Numa altura em que o setor da cultura em Portugal está praticamente parado, o AUDIÊNCIA esteve à conversa com a atriz e cantora Paula Sá, alguém que, com uma carreira já considerada longa, se viu forçada a deixar a sua terra, Ermesinde, para procurar oportunidades de trabalho na sua área em Lisboa. A artista sente que a cultura é vista como algo menor no país e acredita que seria necessário uma “descentralização”, considerando mesmo que muitos não fazem ideia da precariedade que existe no setor. “A vida artística é uma república das bananas”, afirma nesta entrevista Paula Sá.

 

 

 

Começou o seu percurso no mundo das artes muito cedo. Como tudo aconteceu?

 

A minha tia Olga pediu-me para me inscrever no concurso “Chuva de Estrelas”, tinha 13 anos. Fui a primeira concorrente da primeira edição, ainda ninguém sabia o impacto que o programa teria no país e, particularmente, na minha vida.

 

 

Quais foram as suas primeiras participações?

Logo a seguir à loucura do “Chuva”, participei em todas as produções do Filipe La Féria, em galas da RTP, em séries…

 

 

Além da música, também o teatro a chama. Quando apareceu esta paixão, ou sempre andaram lado a lado? 

Passado uns anos de euforia e saltando de projetos discográficos e experiências no campo da representação, tive a necessidade de enriquecer as minhas habilitações literárias e fui estudar na escola profissional de teatro de Cascais, do mestre Carlos Avillez. A partir daí, firmei-me como atriz e cantora e sempre fui trabalhando nas duas áreas. Considero fundamental o estudo da representação, expressão corporal e voz para dar credibilidade a todas as minhas prestações artísticas. E foi a partir desse momento que me considerei profissional. Sem a técnica e o estudo profundo dos nossos talentos, somos meros curiosos…

 

 

Qual o seu percurso a nível profissional, desde que começou, até aos dias de hoje?

O meu currículo é muito vasto, são 25 anos de percurso profissional, desde o teatro, à música, stand-up, ao teatro musical, dobragens, composição e escrita criativa.

 

 

É uma nortenha a viver em Lisboa. Porquê esta mudança?

Simplesmente porque, salvo uma exceção onde trabalhei durante uns meses no Seiva Trupe, nunca tive acesso a audições ou concertos no Porto. Já trabalhei no Algarve longas temporadas e em Viana do Castelo, no teatro Sá de Miranda. Em Lisboa há mais expansão artística e oportunidades de trabalho, sem a menor dúvida.

 

 

Considera, então, que é mais difícil “fazer vida” da arte no Porto do que em Lisboa?

Se eu tivesse oportunidade de me estabelecer no Porto, a trabalhar naquilo em que me formei, não hesitaria em ficar com a minha família que tanto amo, na cidade onde nasci, rodeada de amigos e pessoas tão carismáticas e generosas. E acho que já está mais que na hora de se descentralizar!

 

 

Com esta pandemia mundial, um dos setores que mais foi afetado foi o da cultura. De que forma isso a afetou a si? O que estava a fazer no momento? 

Estava no teatro Maria Vitória, no Parque Mayer a fazer a revista “Páre, escute e ria”. Neste momento, estou em retiro no campo, com o meu futuro adiado por não saber quando voltarei a trabalhar e em que condições. Se já era uma trabalhadora precária, agora nem sei bem em que prateleira vão colocar os milhares de artistas que sacrificam a sua vida por amor à cultura do seu país.

 

 

Como vê o futuro da cultura em Portugal para os próximos meses?

Vejo o futuro com os óculos da esperança. É a única maneira de me manter serena mediante o panorama. Talvez seja preciso ir ao fundo do poço para imergir e valorizar o ar que se respira. Há quase tudo ainda por fazer neste sector. Vejam a percentagem do orçamento que este governo denominou para a cultura. É miserável.

 

 

Considera que as artes continuam a ser o parente pobre e a receber menos atenção do que outros setores de atividade, seja com isto da pandemia, seja já antes?

Afirmo com muito à vontade que nunca me senti parente, quanto muito afastada… como os imigrantes que só regressam no verão e embelezam as suas vidas para os seus familiares naqueles três meses. Há muita desinformação sobre as nossas condições de trabalho, muita falta de rigor, leis, hierarquias e tabelas de valores. A vida artística é uma república das bananas. Os artistas não são aqueles 100 que estão na TV com contrato de exclusividade. São milhares de pessoas que se valorizam através da arte, que criam novos conceitos artísticos, que sabem viver com muito e com pouco, que estão habituadas a ser ignoradas e mesmo assim não desistem. Que não vivem na mama do estado, pagam e contribuem para o PIB, não têm direitos e não se rebaixam em prol do capitalismo.

 

 

Que projetos tem para os próximos tempos, tanto a nível pessoal como profissional? 

Eu já tinha alguns projetos em que estava a trabalhar… Não os vou desvendar por não saber se, de facto, ainda vão ser realizados. Com muita tristeza minha… E constatei, desta vez com mais convicção, que se não estiver em processo de criação de novos elementos artísticos, se não estiver a gravar, a dobrar ou a dar aulas de teatro, se não estiver a representar no palco… a minha pessoa fica frágil, deprimida e cabisbaixa.

 

 

Se pudesse nomear, há algum espetáculo que tenha ficado no seu coração de forma especial? Algo que a tenha marcado até hoje?

O primeiro é sempre o mais marcante: “Maldita Cocaina”. Tinha 14 anos e assisti com o meu pai.

 

Que sonho tem ainda por realizar? 

São múltiplos sonhos por realizar… No fundo, aquilo que desejo são desafios, novos personagens, novos temas, que se abram portas noutras áreas que me permitam engrandecer enquanto artista. E a nível pessoal, sonho manter a minha família unida e feliz.

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