No dia 31 de março assinala-se o Dia Nacional do Doente com AVC. Ou seja, das pessoas que já tiveram na sua vida um (ou mais) Acidente Vascular Cerebral. Que, à falta de números oficiais de quantos somos, podemos, com segurança, apontar para largas dezenas de milhar (segundo a DGS, há cerca de 25.000 pessoas internadas anualmente por AVC). De facto, estamos a falar da primeira causa de morte e de incapacidade em Portugal.

Não há dúvida que há muito para fazer “a montante”, ou seja, na prevenção e na modificação de estilos de vida, antes de mais. Também na muito maior divulgação dos sinais de alerta de que pode estar a acontecer um AVC – resumidamente, os 3Fs: desvio da face, falta de força num braço ou perna, dificuldade em falar –, e o que fazer: ligar imediatamente para o 112, que ativa a Via Verde de emergência hospitalar. Porque é uma situação em que cada minuto conta, no salvar vidas, e também no evitar ou diminuir as incapacidades, que podem passar a acompanhar a pessoa durante a sua vida.

Mas também “a jusante”, ou seja, na valorização e reconhecimento da vida pós AVC. Que atinge todas as idades, com cada vez mais pessoas em plena idade ativa e as suas famílias. O AVC não é uma “doença de velhos”!

É certo que alguns avanços científicos, por um lado, e uma maior – mas ainda insuficiente – cobertura dos recursos hospitalares, permitem que hoje se registem menos mortes, e se obtenha alguma redução das sequelas graves e muito incapacitantes. Embora o AVC deixe marcas muito frequentemente, e não só “visíveis” (como as sequelas físicas, motoras, de comunicação, na visão, …), mas também “não visíveis” e muitas vezes não valorizadas (sequelas cognitivas, alterações no humor, cansaço crónico, reflexos psicológicos, …), mas que podem ser não menos incapacitantes.

Por isso é tão importante assegurar o acesso a uma reabilitação multidisciplinar, começando logo após o AVC, com qualidade e eficácia, e sem tempos preestabelecidos. Como, ainda há poucos meses, foi recomendado ao Governo, através da Resolução da Assembleia da República nº 339/2021 (que “Recomenda ao Governo que defina e implemente uma estratégia de acesso à reabilitação para sobreviventes de acidente vascular cerebral”)!

É preciso que se perceba claramente que a reabilitação, além de ser um direito, não é um custo, mas um claro investimento com retorno.

A começar logo após um AVC: pode marcar a diferença entre continuar a ser um cidadão contribuinte ativo, sentindo-se útil à sociedade, ou mais um sujeito passivo da Segurança Social, por largos anos, e com os prováveis problemas de saúde, também no âmbito da saúde mental, que podem advir.

Mas também ao longo da vida, mesmo quando já não são de esperar objetivamente melhorias muito significativas, o sobrevivente de AVC pode precisar da continuidade da reabilitação. Evitando, tão comuns, regressões e agravamentos, contribuindo para a melhoria ou manutenção da qualidade de vida possível, e evitando também o surgimento de acrescidos problemas de saúde. Ou seja, o que podem ser cada vez maiores encargos sociais e económicos, para as famílias e para o Estado e a sociedade.

A reabilitação, por natureza, tem que poder ser coordenada e multidisciplinar. Pode envolver vários profissionais, como médicos, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, terapeuta da fala, enfermeiro de reabilitação, psicólogo, nutricionista, assistente social, ou outros, conforme o caso.

Frequentemente, nós, sobreviventes de AVC, consideramos a reabilitação como o nosso principal “medicamento”. Se fosse possível “aviá-lo” numa farmácia, se fosse tomado em comprimidos ou em xarope, por exemplo, seria muito mais fácil a sua prescrição. Apesar de os custos para o Estado, e comparando com outras patologias, poderem até ser muito menores!…

A sensibilização da importância da reabilitação, a começar pelos decisores, é fundamental e urgente. Veja-se o que aconteceu com a pandemia. Antes de mais em hospitais: na fase crítica, os serviços de Medicina Física e Reabilitação foram dos primeiros a ter que ceder, e nem todos recuperaram ainda, sequer, o espaço físico. Os cuidados de reabilitação sofreram muito, com suspensões, adiamentos e cancelamentos, no Serviço Nacional de Saúde e não só. Em muitas situações, com danos irreversíveis para a vida das pessoas. Agora, frequentemente saem a público dados sobre a recuperação de consultas e cirurgias. Mas, e os cuidados de reabilitação? Segundo um Estudo publicado pela GFK e pelo Movimento Saúde em Dia, em outubro de 2021, com base em dados do Portal da Transparência, apresentam uma diferença no número de atos praticados em Medicina Física e Reabilitação (entre os períodos de Mar.19 a Jan.20 e Mar.20 a Jan.21), superior a 15 milhões (-15.482.069)! A reabilitação não pode ser o “parente pobre” do sistema de saúde!

Já era urgente antes da pandemia, e agora ainda mais, dar um salto de qualidade na reabilitação a que os sobreviventes de AVC têm acesso. No reforço dos profissionais qualificados, e na criação de condições para a sua atuação. Na perceção do seu caráter multidisciplinar, atempado e melhorando a sua qualidade e, consequentemente, a eficácia. Porque, nada retirando à importância deste cuidado, não é só fisioterapia. E, por exemplo, mesmo a fisioterapia neurológica -como é necessário em tantas situações pós-AVC – exige tempos, competência e atenção permanente, não compatíveis com os cuidados prestados, por sistema, “em grupo”, mesmo na maioria das clínicas e outras unidades de saúde.

A 1ª causa de morte e, sobretudo, de incapacidade em Portugal, tem de ser motivo de preocupação nacional, inclusive social, política, económica, e outras vertentes. Repito, esta é uma questão premente e urgente, que deve ser olhada como um investimento necessário, e não como mais um mero custo para o Serviço Nacional de Saúde.

Oxalá o novo governo olhe para este assunto seriamente, atuando com visão de médio e longo prazo. Ouvindo também o contributo de sobreviventes e cuidadores.