Tão absorvidos nos encontramos com a guerra na Ucrânia que nos entra diariamente em casa, através de notícias, falsas notícias, reportagens, debates explosivos e insensatas tentativas de manipulação, que nos esquecemos por completo de outras situações idênticas existentes em outras paragens deste nosso globo em crise.

A Agência Internacional OXFAM dá-nos conta de que, por exemplo, o custo humano da guerra no Iémen está aumentando acentuadamente à medida que o conflito entra no seu oitavo ano, com o número de mortes de civis, especialmente crianças, e a fome em acentuado crescimento e três quartos da população precisando urgentemente de apoio humanitário.

A Agência informou que mais um ano de guerra trará um sofrimento inimaginável para os civis, pois «quase dois terços dos iemenitas passarão fome este ano, a menos que as partes em conflito deponham suas armas ou a comunidade internacional interfira para preencher uma lacuna enorme no orçamento de socorro. O programa de ajuda deste ano está actualmente 70% subfinanciado, fornecendo apenas 15 centavos por dia por pessoa que precisa de ajuda».

Desde que o monitoramento dos direitos humanos da ONU foi retirado em Outubro de 2021, a taxa de vítimas civis dobrou, chegando agora a mais de 14.500 vítimas, muitas das quais crianças, 24.000 ataques aéreos danificaram 40% de todas as habitações nas cidades durante o conflito e, durante os últimos sete anos, mais de quatro milhões de pessoas foram forçadas a fugir e procurar outras paragens para tentar sobreviver.

As sanções económicas originadas pela crise na Ucrânia exacerbaram a situação, levantando preocupações sobre o fornecimento de grãos e óleo de cozinha, pois o Iémen importa 42% de seus grãos da Ucrânia e os preços já começaram a subir, por exemplo, em Sanaa, o pão subiu 35%.

Ali Hassan Hadi, de Hajah, que tem dois filhos que sofrem de desnutrição, disse: «Às vezes meus filhos dormem com fome. Se almoçamos, pulamos o jantar. Temos que lidar com a situação. Às vezes só comemos pão, outras vezes comemos comida cozida. Na maioria das vezes, não comemos bem».

O aumento nos preços dos combustíveis tem um efeito directo nos preços de produtos essenciais, como alimentos, água e medicamentos, tornando-os inacessíveis para muitos que já lutam para atender às suas necessidades diárias e causando também uma redução nas entregas de ajuda humanitária para áreas mais remotas.

Nos últimos meses, as mudanças nas linhas da frente da guerra levaram a um aumento das mortes e ferimentos causados por minas terrestres ao redor de Marib, onde as forças em retirada as colocam para diminuir a velocidade de seus oponentes e os civis que usam estradas minadas ou recolhem lenha são muitas vezes vítimas.

Na Somália, no Sudão do Sul e Burkina Faso a situação não é melhor, bem pelo contrário, repetindo-se todos os anos e enquanto os conflitos militares se vão multiplicando, ao sabor da ganância de alguns que, na ânsia de hegemonia geoestratégica global e saque dos produtos naturais de países soberanos, espalham a morte e a destruição.

Apesar da necessidade alarmante, a resposta humanitária é lamentavelmente subfinanciada, pois apenas 3% do total de US$ 6 bilhões do apelo humanitário da ONU para 2022 para a Etiópia, Somália e Sudão do Sul foi financiado até o momento, o que é manifestamente insuficiente.

«Em todos os 40 anos da minha vida, nunca vi nada parecido com o que está acontecendo aqui em Akobo. Nos últimos quatro anos, é guerra, inundação, seca, fome, violência ou COVID-19. Isso é demais. Estou cansada de viver. Se continuar assim, duvido que minhas meninas se tornem adultas completas», afirmou Nyadang Martha, no Sudão do Sul.

A OXFAM apela: «Pedimos aos governos, especialmente dos países exportadores de grãos, que façam todo o possível para encontrar alternativas adequadas à iminente interrupção na cadeia de suprimentos da Ucrânia para países de baixa renda e dependentes da importação de alimentos».