o contacto com essas individualidades?
Normalmente sou solicitada para fazer estes serviços. Ligam-me e eu desloco-me lá fora. No caso do cliente do Dubai, foi numa festa particular cá. Como trabalho para companhias de jatos privados, quando se deslocam cá solicitam os nossos serviços, tal como acontece também com jogadores de futebol. A nossa ilha, curiosamente, é muito visitada por eles. Como cá a imprensa cor-de-rosa quase não existe, é um paraíso.

Um paraíso para todos.
Ficamos todos a lucrar: eles com a sua privacidade, já que nós trabalhamos com termos de confidencialidade com todos os clientes. Acho que as pessoas merecem respeito e a sua privacidade. Vivemos num mundo global em que tudo se sabe e acho que as pessoas merecem essa privacidade, com as suas festas particulares.

Mais alguém trabalha consigo?
Na área dos bolos trabalho sozinha. É um momento só “nosso”. É um momento de reflexão entre nós e o bolo. Costumo dizer que o bolo simboliza um filho. Trato-o com muito carinho. Não é ser egoísta, mas é ter aquele momento entre mim e o bolo.
Temos de cuidar do bolo. Não podemos começar e daqui a pouco largar e depois voltar. Um bolo tem um começo, um meio e o fim. Ainda que implique levar duas ou 24 horas (porque há bolos que têm muito pormenor e implicam muitas horas de trabalho).
Na parte do ‘catering’ é que temos uma equipa, ainda que eu seja a parte fundamental. Tudo tem de passar pela minha mão e tem de ser verificado por mim. Não é que não confie nas pessoas que trabalham comigo, pois confio plenamente, caso contrário não as tinha ao meu serviço. Mas tudo tem de passar por mim porque eu tenho de garantir ao meu cliente o melhor dos melhores.

A Mónica tem todo o tipo de clientes.
Eu tanto posso servir o Presidente da República como qualquer outra pessoa. As pessoas são todas iguais e todas merecem carinho e respeito. Todas elas têm que ser tratadas com humildade e com uma palavra amiga. Todas elas merecem o meu respeito porque são quem me paga as contas e quem sustenta a minha casa. São eles que me permitem ajudar os outros invisivelmente, porque para ajudar não precisamos ser visíveis.

Quais são os pedidos que mais lhe chegam?
Vários: de todos os feitios e de todos os gostos. No entanto, trabalho muito na área das flores em açúcar e até chego a confecionar buquês em açúcar para noivas. Os trabalhos em buquês de açúcar em porcelana fria ficam trabalhos únicos.

É especialista nessa matéria?
Sim. A minha área de especialidade são mesmo flores em açúcar.

Quando recebeu a última mensagem manuscrita do Presidente da República, como é que se sentiu?
Profundamente agradecida, profundamente reconhecida e cada vez mais com vontade de servir uma pessoa que serve os outros, sendo um exemplo de empenho e dedicação.

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