Depois de dois anos de interregno, as tradicionais Cavalhadas de São Pedro mobilizaram milhares de pessoas que, no passado dia 29 de junho, saíram à rua para admirarem o desfile, que partiu do Solar da Mafoma, na Ribeira Seca, até à Igreja com orago daquele santo e à cidade da Ribeira Grande. Este ano, foram 127 os cavaleiros, entre lanceiros, mordomos, peões, corneteiros e o rei, que envergaram os seus melhores trajes, para honrarem um legado que tem cerca de 459 anos de história.

 

A história das Cavalhadas de São Pedro remonta a 1563, ano em que o vulcão do Pico do Sapateiro entrou em atividade, deixando a Ribeira Seca quase totalmente subterrada e a ribeira seca. No entanto, a lava rodeou a Ermida de São Pedro, deixando a imagem intacta, o que, na altura, foi considerado por muitos como sendo um milagre.

Anos mais tarde, outro vulcão entrou em erupção e o Governador da Ilha, que vivia em Vila Franca do Campo, lembrou-se do fenómeno ocorrido na Ribeira Seca e prometeu que se o seu palácio e a sua esposa, que estava grávida, sobrevivessem, visitaria São Pedro todos os anos, enquanto tivesse vida, no seu dia, 29 de junho. Apesar da grande destruição causada pela crise vulcânica, a família e o palácio do Governador foram poupados, pelo que a 29 de junho dirigiu-se em longa procissão com os seus vassalos, mordomos do Espírito Santo e peões, envergando os seus melhores trajes. Chegados à ermida, o fidalgo declamou em quadras evidenciando a vida do santo, deu sete voltas ao adro, em representação dos sete dons do Espírito Santo, e dirigiu-se para a Ribeira Grande, onde deu três voltas à Igreja do Espírito Santo e três à Ermida de Santo André, irmão de São Pedro. Com o passar dos anos, cada vez mais o povo se juntou a este cortejo e, após a morte do Governador, como a devoção já era grande, o desfile continuou a ser celebrado.

Atualmente, as Cavalhadas concentram-se, durante a manhã do dia 29 de junho, junto ao Solar da Mafoma, saindo em desfile até à Igreja de São Pedro. O percurso continua com destino à cidade da Ribeira Grande, realizando-se, ainda, as três voltas à Igreja do Espírito Santo e à Ermida de Santo André.

Englobadas na tradição, estão também as Cavalhadas Infantis, que se iniciam a partir das 12 horas e habitualmente reúnem mais de 50 crianças, trajadas a rigor e montadas em cavalos de madeira.

Por conseguinte, Alexandre Gaudêncio, presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande, revelou, em entrevista exclusiva ao AUDIÊNCIA, que “as Cavalhadas são uma tradição secular, aliás, não há memória de que tenham sido interrompidas ao longo da sua história, a não ser nestes dois últimos anos devido à pandemia, mas também foi com muita ansiedade que as pessoas estavam à espera deste momento”.

Assim, depois de dois anos de interregno, esta edição de um legado que cerca de 450 anos, contou com a participação de 127 cavaleiros, devidamente trajados. “Tivemos cerca de 50 participantes que foram pela primeira vez e cerca de metade dos participantes com menos de 20 anos, o que revela que é uma tradição que está para ficar”, explicou o edil ribeiragrandense, sublinhando que “nós atribuímos prémios aos melhores cavaleiros e, pela primeira vez na história das Cavalhadas, quem ganhou foi uma senhora, o que também revela que estamos a acompanhar os novos tempos, em particular a questão da igualdade de género, e este foi um facto evidenciado por todos e muito aplaudido”.

Assegurando que se tratou de um percurso com quatro ou cinco horas, como manda a tradição, o autarca admitiu que “foi comovente vermos que, ao fim deste tempo todo, estávamos, finalmente, a retomar à normalidade”.

As Cavalhadas de São Pedro, na Ribera Seca, fazem parte do roteiro cultural de São Miguel. “Tivemos muitas pessoas a assistirem, o que excedeu as nossas expectativas. Também tivemos muitos turistas, que visitaram a ilha, para assistirem às nossas tradições, o que, para nós, só revela que estamos no caminho certo, por isso, eu diria que superou, também, os anos anteriores à pandemia”, sublinhou o edil, salientando que “o balanço é extremamente positivo, pois esta é uma tradição da Ribeira Grande, é peculiar e quem nos visita gosta de assistir a estes legados. Os turistas procuram esta autenticidade, o que, para nós, é relevante, porque representa o que de melhor temos para oferecer”.