Manuela Bulcão é natural de Feteira, na Horta, na Ilha do Faial e é uma escritora e poesia que falou, em entrevista ao AUDIÊNCIA, sobre os suspiros da alma, sobre as suas inspirações, sobre o amor, sobre a sua missão e sobre as suas obras.

Para quem não a conhece, quem é a Manuela Bulcão?

A Manuela Bulcão nasceu na cidade da Horta, na Ilha do Faial, na década de 60 e é uma eterna sonhadora. Em 1986, vivi em Santa Maria onde trabalhai na área da restauração em part-time e fiz locução no Clube Asas do Atlântico durante dois anos. Depois rumei ao continente, porque as ilhas, para mim, eram pequenas, não por não amar as minhas ilhas, mas eu queria um pouco mais e radiquei-me em Vila Nova de Gaia em agosto de 1987 e desde essa data tenho estado no Norte de Portugal. Eu sinto-me meio açoriana e meio continental. Eu não saí da ilha, o que eu fiz foi trazer a ilha dentro de mim para o continente. Eu costumo dizer que eu não tenho tudo o que quero, mas que amo tudo o que tenho, por isso sou uma mulher feliz.

A Manuela tem dois filhos que a enchem de orgulho. De que forma é que eles a inspiram?

Eles inspiram-me em tudo. Eu tenho um filho e uma filha e eles são bons filhos, são carinhosos, talentosos, bondosos e, acima de tudo, eles são o meu mundo, são eles a minha razão de viver.

O seu filho foi ordenado padre e é atualmente pároco em quatro freguesias de Vila do Conde. De que forma é que isso influenciou a sua vida e a sua escrita? O que mudou no seu quotidiano?

O meu filho é padre, foi uma vocação tardia, porque ele de profissão é geógrafo, ele foi para o seminário com 26 anos, não porque eu quisesse, porque eu sempre lutei contra isso, uma vez que eu não queria que ele fosse padre, mas aprendi a lição de que não nos devemos meter na vida dos nossos filhos e devemos deixar os nossos filhos seguirem o seu rumo. Eu aprendi a lição e jamais me voltarei a meter. Eu não o deixei ir aos 17 anos, quando ele queria ir, e depois ele fez um percurso normal de um jovem da idade dele, namorou e, como se diz nos Açores, “pintou o caneco”, fez a sua Licenciatura em Geografia Científica, foi trabalhar para Ponte de Lima e era geógrafo na Associação Florestal do Lima, assim como um jovem promissor a nível de profissão. Todavia, um dia, numa noite de Natal, o presente que ele me deu foi dizer-me que em janeiro entrava para o seminário e eu perante uma situação dessas só me restava pensar que o que interessa é que ele seja feliz, porque eu vim-me a aperceber que o meu filho tinha tudo, mas ao mesmo tempo, se calhar, não tinha nada, porque faltava-lhe aquilo que ele tanto queria, que era o espírito de missão. Ele foi para o seminário com 26 anos, foi ordenado padre e tem quatro paróquias, ele tem cerca de 17 mil habitantes e eu coloquei a minha vida profissional em standby e fui viver com ele. Eu atualmente divido-me entre Gaia e Vila do Conde, porque tenho a minha filha em Gaia, tenho a minha casa em Gaia e tenho o meu filho em Vila do Conde.

Para além dos filhos, a Manuela também vive através da escrita e da poesia. Quantos livros tem publicados?

Eu desde sempre, desde que me lembro, eu sempre escrevi. Eu na escola escrevia, adorava poesia, adorava redações. Eu sempre gostei muito de escrever e escrevi poesia desde sempre, só que escrevia e depois rasgava e deitava fora, mas ainda tenho algumas coisas guardadas, principalmente aquelas cartinhas que eu escrevia aos meus pseudo-namorados, porque eu namorava com eles, mas eles não sabiam que eu namorava com eles. Neste caso, eu posso dizer que eram os meus namorados, porque eu queria que eles fossem meus namorados, mas eles não sabiam e então eu escrevia-lhes aquelas cartas amorosas, que hoje constato que eram a verdadeira prosa poética. Neste momento eu tenho três livros de poesia, um conto infantil e um romance. Atualmente tenho mais dois romances para publicar e um livro de cartas de amor.

Dos livros que escreveu, qual foi o que mais a marcou?

“A Filha de Ninguém” foi o livro que mais me marcou, sem dúvida alguma. Este livro marca uma viragem na minha vida, foi quando eu ousei editar e foi a minha primeira publicação. Eu dediquei aquele livro a todas as mulheres que ousaram ser diferentes, porque nos Açores e na década dos anos 50, as mulheres eram criadas de uma forma muito austera e este livro foi, sem dúvida, uma homenagem a todas essas mulheres que ousaram ser diferentes. Este livro é uma obra inacabada e eu estou com ele em mãos, ainda para a terminar. Na altura, foram feitos 1600 exemplares e nem eu tenho um, foram todos vendidos. Foi uma publicação de 2009/2010 e foi, sem dúvida, muito importante, porque digamos que foi uma catarse, foi o fazer, se calhar, as pazes comigo própria, fazer a ponte entre aquela que me deu ser, que eu perdi e não cheguei a conhecer. É um livro extremamente importante para mim, esse sim.

O seu novo livro, intitulado “Rascunhos da Alma” é um exclusivo AUDIÊNCIA, tem capa e introdução de Margarida Santos, Prefácio de Alexandre Gaudêncio, Posfácio de Graça Borges Castanho e Epílogo de Jaime Rita. Qual é a importância da participação destas personalidades na sua obra? Porquê estas e não outras?

A importância destas personalidades é muita. Primeiro, o Alexandre Gaudêncio, porque é atualmente o senhor presidente da Câmara da Ribeira Grande, ele aceitou a proposta quando eu lhe falei nisso e para mim é uma honra que seja o doutor Alexandre Gaudêncio, considerando que o livro foi lançado na Ribeira Grande. Segundo, a doutora Graça Castanho, porque é uma pessoa que me diz muito, não é do meu sangue, mas é um ilhéu como eu, é uma mulher a quem eu admiro muito e tê-la comigo no meu livro é eternizar a nossa amizade. O Jaime Rita é presidente da Casa do Povo e da Junta de Freguesia da Maia, que pertence ao concelho da Ribeira Grande, é uma pessoa que eu admiro muito, é uma pessoa extraordinária, é um homem que eu acho que tem um percurso de vida quer a nível pessoal, quer a nível autárquico invejável, sempre de uma postura extremamente correta e tê-lo comigo é, sem dúvida, uma honra. Ele é uma pessoa que merece ser eternizada e nada melhor do que estar eternizada em papel, com as suas maravilhosas palavras, que tanto me sensibilizaram. A Margarida Santos fez a introdução maravilhosamente bem e descreveu-me totalmente na capa, porque na capa estou lá eu toda, porque na capa estão muitas Manuelas e como eu própria me surpreendo todos os dias e nunca sei com qual delas é que estou a conviver, cada traço que lá está é um gesto meu, sem dúvida.

Porquê “Rascunhos da Alma”? Que histórias conta neste livro?

“Rascunhos da Alma” tem pequeninas cartas, pequeninos rascunhos que eu fui buscar, que eram para os tais namorados, com os quais eu namorava, mas eles não sabiam e tem outras cartas e escritos, que são rascunhos que a alma me ditava durante a noite e que eu transpunha para o papel e que quero dar a conhecer.

Considerando que está a partilhar as suas memórias, as suas paixões e os seus amores, qual é o significado que este livro tem para si?

Vai ser engraçado, porque eu imagino qual será o rosto das pessoas que lerem o livro e se quem sabe, algures, alguém irá ler e pensar que aquelas cartas, eventualmente, possam ter sido dirigidas a elas e elas não sabiam e estão a ler uma coisa que um dia foram escritas para essas pessoas e elas não sabiam e passados anos estão a ler e continuam a não saber que eram para eles, porque eu sou egoísta e vou continuar a manter este segredo só para mim.

Para além da eternização dos amores, qual é a mensagem que pretende transmitir através deste livro?

Amar é a única certeza de que a vida vale a pena.

A Manuela anunciou anteriormente que vai publicar um livro de cartas de amor. A obra em questão vai ser a continuação de “Rascunhos da Alma”?

Sim, esse livro está projetado, não para já, porque eu tenho que terminar a continuação do romance “A Filha de Ninguém”, que está quase pronta. Esse livro das cartas de amor terá cartas que, ao contrário destas, estão datadas. No fundo, “Rascunhos da Alma” é um livro misterioso, porque eu não tenho datas, nem os locais onde foram escritas, ou seja, são folhas que representam marcos de passagens na minha vida. O livro de cartas de amor são cartas profundas, são cartas de amor que eu escrevi e as respostas que eu obtive, porque eu já tenho algumas autorizações para as publicar. É lógico que as pessoas não vão ser divulgadas, mas é para que as pessoas percebam a imensidão do amor e que o amor não é só carnal, o amor é humano e o amor também é espiritual.

Relativamente à sua vida social, a Manuela viaja com regularidade para Cabo Verde e vai este ano para São Tomé e Príncipe, o que está na origem destas viagens?

Eu estive inserida em dois projetos, um foi o projeto “Literacias Açores-Cabo Verde”, através do qual já estive em Cabo Verde duas vezes com a doutora Graça Castanho, da Universidade dos Açores, e iremos de novo em junho, nós temos um projeto com a cidade do Tarrafal, que é maravilhoso, também na dinâmica das “Literacias”. Também já estivemos duas vezes também a trabalhar com crianças da ACRIDES, que são crianças necessitadas e estive uma outra vez em Cabo Verde, em missão humanitária, com a Associação Viver 100 Fronteiras. No final deste ano, eu pretendo ir com a Plataforma Cafuka para São Tomé e Príncipe.

No fundo, qual é a sua missão?

Eu vou sempre com a missão da propagação da nossa língua de Camões, segundo, vou espalhar abraços, vou abraçar as pessoas mais carenciadas, vou estar junto delas, porque, no fundo, elas também nos dão muito amor e conseguimos perceber que o mundo não é só isto que nós vivemos e que muitas vezes nós somos muito egoístas. Eu, desde que comecei, há dois anos, a fazer missão, consigo ver o mundo de outra forma.

O que é que a Manuela leva e o que é que a Manuela traz destas viagens?

Eu quando vou com as “Literacias” levo, essencialmente, a língua portuguesa, levo sorrisos, levo abraços, porque nós fazemos muitas dinâmicas através, por exemplo, da ioga do riso, e espalhamos alegria, porque o povo tem de ser alegre, é um direito que nos assiste, mas venho com a bagagem cheia de amor, são um povo com tão pouco, mas com tanto para dar e não exigem nada.

Acredita que, num futuro próximo, vai nascer um livro inspirado nestas viagens e no amor que traz na bagagem?

Sim, já está elaborado e vai nascer um livro de crónicas sobre as minhas vivências lá. Eu gosto muito de lidar com idosos, porque eu em Portugal também lido, precisamente em Vila do Conde, e eu tive uma experiência muito engraçada com idosos em Cabo Verde e será com esses idosos que eu quero fazer projetos.

Que projetos tem vista para o futuro?

Eu sou diretora Cultural de uma IPSS em Vila do Conde, onde atualmente resido a cinquenta por cento, e estamos a pensar em dinamizar, para o final do ano, uma coletânea de poesia, de poetas espontâneos. Entretanto, vamos começar a realizar oficinas de escrita criativa com idosos e com crianças, porque eu aposto que as crianças que têm avós são muito mais felizes e se as crianças interagirem com os idosos far-lhes-á muito bem e se os idosos interagirem com as crianças far-lhes-á retroceder na idade, até quando eram mais jovens e eu acho que isto a nível cultural e a nível de saúde será muito benéfico.

Diga-me o que lhe vai na alma.

A única coisa que eu tenho a dizer é que onde houver um sorriso e onde houver um abraço, com certeza que o sol romperá as nuvens e o dia será muito mais bonito.

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