Escrevo no dia 11 de Setembro de 2019. Abro o JN na edição de hoje e se noticia o novo filme do aclamado diretor italiano, Nani Moretti e a sua relação de Chile-Itália, que destaca o papel da embaixada italiana durante o golpe militar que derrubou o presidente Allende e instituiu uma violenta ditadura no Chile. Muitos opositores buscaram abrigo no local e conseguiram com isso asilo na Itália.

O filme traz inúmeras cenas de arquivo e entrevistas de diversos dos personagens desta história, de todos os lados. A embaixada de Itália em Santiago está situada na rua Clemente Fabres 1050. A toponímia desta rua veem de José Clemente Fabres (1826 – 1908) advogado, académico e político conservador, chileno, considerado um dos juristas mais importantes do séc. XIX. Curiosamente era a rua na qual moravam dois estimáveis tios da minha infância e adolescência. Por isso conheço muito bem o argumento deste filme.

O filme relata a história de aproximadamente 750 perseguidos políticos chilenos que foram salvos por diplomatas da Embaixada da Itália em Santiago do Chile após o golpe de Estado. O realizador italiano aparece numa cena que o mostra num frente a frente com Raúl Eduardo Iturriaga Neumann, que foi general do Exército do Chile e diretor da Dina (Direção de Inteligência Nacional), um verdadeiro SSS, um Sinistro Serviço Secreto que, durante os anos compreendidos entre 1974/77, sequestrou, torturou, executou e fez desaparecer milhares de dissidentes e opositores políticos no Chile. O general Iturriaga, que cumpre pena por sequestro e homicídio há dez anos em Punta Peuco, cumprimenta Moretti após ter gravado um depoimento no qual deu sua versão dos fatos, tentando a todo custo justificar as torturas e mortes da ditadura.

A 19 de junho de 1995 o brigadeiro (R) Pedro Espinoza foi o primeiro integrante do Exército chileno em cumprir condena no recém-criado penal Punta Peuco. Após ser condenado pelo assassinato de Orlando Letelier (ex-ministro de Allende), logo de ser exonerado. Espinoza chegou a este recinto situado em Tiltil, a 50 quilómetros de Santiago, convertendo-se no primeiro recluso em habitar o cárcere militar.

Uns meses antes, o Congresso havia aprovado a construção do recinto para que os uniformados julgados por crimes de lesa humanidade durante a ditadura cumpriram condena em centros de Gendarmaria, mas segregados de outros reclusos.Com a instauração da ditadura militar no país teve início o estado de exceção e o recolher obrigatório, os opositores ao regime instaurado passaram a ser perseguidos pela polícia, presos e torturados. Nesse momento, a embaixada da Itália e outras embaixadas cumpriram um importante papel ao acolher os inimigos da ditadura.

Na altura do golpe, Piero De Masi e Roberto Toscano eram os embaixadores italianos em Santiago. Eles contam como começaram a receber pessoas em pequenos grupos, mas em pouco tempo eram centenas os refugiados políticos morando na embaixada, muitos com suas famílias, inclusive crianças. ”Não tínhamos mais controle; as pessoas pulavam o muro da embaixada para entrar”. De Masi. “Mas quando um incidente coloca a vida dos exilados e a reputação da embaixada em risco, os diplomatas percebem que chegara a hora de conceder asilo a essas famílias na Itália”. Algumas embaixadas se recusaram a dar asilo, impedindo a entrada nas suas dependências. Outras foram mais generosas. O embaixador da Suécia Gustav Harald Edelst não apenas abriu as portas da representação diplomática sueca como também percorreu campos de refugiados e prisões para recolher aqueles que mais necessitassem ou estivessem interessados em ir para o seu país”.

As embaixadas da Argentina, México, Panamá, Peru e Costa Rica também receberam centenas de pessoas em suas sedes. O meu pai e os meus irmãos refugiram-se na embaixada da Republica Federal Alemanha/RFA na altura o embaixador era Kurt Lüdde-Neurath (1911-1984). Mais de 7 mil exiliados recebeu a RFA, entre eles António Skármeta, escritor e autor de O Carteiro de Pablo Neruda, que fora mais tarde embaixador do Chile na Alemanha em 2000. Na opinião do escritor; “Pela experiencia do povo alemão, e a sua exitosa reconstrução democrática, eles foram capazes de entender o grau de dor e desamparo dos chilenos errantes pelo mundo. Da formação política, da profunda experiencia histórica, sacaram essa força e afeto que entregaram aos chilenos. É a maduração humana que dá a experiencia da historia”.

É verdade há um outro 11 de Setembro, também doloroso e trágico, daquele que falei aconteceu anos antes e viria a gerar um terrorismo de estado!

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