De regresso às provas do Torneio Policiário’ 2017, damos hoje a conhecer a mais recente produção do Inspetor Boavida, de quem publicámos recentemente dois enigmas no âmbito do nosso passatempo de iniciação organizado o ano passado.

O problema agora em apreço apresenta um grau de dificuldade que constitui um grande, mas estimulante, desafio para os concorrentes em prova, pelo se aconselha uma leitura muito atenta e cuidada para evitar escorregadelas na tabela classificativa que podem vir a ser irremediáveis.

Entretanto, recorda-se mais uma vez que decorre, até ao dia 30 deste mês de abril, o prazo para o envio de trabalhos dos nossos leitores para o Concurso de Contos subordinado ao tema “Um Caso Policial em Gaia”, que se propõe revelar e distinguir novos valores e consagrar os mais inspirados veteranos da escrita policial.

 

TORNEIO POLICIÁRIO’ 2017

Prova nº. 3   
“Morte na Banheira”, de Inspetor Boavida
O subchefe Pinguinhas estava furibundo. Nunca um dia da sua já cinquentenária vida tinha começado tão mal. O despertador não tocou de manhã, as torneiras de sua casa não brotavam uma gota de água, o automóvel só pegou de empurrão e ao chegar ao gabinete de trabalho deparou com mais três novos processos em cima da sua secretária, onde já existia uma imensa pilha de casos pendentes.

Quando estava a tratar, de uma forma apressada e improvisada, da sua higiene pessoal na casa de banho do posto onde presta serviço, o superintendente Pezinhos chamou-o com urgência ao seu gabinete. De cara mal lavada e ainda com restos de gel de barbear no canto da orelha direita, o subchefe Pinguinhas perfilou-se em frente ao seu superior e nem queria acreditar no que os seus ouvidos escutavam: o engenheiro Barbosa Ramos, que vivia ali a pouco menos de duzentos metros, estava há mais de duas horas enfiado no seu quarto de banho e não respondia ao chamamento da criada.

Destacado pelo seu superior hierárquico, o subchefe Pinguinhas dirigiu-se a casa do engenheiro para se inteirar do sucedido. Ao chegar ao local, identificou-se à criada e dirigiu-se de imediato ao quarto de banho. A porta estava fechada, mas, como se tratava de uma fechadura vulgar, conseguiu abri-la com a maior facilidade, com recurso ao molho de chaves de trabalho que traz sempre consigo. Lá dentro deparou com um cenário pouco agradável. Entre os vapores da água, jazia Barbosa Ramos. A sua cabeça estava tombada sobre o peito. E, na nuca, tinha uma brecha enorme. Não havia dúvidas: a morte fora instantânea.

O subchefe Pinguinhas olhou de forma minuciosa para todo o interior da casa de banho e não encontrou nada de relevante fora do seu sítio natural. Voltou-se depois para a criada e “disparou” a pergunta inevitável: O que se passou aqui?

– “Após mais uma violentíssima discussão, motivada por ciúmes doentios, com a mulher e com o irmão, o senhor engenheiro fechou-se no quarto de banho para o seu habitual banho de imersão, que eu lhe preparo todas as manhãs, passava muito pouco das nove horas. Voltei para a cozinha e cerca de dez minutos depois ouvi sair o irmão, furioso, batendo com a porta da rua. A senhora saiu por volta das dez horas, como é costume, para a sua aula de musculação diária no ginásio.”

Enquanto o subchefe Pinguinhas olhava disfarçadamente para o corpo roliço e apetecível da criada, esta prosseguia o seu depoimento: – “Eram quase onze horas e o senhor engenheiro continuava no quarto de banho. Estranhei e resolvi bater à porta, mas não obtive resposta. Ainda procurei ver alguma coisa pelo buraco da fechadura, mas não consegui ver fosse o que fosse. Foi então que decidi telefonar para a polícia e depois para o irmão do senhor engenheiro e para a mulher, que devem estar por aí a chegar.”

Naquele preciso momento irromperam pela porta da casa o irmão e a mulher da vítima, que foram de imediato postos ao corrente da ocorrência e objeto de interrogatório sumário, em separado. O irmão de Barbosa Ramos confessou que naquela manhã tinha tido uma discussão acalorada com o engenheiro, situação que era recorrente há um mês a esta parte, e que saiu furioso porta fora quando ele foi tomar o seu habitual banho matinal. A mulher do engenheiro foi dizendo, entre lágrimas e entrecortados soluços, que amava muito o seu marido e que será incapaz de suportar o desgosto de o perder, apesar de nos últimos tempos a relação entre eles ter esfriado um pouco devido a ciúmes.

O subchefe Pinguinhas voltou ao quarto de banho do engenheiro, mirou de novo o cadáver meio sentado na água fria da banheira, olhou fugazmente para a viúva, esboçou um sorriso enigmático para o cunhado desta e deitou um olhar malicioso para as pernas da criada. Depois, regressou à sala de estar, pegou no seu telemóvel e ligou para a Polícia Judiciária.

 

DESAFIO AO LEITOR

Como terá morrido o engenheiro Barbosa Ramos? Estaremos perante um caso de homicídio ou suicídio? Elabore um relatório circunstanciado do sucedido, não descurando nenhum pormenor que considere relevante para a fundamentação do seu raciocínio, e depois envie-o para o orientador da secção, até 10 de maio, por um dos seguintes meios:
– por correio, para: AUDIÊNCIA GP / O Desafio dos Enigmas, rua Mourato, 70-A – 9600-224 Ribeira Seca RG – São Miguel – Açores;
– por email, para: salvadorpereirasantos@hotmail.com.
Mas, atenção: não se esqueça de identificar a solução enviada com o seu nome ou pseudónimo.

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