A derradeira prova do Torneio de Iniciação A. Raposo é hoje desvendada, num momento em que concluímos o processo de apreciação das propostas de solução apresentadas ao sexto enigma e que aguardamos o envio das soluções correspondentes ao penúltimo problema. Estamos muito perto de conhecer os nomes dos vencedores desta iniciativa de homenagem a um policiarista incontornável da história deste desporto mental no nosso país, enquanto solucionista e produtor. Neste momento as classificações são lideradas por Oluap Snitram e Detetive Jeremias, mas tudo pode ainda acontecer. Veremos o que nos reserva o futuro, porque não há vencedores antecipados!

 

TORNEIO DE INICIAÇÃO A. RAPOSO

Prova nº. 8

“Tempicos de Rastos…”, de A. Raposo

Na sua longa atuação na “Judite”, Tempicos prendeu muita gente. Muito mariola. Alguns por longos e penosos períodos. Prisão que não redimiu os meliantes. Que não lhes deu horizontes nem futuro. Essa prisão não ajudou ninguém. Somente tornou os meliantes mais meliantes e rancorosos. Tempicos sabia isso, mas não gostava de pensar que era ele que iria mudar o mundo.

Chegara o momento em que o mundo do crime desejava ajustar contas com Tempicos. O Sindicato do crime reuniu-se e os sete magníficos decidiram. Os longos anos de prisão sofridos por muita gente iriam ser, agora, vingados.

Foi decidido o castigo. Tinha que ser o mais doloroso possível.

No mundo do crime, a globalização também já chegara.

O Brasil dera a sua contribuição, tendo no topo da hierarquia dois dos seus mais destacados elementos, conhecedores das prisões portuguesas; eram o Xico Surucucu e o Totó Tijuca.

A eles juntaram-se mais cinco portugueses de gema: João Falcão, Zé Camaleão, Quim Mula, Manuel Lagarto de Alvalade e Toino Maçacoto.

Um deles – não se sabe quem – fora encarregado de executar o trabalho. Teria que deixar Tempicos em sofrimento por longo tempo. O mais longo e doloroso possível. Tão longo como os anos de prisão que suscitou.

O processo era simples. Um tiro em cada joelho de forma a não dar qualquer hipótese de fuga.

Aproveitaram o dia de folga da empregada de Tempicos, um dia por semana, sempre à quinta-feira. Tempicos tivera a companhia de Kátia Vanessa, a filha da falecida Nelinha, que se finara no Museu do Teatro em maio passado, acontecimento que veio publicado na imprensa cor-de-rosa e noticiado por essa Europa fora. Porém, a maldosa influência dos outros padrinhos da menina (Onaírda, Nove e Zé-Viseu) levou a que ela fugisse de casa para lugar incerto, mas provável, que se calcula seja a adega de um dos padrinhos. Agora Tempicos estava sozinho e muito mais vulnerável.

Apanharam-no à secretária, onde gastava longos períodos a escrever histórias policiais que nunca editara. O executor só teve de acertar com toda a precisão um tiro em cada joelho. Era a dose recomendada.

Sentado estava e sentado ficou. A sangrar. O telefone foi-lhe retirado. A vivenda, onde habitava sozinho, ficava num bairro seleto, no Restelo, em Lisboa, onde raros vizinhos passavam a pé.

Tempicos ficara com os joelhos em mau estado, com um tiro em cada um. Foi como se lhe cortassem as pernas. Pedir ajuda não seria fácil. Deslocação, só rastejando – pensou – e usando os braços como força motriz. As dores não seriam pera doce!

As balas foram certeiras e as pernas ficaram pendentes sem forças e a sangrar. O meliante não demorou dois minutos a terminar o trabalho. Era um especialista competente na sua área. Como entrara saíra fechando a porta no trinco e levando o telefone móvel. O único existente na casa.

Tempicos sabia que podia morrer; essa seria a hipótese mais provável. Rapidamente resolveu reagir. Conseguiu rasgar uma parte da camisa e adaptar um garrote a cada joelho. Assim a perda de sangue minimizava-se e poderia pensar o que fazer a seguir.

Pensou nos seus antigos camaradas da Judite, ainda no ativo. Pensou que – na brincadeira – enviava regularmente aos seus colegas enigmas para solucionarem. Que eles aceitavam e resolviam em conjunto.

Queria deixar para os seus colegas da Judite o nome do seu algoz, dissimulando a informação no texto, aparentemente inócuo, para quem o lesse – incluindo o meliante!

Quem sabe se ele voltaria para acabar o trabalho?

Foi isso que Tempicos resolveu fazer. O bloco que tinha sempre na secretária serviu perfeitamente. Pegou na caneta e escreveu:

MINHA POESIA NÃO É PROVÁVEL

SOBREVIVA À MINHA MORTE!

PORÉM, MINHA FAMA SERÁ!

A MINHA GRANDE OBRA POLICIÁRIA

DEIXOU-ME AGORA DUM JEITO ASSIM

MORIBUNDO RASTEJANTE!

Depois, atirou-se assim a trouxe-mouxe para o chão onde ficou com dores redobradas, mas arrastou-se imediatamente para junto à sua mesa baixa, no meio da sala, decorada com várias estatuetas tipo “arte nova”, de bronze.

Usou-as para, regularmente, ir atirando às vidraças das janelas da sala. A esperança estava em que alguém que passasse na rua pudesse ouvir.

As estatuetas foram partindo – regularmente – as vidraças todas, uma a uma. Mas as forças iam faltando e a ajuda não surgia. A perda de sangue aumentava com o esforço.

Será que Tempicos se salvaria ou será desta que iria de vez para os anjinhos?

Isso nós, agora, não poderemos saber, nem é esse o enigma que será necessário descobrir e resolver. O nome do meliante esse é que será o objetivo da investigação.

Esse é que é preciso que seja acusado, pois não se faz uma maldade destas ao nosso amigo Tempicos. Seria imperdoável!

Podemos fazer a pergunta: quem disparou nos joelhos de Tempicos?

 

DESAFIO AO LEITOR

As propostas de soluções a este enigma devem ser enviadas no prazo máximo de 15 (quinze) dias para o orientador da secção, através do email salvadorpereirasantos@hotmail.com.