No momento em que o orientador da secção marca presença no XV Convívio da Tertúlia Policiária da Liberdade, que decorre no restaurante Sabores de Sintra, em São Pedro de Sintra, reunindo policiaristas de todo o país, do qual publicaremos um apontamento de reportagem na próxima edição, deixamos à apreciação dos nossos leitores um conto da autoria do produtor do enigma de abertura do torneio de decifração “Solução à Vista!”, candidato a um dos três prémios em disputa no concurso de produção policiária “Mãos à Escrita!”.

Recordamos que o conto de Daniel Gomes, de que publicamos hoje a primeira parte, conquistou uma menção honrosa no concurso “Um Caso Policial em Gaia”, que teve como grande vencedor o contista Luís Pessoa. A publicação da primeira incursão do policiarista de Santa Marinha pela escrita policial tem como objetivo descomprimir os nossos “detetives” que têm como tarefa a decifração do seu enigma.

 

VIAGEM DE TELEFÉRICO

Conto de Daniel Gomes

Primeira Parte

O Joca foi sempre um menino da mamã. E com ela foi ganhando gostos, hábitos e hobbies pouco próprios de um macho em desenvolvimento. Nunca jogou à bola com os outros rapazes na rua e jamais travou qualquer discussão com estes que acabasse por degenerar em pancadaria. As bonecas eram a sua perdição, passando horas sem fim fechado em casa a brincar às casinhas, às mamãs e aos bebés. O pai foi tolerando tudo isto a muito custo, sempre na esperança de que o rapaz mudasse com a idade. Mas isso nunca aconteceu, apesar de várias insistências em levá-lo ao futebol e ao cinema ou a ver corridas de fórmula 1 ou de motocrosse. Nada. O que o Jocas queria mesmo era ficar em casa, agarrado às bonecas ou a ajudar a mãe nas lides domésticas. Enquanto isso, o tempo ia passando e o rapaz nunca deu a conhecer namorada ou amiga especial.

A única pessoa fora do seu círculo familiar, mais ou menos da sua idade, com quem Joca se deu durante algum tempo foi um colega de escola, o Tó Zé, sua visita frequente de casa, com quem passava tardes inteiras no quarto, após as aulas. Os livros de matemática e de ciências naturais eram o pretexto para longas jornadas a dois, mas as notas naquelas duas disciplinas eram sempre pouco mais do que miseráveis, como em todas as outras, aliás, exceto educação visual. Sem grandes notas, começou a ser muito difícil encontrar um curso que lhe fosse acessível. Até que, aos dezoito anos, Jocas decidiu que queria ser chef de cozinha, irritando solenemente seu pai, que sempre sonhou uma profissão para o filho ligada ao direito, advogado como ele, ou jurista, juiz ou até mesmo polícia de investigação criminal. Tudo menos uma procissão de fêmea!

Aquela decisão do Joca provocou uma enorme discussão lá por casa, com o pai a ameaçar o filho de acabar de vez com as mesadas e com a autorização de saídas noturnas, que passaram a ser mais constantes, levando o rapaz por empréstimo algumas das toilletes da mamã para alegadas cedências a meninas filhas de famílias menos abonadas. No calor da discussão, o pai do Jocas disse que o filho já foi visto algumas vezes pelos lados da Lavandeira, junto ao Estádio Municipal, local onde não se conhece a existência de casas de animação, pedindo, por isso, explicação para tal facto. A explicação do rapaz, longe de acalmar os ânimos do progenitor, atiçou ainda mais a sua fúria, desvendando, por fim, que um colega seu o terá visto por lá, de calças justas, saltos altos e muito bamboleante, na companhia de gente indefinível quanto ao género.

Escusado será dizer que a mãe do Joca tomou a defesa do seu adorado filho, defendendo que tudo não passava de má-língua de gente intriguista que apenas queria causar mal-estar no seio da família. Muito sensível e dedicado à mamã, o rapaz desatou num choro compulsivo que acabou por comover o próprio pai, que chegou a admitir haver alguma confusão quanto à pessoa que foi vista a fazer trottoir na Lavandeira, por ser uma zona mal iluminada e seu filho ter uma configuração física muito comum à rapaziada da sua idade. Só que tinha gestos e reações muito pouco comuns à esmagadora maioria dos filhos dos seus amigos, o que o irritava por não saber as origens dessa particularidade. De uma coisa ele estava seguro: o seu rapaz precisava de passar pela tropa para se fazer homem, como aconteceu na sua juventude com muitos.

O pai do Joca está convencido da absoluta necessidade do regresso do serviço militar obrigatório, por considerar evidente a sua importância na cadeia de valores que se foram perdendo no nosso país. O seu retorno – diz ele – seria o ponto de partida para a reposição de um conjunto de fatores fundamentais ao nosso código de conduta, que estão afastados do dia-a-dia da nossa sociedade e que a juventude podia readquirir na instituição militar, nomeadamente no que concerne às suas obrigações para com a pátria e a família. E, embrenhado nestes pensamentos, lembrou-se que o seu Joca está na idade de ser convocado para o Dia da Defesa Nacional, que se comemora no dia seguinte, o que confirmou logo de seguida num Edital afixado na Junta de Freguesia da sua residência. E depressa correu para casa, a fim de dar a boa nova à mulher e ao filho.

Joca reclamou contra a ideia do pai, invocando objeção de consciência, no que foi acompanhado pela mãe, mas de nada lhe valeu. A comparência no Dia da Defesa Nacional é um dever obrigatório para todos os cidadãos que cumpram dezoito anos de idade, a que ninguém se pode abster, a não ser por razões de saúde ou outras questões de força maior devidamente justificadas – gritou-lhe o pai. E logo fez saber que um filho seu nunca se eximirá ao cumprimento daquele dever, enquanto ele for vivo. A discussão prolongou-se durante o resto do dia, mesmo à mesa do jantar, com o pai a insistir no seu ponto de vista e Jocas e a mãe a defenderem opinião contrária. E o conflito só parou quando o pai foi para a cama, não sem antes ameaçar o filho que o acordaria com um balde de água pela cabeça abaixo se não estivesse acordado à hora devida.

(continua na próxima edição)

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