Ricardo Ribeiro é o nosso convidado para mais uma conversa sobre a atividade teatral em Gaia. A sua estreia como ator profissional aconteceu em 2013, vestindo a pele de Bernardo Soares em “Pessoas”, numa produção da Seiva Trupe. Nesse mesmo ano concluiu a licenciatura em Teatro pela Escola Superior Artística do Porto e iniciou uma participação regular com a estrutura gaiense ETCetera Teatro.

Em 2015, integrou o elenco de “O Anjo da Guarda” de Roberto Merino, pela companhia NAPALM, no Auditório Municipal de Gaia, e participou na reposição de “Agapornis” do Teatro de Marionetas do Porto, a partir do universo literário de Anaïs Nin, interpretando o escritor Henry Miller. Em 2016, pisou o palco do Teatro Nacional São João para interpretar Osvald Alving, em “Espectros”de Henrik Ibsen. E em 2018, fundou, com os atores Pedro Miguel Dias e Inês Cardoso, a “Primeira Pedra”, unidade de produção gaiense que estreia, no próximo dia 17 de outubro, o espetáculo “Loucos por Amor”, no Armazém 22, no centro histórico de Gaia.

Qual é e como defines a personagem que interpretas nesta intensa e comovente peça de Sam Shepard?

A personagem que estou a interpretar em “Loucos por Amor” é Eddie. Se tivesse que o definir numa só palavra e se o texto estivesse [a ser utilizado] na íntegra, seria hedonista. Mas, face ao desafio da encenação do Pedro [Miguel Dias], que nos sugeriu questões como “e se, de repente, o mundo tecnológico como o conhecemos deixasse de existir? Como nos relacionaríamos nesse mundo? E como experimentaríamos o amor nessa era pós-apocalíptica?”, creio que a personagem se torna um pouco confusa no que diz respeito à sua conduta moral. Pelo menos, aos meus olhos. Ainda estamos em processo criativo, ou seja, ainda estamos a trabalhar no sentido de descobrir como se comportariam Eddie e May nesse mundo reduzido à sobrevivência.Ao focar-me apenas na relação entre estes dois, a questão é, creio eu: “Com que olhos veríamos o incesto num mundo com pouca  ou nenhuma conduta moral?”

Na transposição da peça para cinema, o próprio Sam Shepard interpretou Eddie. Até que ponto a sua interpretação no filme te inspirou na criação da personagem?

Eu conheço bem o filme, mas não procurei vê-lo em momento algum desde que iniciámos o projeto. Aquilo que quero passar enquanto ator e artista é uma verdade só minha. Claro que existem negociações constantes com o Pedro [o encenador], mas procuro as respostas todas em mim e não na cópia de um trabalho magnífico como o de Sam Shepard. Quando não as tenho, e neste caso não tenho muitas, procuro respostas em outros filmes, em pinturas, em exercícios físicos, na meditação… Até mesmo nos sonhos. Não na totalidade de um sonho, mas em pequenos detalhes de vários. Muitas vezes, de sonhos que ainda retenho na memória desde os três, quatro anos. 

A peça revela-nos um drama que nos arrasta para dentro de uma descrição maníaca de um amor lamentável. Está a ser fácil recriar este drama?

Bom… Fácil é aquele adjetivo que nos faz comichão. O trabalho em volta da dramaturgia, por exemplo, foi denso, porque tivemos que adaptar o texto a uma realidade distópica que existe apenas nas nossas cabeças. Recentemente demos início ao trabalho físico. Estamos a explorar movimentos e gestos de forma a que possamos encontrar outros símbolos. Um pouco à semelhança do que nos é sugerido nos primeiros filmes “Mad Max”. Portanto, não. Não está a ser fácil, mas está a ser imensamente prazeroso. 

Eddie vive enredado na força de uma paixão, de um louco amor por May, que não pode ser concretizado. Quem é May nesta produção da “Primeira Pedra”?

A personagem May está a ser interpretada pela Inês [Cardoso] que, além de já termos trabalhado juntos várias vezes, é uma das minhas melhores amigas. Frequentámos a mesma turma de teatro, na ESAP (Escola Superior Artística do Porto), e foi nessa altura que demos de frente com este texto pela primeira vez. Prometemo-nos que iríamos interpretá-lo juntos um dia e cá estamos.Se quiserem saber mais sobre a May desta adaptação, o melhor é lançar este mesmo desafio à Inês. 

Quem é o ator que compõe o triângulo amoroso desta versão da peça de Shepard? E quem encarna o Velho que existe nas mentes de Eddie e May?

O ator que está a interpretar Martin é o Pedro Miguel Dias, também encenador deste espetáculo. É a primeira vez que ele está a trabalhar na encenação e na interpretação em simultâneo. Se para mim e para a Inês está a ser difícil, então não sei como adjetivar esta experiência para o Pedro. Terão que lhe perguntar.Quanto ao Velho, tivemos muita sorte. Lembro-me que quando tivemos de pensar numa figura/voz para este papel que a fasquia estava muito elevada. E porque não tentar aquele que para nós era a própria fasquia.Posto isto, o gigante (em corpo, alma e talento) António Durães é o ator que completa o elenco de “Loucos por Amor”.Muito, muito obrigado Durães! 

A peça de Shepard estará apenas quatro dias em cena, de 17 a 20 de outubro, no Armazém 22. Já está prevista a sua reposição ou itinerância? 

Ainda não existem datas previstas relativamente à reposição do “Loucos por Amor”. Mas já demos início ao contacto com espaços e festivais que poderão ter interesse em acolher-nos. Quem estiver a ler, [saiba que] estamos abertos a propostas. 

Entretanto, o monólogo “Diário de um Louco”, também um espetáculo da “Primeira Pedra” por ti interpretado, foi selecionado para um festival em Macau. Feliz com a distinção?

Estou muito feliz por termos conseguido tanto no primeiro ano de existência enquanto Primeira Pedra. A experiência foi-nos ensinando a enviar currículos, assim como propostas de acolhimento, sem grandes expectativas. O “não” é garantido. E os poucos “sins” que tivemos revelaram-se grandes oportunidades. Eu fiquei incrédulo quando soube da notícia de Macau.É para nós uma imensa responsabilidade e honra representar o teatro português, Portugal, Vila Nova de Gaia e Avintes no outro lado do mundo. 

Antes da sua participação na Mostra de Teatro dos Países de Língua Portuguesa em Macau, o “Diário de um Louco” apresentou-se no Festival Internacional de Teatro de Setúbal em agosto. E depois volta a Gaia, certo?

Exatamente. Inserida na 2ª. edição do Festival de Teatro José Guimarães, a reposição do espetáculo “Diário de um Louco” realizar-se-á no espaço da Tuna Musical de Santa Marinha, nos dias 8 e 9 de Novembro, pelas 21:30. Aproveito para convidar todos os cidadãos de Gaia, desde o jovem estudante ao presidente da Câmara, para que apareçam e se deliciem, principalmente, com o trabalho das companhias profissionais da sua cidade. Gostaria muito que este fosse um ponto de viragem na história cultural de Vila Nova de Gaia, que houvesse um despertar de consciência para a necessidade de encontrar um equilíbrio entre aquilo que são os espaços de lazer e os espaços de reflexão. Porque o teatro também é um espaço de reflexão, assim como a música, o cinema, a dança e etc. 

Na tua opinião, o que falta para que o teatro profissional, e as artes de palco em geral, tenha uma maior expressão em Gaia?

O número de espaços culturais, para já, não deveria ser tema de conversa, na minha opinião. Antes acredito que deveriam estabelecer-se estratégias focadas no melhoramento das condições físicas e técnicas desses mesmos espaços. Hoje, existem quatro companhias de teatro profissional em Gaia que, e espero estar completamente errado sobre este ponto, têm como prioridade apresentar os seus projetos no Porto, porque as condições aí oferecidas vão ao encontro das suas necessidades. Se nos cingirmos ao teatro como exemplo, uma companhia profissional que é acolhida por qualquer espaço cultural espera encontrar material de luz e audiovisual que a desafie artisticamente para mais e não para menos, espera encontrar técnicos formados e especializados, espera que esses mesmos técnicos tenham à sua disposição ferramentas que lhes ofereçam segurança no trabalho, espera encontrar qualidade. E o público também exige qualidade. Deve a “Primeira Pedra” (como a “Má Companhia”, a “Orla” e a “ETCetera”), que está cheia de vontade de se expressar, fechar os olhos às restritas condições atuais (mencionadas e não mencionadas) dos espaços e pôr-se a mau jeito? Acho que não. Falo apenas por mim quando digo que seria uma honra contribuir e com regularidade na dinamização cultural da cidade de Gaia. Gostaria de ver aberto um diálogo entre a Câmara e as companhias residentes a fim de encontrar soluções em conjunto. Isso seria o início do melhor para todos. 

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