Numa visita aos bombeiros de Castanheira de Pera, distrito de Leiria, o líder do PSD, para chamar a atenção para uma suposta ausência de apoio psicológico às vítimas do incêndio de Pedrógão, afirmou: «Tenho conhecimento de vítimas indiretas deste processo, pessoas que puseram termo à vida, que em desespero se suicidaram e que não receberam o apoio psicológico que deviam. Devia haver um mecanismo para isso. Tem havido dificuldades. Ninguém me convence de que não há responsabilidades. O Estado falhou e continua a falhar».

O líder do maior partido da oposição, em queda livre de credibilidade, valeu-se do boato para afirmar que estava em falta a ajuda do Estado e pouco tempo depois pediu desculpas porque deu ouvidos a informações que não teve o cuidado de validar e confirmar, como, aliás, mandam todas as normas do decoro e bom senso que não teve, ao aproveitar-se duma tragédia para fazer política baixa e demonstrando uma total falta de respeito pelas vítimas e seus familiares.

Encurralado por esta inadmissível atitude do seu líder, o PSD foi obrigado a deitar água na fervura esclarecendo então que quem tinha fornecido a informação falsa fora o provedor da Misericórdia de Pedrógão, João Marques, por coincidência também candidato do mesmo partido à Câmara Municipal e também ele procurando desculpar-se, pois julgara fidedigna a informação da existência de suicídios, ou seja, todos eles candidatos ao suicídio político por sofreguidão do vale tudo na exploração da desgraça.

Na Assembleia da República e durante a discussão sobre os incêndios, causas, medidas e culpabilidades, tanto PSD como CDS, comportaram-se como se estivessem totalmente alheios a este problema e procurando atirar areia para os olhos dos portugueses, sabendo muito bem que foram as suas medidas e as políticas de direita que prepararam o caminho escondendo que cortaram 150 milhões à floresta na reprogramação do QREN, que liberalizaram o plantio do eucalipto, que desmantelaram estruturas do Ministério da Agricultura, que cortaram a torto e a direito em tudo o que envolvia afectação de recursos ao ordenamento e à prevenção, com a lei da eucaliptização, com graves alterações à lei dos baldios, corte de 200 milhões de euros do PRODER na área da floresta, boa parte dos quais destinados à prevenção.

Querem respostas sérias? Desenterrem a Lei de Bases e a Estratégia Nacional para as Florestas aprovadas respectivamente em 1996 e 2006, concretizem todas as medidas lá identificadas no calendário fixado, invistam no ordenamento e na prevenção, coloquem a floresta e as populações à frente das imposições orçamentais da União Europeia, criem as centenas de equipas de sapadores em falta, reponham o corpo dos guardas-florestais com os seus pontos e casas de apoio à floresta, assegurem preços da madeira que incentivem a gestão activa da floresta e já agora, em vez de poupar umas décimas do défice, antecipem o dispositivo de protecção civil em pleno.

Mas não, fizeram tudo a favor duma emergente indústria da celulose, hoje com grande influência na gestão florestal do País e favorecendo Amorim, Belmiro, Queirós Pereira e outros, os que compram a madeira. Parafraseando Jerónimo de Sousa «senhores, gastam-se milhões de euros de dinheiros públicos, nacionais e comunitários, a subsidiar as fábricas desses senhores e depois não há massa para os sapadores florestais, para o cadastro, para as equipas de análise do fogo, para as faixas de gestão de combustível, quem defendeu uma política agrícola de liquidação da pequena agricultura para lá pôr eucalipto?”

Paralelamente, a desertificação do interior levada a cabo ao longo dos vários governos pela crescente escassez de serviços públicos, tribunais, centros de saúde, correios, bancos, responsabilidades directas que sucessivos governos têm na promoção de políticas que, ao longo de décadas, incentivaram e até pagaram, com dinheiros da União Europeia, o abandono de culturas, de campos, da pastorícia e da própria acção agrícola, a par de uma actividade florestal irracional, incrementada abundantemente pelo próprio poder político, que teve o seu ponto alto na promoção da plantação do eucalipto por Mira Amaral, ministro da Indústria e da Energia do segundo governo de Cavaco Silva, chamando-lhe o «petróleo verde» do nosso País, sem ninguém desconfiar que se preparava a disseminação intensiva da plantação do eucalipto, por muitos considerado um «vampiro da água» nos terrenos onde é plantado e que, em 10 anos apenas, saltou de 3% do território ocupado para 23%.