O amigo João Luís Pacheco, detentor de vários títulos de cidadão, de pelouros e comendas, ao assumir a presidência dos Amigos da Ribeira Grande (USA) recebeu uma fuseirada que dizia que na organização se instalara uma ditadura.

João Pacheco é um homem de bem, respeitador dos morais, defensor da diplomacia, brindado com os dotes da cortesia e da simplicidade, capaz de receber um louvor ou uma crítica com o mesmo sorriso. Por isso, não será abuso dizer-se que, realmente, foi implantada uma ditadura, pelo facto de esta ser a presidência que mais tempo tem durado. Faz-nos lembrar a câmara municipal presidida por Monsieur Antoine Pierre de la Côte du Nord, que depois de ele nela se enfiar nunca mais queria dela sair. Porém, no nosso caso, damos as culpas à pandemia. Três anos inativos são de lamentar, e dá-nos uma profunda tristeza pensar que neste de 2022, se tudo estivesse normal, se haveria de realizar a Trigésima Confraternização de Naturais e Amigos do Concelho da Ribeira Grande.

A última reunião ordinária da organização realizou-se no fim de 2019, quando João Pacheco assumiu a presidência. Depois veio a pandemia, e nem se chegou a planear atividade nenhuma para 2020. Confinamentos, proibições, e tudo mais o que a gente sabe, seguindo conselhos, respeitando regras e ordenações das autoridades. Graças à tecnologia, nunca faltou comunicação para boas e más notícias. Agora, neste terceiro ano, é que os eventos comunitários estão novamente a dar à luz. Mas ainda há que haver cautela. Ainda mais, porque se prevê para este verão uma nova onda de Covid-19, numa outra variante; e este assunto termina aqui.

Tudo isto vem a propósito da pilha de saudades que a falta dos ajuntamentos dos membros da referida organização provocou nestes três anos. É que todos eles, quando se reúnem, sentem-se em família. É a família ribeiragrandense da Nova Inglaterra. Dela alguns já partiram para a eternidade, outros se afastaram com seus motivos. Mas ainda cerca de vinte membros dedicam-se intensamente às causas da organização.

Em meados de Abril recebemos uma chamada telefónica de New Bedford. Era Alda Pacheco. Para nos informar que o Zé Cebola ia de vez para as ilhas. Por este motivo ele gostaria de se despedir do pessoal todo, com um jantar de confraternização, pelo que ela logo disponibilizou a sua casa e todos seriam bem-vindos. Grande alegria! Tal qual uma reunião. Que não, retorquiu a Alda. Não é reunião nenhuma. É simplesmente um jantar de despedida para o nosso querido José Aguiar.

Sim, foi um jantar de despedida, e reunião não deixou de ser. Pelo que, nela foi posto logo de parte a realização do convívio ribeiragrandense este ano. A gente já sabia. João Pacheco foi alvo de mais uma ou duas fuseiradas e mostrou-nos aquele sorriso que tanto gostamos de ver. Convívio em 2023? Ainda é cedo para fazer decisão. Daqui até lá muita água há-de correr na nossa ribeira.

José Aguiar, conhecido entre amigos por Zé Cebola está ligado aos Amigos da Ribeira Grande desde a sua fundação. É aquela pessoa que fazia verter águas no rosto dos camaradas todas as vezes que se recordava dos momentos felizes vividos na Terra Fusa. E quando se falava na discriminação que nós, emigrantes, sentíamos na terra-natal ao visitá-la, dizia em voz alta que não admitia ser chamado de “mosca de verão”, tentando comprovar que sendo imigrante neste grande país era muito mais açoriano do que os próprios residentes na Região. Queixava-se que a América para ele significava trabalho e nada mais que trabalho, ao passo que a sua, e nossa, Ribeira Grande era a terra da felicidade.

De facto, conhecendo de perto o Zé Cebola, sabemos perfeitamente que a América que o rodeava era-lhe desconhecida. Conhecia, sim, algumas associações locais, das quais é membro ou sócio, por assim dizer: as representações lusófonas que mantêm a Portugalidade nestas paragens. Fez muitas viagens em trabalho, e até chegou a sair do país. Foi a Portugal e a outras  partes longínquas, como a China, por exemplo. Porque acima de tudo era dedicadíssimo ao trabalho. Nunca se poupando a esforços a sua recompensa foi, ao longo de muito tempo, as férias na Ribeira Grande, que nos últimos anos foram aumentadas em termos de duração.

Chegando à reforma, planos foram elaborados para o seu regresso definitivo à nossa terra, onde é uma pessoa muito conhecida, querida, admirada e respeitada, principalmente nas “suas” Poças, onde consome, em média, três quartos de um dia de sol. Alguns camaradas até, por brincadeira, chamam o Zé de “guardião das Poças”. Ele diz que não é ele, mas sim o Luís Simas. Pois, então, fica em segundo lugar.

O Zé é um dos sete filhos de José de Sousa Aguiar, Cebola por alcunha, e de Eulália Raposo Pombeiro. A saber os nomes dos irmãos: Luís Carlos, Duarte Manuel (falecido aos sete meses de idade), Gualter Manuel, Gonçalo Aguiar,  Maria Clara e Fernanda Maria. Todos boa gente, e a alcunha de Cebola ninguém lhes tira, porque é da família, cujo patriarca ostentava com muito orgulho.

Ainda há muita gente na Ribeira Grande que se recorda da Loja do Cebola. Uma das mais conhecidas tabernas, com alvará de Casa de Pasto, e que vendia também alguns artigos de mercearia, conforme nos conferiu o Gualter, entre dois dedos de conversa.

O nosso amigo José nasceu aos 20 de Março de 1950. Depois de frequentar a Escola Central fez admissão no Liceu Antero de Quental e na Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada. Optou por este segundo estabelecimento de ensino pelo facto de poder usar os livros dos primos que lá estudavam. Mas desistiu no segundo ano do Curso Geral do Comércio, porque pensava que já sabia tudo. Desculpa de mau pagador, na linguagem dele. Na verdade, perdeu o ano por faltas. A Piscina de São Pedro e o futebol do Clube União Micaelense, onde chegou a ser jogador no escalão júnior, mostraram-lhe o lado risonho da vida.

Mas para manter a boa-vida é necessário ter dinheiro, e como este se consegue com trabalho, o Zé quis ir trabalhar. Foi para a pedreira, acarretar pedra às costas por 7$50 (sete escudos e meio) por dia. Chegava-se ao sábado à noite, ele e seus colegas de trabalho recebiam a féria na loja do pai. Quartilhos (copos) para os mestres; meios quartilhos (meiozinhos) para os serventes, e uma laranjada para o José. Quarenta e cinco escudos entregues ao pai num envelope, e dele só via dele cinco “patacas” ao domingo.

Por esta e outras razões parecidas é que o José gostava das lides da taberna, aos domingos de manhã, enquanto o pai ia à praça (mercado agrícola). Os líquidos das garrafas estavam todos marcados a olho, e era difícil desviar alguma pataca; mas vendendo copos, meios-copos e dezasseises de vinho, sempre dava para pôr na algibeira alguma coisa.

Isto faz-nos lembrar aquela cena dos “dois-e-meio” (2$50) que o sr. Fulano de Tal dava aos seus dois filhos todos os domingos; e que um deles, armando-se em esperto, assim falou ao pai: “Papá, eu preciso de cem escudos…” Vira-se o pai: “Cinquenta escudos? Para que queres os vinte escudos? Dez escudos não dão para ti? Pega lá em cinco escudos e dá metade a teu irmão.

Avançando com a estória do Zé Cebola, porque o tempo não perdoa, e muito menos a paciência dos leitores, há a salientar que o Zé lutou por um trabalho melhor, e arranjou emprego na Lacto Açoriana. Com o passar do tempo, achou que teria boas oportunidades naquela empresa, e resolveu voltar à escola. Esta decisão colocou-o nos escritórios da companhia.

Em 1971 foi para a tropa, sendo enviado para Portugal Continental. A 12 de Setembro do mesmo ano, faleceu o pai, em São Miguel. No final deste mês o Zé terminou a recruta e foi transferido para o Centro de Instrução de Sargentos Milicianos, em Tavira, e depois foi colocado nos Açores, mais precisamente no Batalhão de Infantaria nº 17. Voltou ao “Continente” para tirar mais cursos, tendo sido promovido a Furriel Miliciano em Junho de 1973. Passou à disponibilidade em 30 de Setembro de 1974.

Serviço militar cumprido, regressa o Zé à Lacto Açoriana. Desta vez como operador de “máquinas de contabilidade”, e mais tarde de computador, onde se manteve até Outubro de 1979. Altura em que uma empresa de Ponta Delgada lhe ofereceu o dobro do ordenado. Mas como o “bom filho a casa volta”, assim voltou o Zé à Lacto Açoriana em Dezembro de 1981, por mais vinte contos equiparados e disputados. A Ribeira Grande ganhou, mesmo com a outra disposta a pagar mais. Primeiro por ser a sua terra, segundo pela proximidade entre a casa e o trabalho, sendo já casado e pai de uma filha.

Havia contraído matrimónio com Fernanda Maria Teixeira, em 22 de Fevereiro de 1975, na Ermida de Santo António, no Monte Brasil, Freguesia da Sé, Angra do Heroísmo. Deste casamento veio um casal de filhos: Sandra Margarida Teixeira Aguiar, nascida na Ribeira Grande e James Teixeira Aguiar, nos Estados Unidos.

Aos 13 de Março de 1984 o Zé, a Fernanda e a Sandra saíram de São Miguel, e pararam na Terceira por cinco dias, para despedidas de familiares e amigos. Chegaram à América no dia 17 e assentaram-se em Cambridge, Massachusetts.

José Aguiar, depois do primeiro trabalho que teve por cerca de um ano e meio, numa fábrica de sapatos, apareceu-lhe a oportunidade da vida numa grande companhia, onde se manteve até à reforma, como uma “força-viva”.

Recorda com saudade os bons tempos de atleta, tanto na vida civil como na militar. Orgulha-se de ter sido júnior do União Micaelense em 1965, e deste clube ter ido para o “seu” Ideal da Ribeira Grande, onde foi jogador por cerca de catorze anos, combinados entre júnior e sénior. Ainda no futebol, também chegou a ser treinador.

Foi 2º Comandante dos Bombeiros Voluntários da Ribeira Grande, e mais tarde 1º Comandante. Encartado pela Liga Portuguesa de Bombeiros, atualmente é Comandante Honorário.

Ainda na Ribeira Grande, é sócio do Sport Clube Ideal e da Banda Triunfo. Na Terceira, do Clube Vilanovense.

Quanto ao associativismo local:

Sócio “life member” do Portuguese American Civic League, onde foi tesoureiro por mais de trinta anos; Clube Desportivo Faialense; Clube Recreativo Lusitânia; Filarmónica de Santo António; Santo Cristo Center, Inc. Todos em Cambridge – a cidade que o acolheu de braços abertos, onde viveu por quase quatro décadas, sempre com o coração na Ribeira Grande.

Pedimos ao Zé para colocar as duas cidades numa balança de pratos iguais. Feita a prova, ele tirou esta conclusão:

À minha Ribeira Grande devo tudo o que sei. Do andar, ao falar e ser Homem foi lá que aprendi. Os Estados Unidos foi só para trabalhar”.

   No nosso ponto de vista os pratos da balança estavam à mesma altura, mas nem todas as situações são apreciadas do mesmo modo. E as aparências exteriores nem sempre divulgam aquilo que o coração sente.

Resta-nos desejar ao Zé Cebola as maiores felicidades nesta nova fase da vida:

Por favor, Zé, cuida bem das nossas Poças. Para que sejam sempre nossas. Minhas e tuas, e dos nossos parentes, amigos e benfeitores.

Até breve! Um abraço e haja saúde!

 

 

Fall River, 20 de Maio de 2022

Alfredo da Ponte